Bye bye, Lassie! Raças de cães que caíram (injustamente) no esquecimento

No passado eles fizeram a alegria de muita gente, mas é raro ver um exemplar das raças que povoaram a infância de quem nasceu na década de 1960, 70 e 80.

Quem não se lembra da formosa Lassie dos anos 1970? Ela, o fox paulistinha e o pequinês são exemplos de raças estampadas nas fotos da infância de muito marmanjo por aí. No caso do collie, os cães chegavam nas famílias embalados pela beleza e dedicação da Lassie, protagonista de uma série de TV que ajudou a divulgar a raça em todo mundo. Dóceis e amorosas, principalmente com crianças, as Lassies envelheceram e morreram, mas apesar das mais belas lembranças a raça não foi reposta. Collie é cachorro para pátio grande, animal para quem mora em casa, e quantos ainda têm o privilégio de ter um quintal inteiro para um mascote?

Depois da Priscila, da TV Colosso, alguém viu um sheep dog por aí (Foto: Pixabay, divulgação)

Depois da Priscila, da TV Colosso, alguém viu um sheep dog por aí ?(Foto: Pixabay, divulgação)

Três fatores contribuem para que uma raça não permaneça mais do que uma década na memória – e nos lares – da população. Na maioria dos casos, a pelagem excessiva complica  a vida  para uma família dinâmica em que todos os integrantes trabalham muitas horas fora de casa.

E o dálmata? Eram 101 e hoje raramente se enxerga um (Foto: Pixabay, divulgação)

 (Foto: Pixabay, divulgação)

Tamanho, nesse caso, é documento e dita as regras na hora de colocar um cachorro para viver dentro de casa, o segundo fator impeditivo. Nos apartamentos pequenos de hoje, algum morador tem de sair para dar espaço para o cachorro entrar, o que de vez em quando até se vê depois de algum divórcio. O terceiro responsável pelo esquecimento são as telenovelas, histórias diárias que ajudam a promover determinadas raças que viram verdadeiras coqueluches por algum tempo.

Quando pelo e tamanho se unem, as chances de uma família repetir um cachorro dessa raça diminuem.

Com quase um metro de altura (sim, de quatro), o dogue alemão perdeu espaço na vida moderna. (Foto: Pixabay, divulgação)

Com quase um metro de altura (sim, de quatro), o dogue alemão perdeu espaço na vida moderna. (Foto: Pixabay, divulgação)

As pessoas não se desfazem de seus cães em função do afeto, mas sua cara e minuciosa manutenção pesam na hora de substituir o cão que morreu.

Outra questão é que, passados muitos anos da “primeira leva” de animais, a popularização da raça faz com que pessoas se lancem na aventura de criá-los de forma irresponsável visando apenas lucro, os chamados “gigolôs de cachorro”, pessoas que, diferentemente dos criadores, negligenciam qualidade estética e funcional dos exemplares.

Lembra da coqueluche dos huskies siberianos? Pois é, onde foram parar? (Foto: Pixabay, divulgação)

(Foto: Pixabay, divulgação)

E genética selecionada sem a observância de alguns critérios gera filhotes menores e menos robustos, remotas lembranças do que eram características originais da raça, mais um fator que desestimula a pessoa a levar para casa uma sombra do que foi o antigo mascote.

Outra vítima do esquecimento, o pequinês – cachorrinho que vivia no colo de muita vovó – foi gradativamente substituído pelo poodle, animal que, vejam só, era branco, fofinho e não soltava pelo, outro pecado que desbancou o sheep dog, a Priscila da Tevê Colosso. Para vingar o pequinês, na virada do século, os escuros yorkshires conquistaram seu lugar; logo depois, junto com os labradores, os lhasa apso começaram a pipocar e, mais recentemente, o lulu da Pomerânia e o bouvier bernois têm cativado muita gente.

E levante a mão quem tem visto algum dos 101 dálmatas, o husky siberiano, o setter irlandês, o sharpei ou o preferido da atriz Bruna Lombardi, o afghan hound.

Algumas raças até podemos compreender o porquê de sua redução. Afinal, fica difícil um lugar para acomodar com conforto um dogue alemão em nosso dias, mas o que dizer se até o toquinho do chihuahua anda sumido?

E quem tá na moda, o labrador (culpe o Marley!, o yorkshire e o fofo Bouvier Bernois (Fotos: Pixabay, divulgação)

Labrador, a esquerda, o cão-guia de cegos. Acima os minúsculos yorkshires e o fofo Bouvier Bernois. (Fotos: Pixabay, divulgação)

Parece que no mundo cinófilo tudo também tem seu tempo. Para os próximos anos, cavalier king charles e leonberg estão no páreo e concorrem às vedetes da vez. Paralelo a isso, muita gente vem optando  pelo animal sem raça uma vez que os cães  de rua, além de doidos por um lar,  se mostraram mais resistentes para as patologias e são eternamente gratos por terem sido resgatados por uma família, pessoas a quem estendem o  companheirismo e lealdade inerente a todos os cães.   Para quem, assim como eu, viveu a infância com a Lassie do lado, resta a saudade que de vez em quando encontra consolo em fotos da internet. Um dia, talvez, nas  esquinas de alguma praça eu ainda me depare com aquele  pelo todo,  lembranças de um  tempo em que apostava corrida com ela  ladeira abaixo, brincadeira que terminava sem dor nos joelhos nem mal jeito nas costas.