Como Marina Smith fez de seu 2Beauty um dos blogs de beleza mais conceituados do Brasil

Fotos: Andrea Graiz
Fotos: Andrea Graiz

De legging preta, camiseta cinza soltinha e chinelos, Marina Smith se apressa para abrir a porta do confortável apartamento em que mora na Zona Sul de Porto Alegre. Contrastando com o look à vontade, o que logo se nota é a marca registrada da blogueira de 32 anos, uma das pioneiras a se aventurar no mundo das makes em terras tupiniquins: o rosto impecavelmente maquiado, com direito a delineador gatinho e lábios nude, que em seguida ganhariam cor para a sessão de fotos com inspiração invernal que você vê nesta página. Talvez seja exatamente o jeito “gente como a gente” e sem muita frescura da gaúcha que tenha conquistado as seguidoras fiéis de seu site 2Beauty, que nasceu em 2007 e hoje acumula mais de 1 milhão de visitas mensais.

– Existe aquela imagem de blogueira com tacinha sempre na mão, mas não sou assim. Dizem que pareço uma pessoa mais real, mas é porque de fato sou. Não faço questão de aparecer produzida em tudo quanto é canto. Gosto de estar em situações reais que é onde me sinto confortável. Fico meio assim é quando tenho que estar produzida, sabe?

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Quem é habitué do portal da moça – que, segundo Marina, é para ser chamado de “DoisBeauty” –, sabe bem. Recheado de opinião sobre todo tipo de maquiagem, da mais em conta de farmácia àquela paleta de sombras recém-lançada lá fora, Marina faz questão de dar notas e pitacos sobre tudo o que testa. E são testes mesmo, viu? Quando chega aquela base que promete ser milagrosa e durar 24 horas, lá vai ela espalhar pelo rosto o produto cedinho da manhã e fotografar, para depois conferir o resultado ao fim do dia. O “antes e depois” é uma das tags que mais faz sucesso no portal, provavelmente por mostrar o que as viciadas em novidades querem saber: afinal, o cosmético é tudo isso?

– É o diferencial da experiência de uma pessoa normal. Em uma propaganda na revista, uma modelo linda usando aquilo fica ótimo, mas e no dia a dia? Na festa? No trabalho? Aquela máscara de cílios vai ficar tão legal? Mostro uma experiência completa do produto: funciona ou não? Para que tipo de pele? – explica.

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Foi exatamente por não encontrar informação bacana sobre o então recém-descoberto mundo da maquiagem, lá em 2007, que Marina decidiu criar o blog. Durante a adolescência, vez ou outra até pegava emprestado um dos batons da mãe ou se aventurava a passar o pancake como bem entendia – “ficava aquela camada grossa horrorosa, mas eu me achava o máximo”, relembra. Quando começou a trabalhar, por volta dos 18 anos, certa vez entrou em uma farmácia para comprar uma sombra, que tentou aplicar sem muito sucesso. Mas logo a frustração teve fim: um dia, assistindo a clipes no YouTube, acabou dando play no vídeo de uma menina americana que mostrava como ela se maquiava – tudo gravado no próprio quarto, sem muita produção. Veio o estalo: Marina percebeu que podia aprender sobre make ali mesmo, na internet. Logo descobriu mais e mais blogs que se dedicavam ao assunto, quase todos em inglês.

– Mas eu queria dicas de produtos nacionais, porque naquela época não tinha a quantidade de marcas que tem hoje. Enquanto eu testava para fazer o blog lá no começo, também estava aprendendo – afirma.

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Pouco mais de dois anos depois de o primeiro post ter ido ao ar, Marina recebeu a ligação de uma loja interessada em anunciar no 2Beauty – e a ficha começou finalmente a cair. À época, a publicitária trabalhava como webdesigner em um grande portal de notícias, e o blog ainda era um hobby. Mas os acessos diários não paravam de crescer, e Marina percebeu que seria necessário se organizar para oferecer mais conteúdo às leitoras. De cinco publicações por mês, passou a ter um post por dia. A virada se deu mesmo quando ela perdeu o emprego em um grande corte de pessoal na empresa, em 2012: com o dinheiro do fundo de garantia, comprou um computador novo, uma câmera melhor e passou a investir no blog enquanto procurava outra vaga, que acabou nunca chegando.

– A demissão foi o pé na bunda que me levou para frente. Na época, o blog já me rendia um bom extra, mas em pouco tempo se normalizou a ponto de hoje eu ganhar mais do que no meu emprego antigo. Não foi algo que planejei. Nunca quis ser blogueira em tempo integral, mas hoje em dia acho ótimo. Se me perguntarem se quero voltar para um emprego normal, diria que não – conta.

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Vida de blogger

A rotina de trabalho de Marina Smith hoje é mais intensa do que quando ela tinha um emprego com carteira assinada – mas com o diferencial de se dedicar exclusivamente a um assunto que ama. Por volta das 9h da manhã, ainda com a xícara de café na mão, Marina liga o computador para checar e-mails e redes sociais. Depois, confere a planilha onde lista tudo o que precisa ser feito naquele dia – sessão de fotos, tutoriais em vídeo, edição de imagens e resenhas de produtos. E antes de tudo, claro, a make do dia. Ou de quase todo dia: ela garante que, às vezes, passa longe de qualquer batonzinho, e sem nenhum pudor.

– Eu me acho horrorosa sem maquiagem, mas faço tudo igual! Até Snapchat! – conta. – Se é um dia que só vou escrever, não uso nada mesmo.

Ou seja, ao contrário do que se pensa de uma blogueira de beleza, Marina garante que não carrega na produção só para ir à padaria. Mas, claro, se vai passar mais tempo na rua, diz que não pensa duas vezes antes de dedicar alguns minutinhos ao ritual de base, pó e rímel.

– Parece que sempre que saio de cara lavada, é quando as pessoas me encontram. Sinto uma certa pressão de estar maquiada sempre, mas não vou encher a cara de coisa para ir até o supermercado e voltar. Mas, aqui no Sul, as coisas são mais tranquilas: sinto mais isso quando estou no Rio ou em São Paulo. Às vezes, estou em um bar e percebo que a pessoa está me olhando, e algumas vêm e pedem para tirar foto. Eu adoro, prefiro que venha falar comigo sempre do que só ficar me olhando como se eu tivesse com comida no dente – completa, rindo.

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Aliás, estar fora do eixo Rio-São Paulo não foi um obstáculo para que o 2Beauty ganhasse relevância como um dos principais sites especializados no país. A exemplo do que se dá com as blogueiras Camila Coutinho, que atualiza o seu Garotas Estúpidas de Recife, e de Thássia Naves, de Minas Gerais, Marina consegue manter contato com marcas no escritório de seu apartamento, em Porto Alegre.

– Estar em São Paulo seria mais fácil porque aqui perco algumas oportunidades por eventualmente não poder viajar. Dificultou, mas não foi impossível – afirma.

De certa forma, estar longe do burburinho tenha até ajudado Marina a se dedicar mais ao conteúdo, em vez de colecionar aparições em coquetéis de lançamento, tarefa básica na agenda da maioria das blogueiras.

– Odeio ir a evento – revela, aos risos, para logo em seguida ponderar: – Na verdade, não é que odeie. Escolho bem, porque é tempo que eu poderia estar produzindo. Estou ali aprendendo sobre um novo produto, claro, mas, às vezes, perco uma tarde inteira, isso sem falar quando é fora de Porto Alegre. Sem contar que tem que estar toda arrumadinha, porque você vai tirar foto e sair em um monte de lugares. Vou em eventos de marcas de que gosto muito ou de produtos sobre os quais estou curiosa. Mas seleciono.

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De consumidora a empresária

Que mulher apaixonada por maquiagem nunca idealizou seu batom perfeito ou a sombra que funcionaria bem em qualquer produção? Com Marina, não foi diferente, mas ela tinha uma fada-madrinha em casa: a própria mãe. Farmacêutica bioquímica, Maria Christina Smith ouviu os apelos da filha e começou a criar em laboratório a versão de tudo o que a blogueira desejava. Primeiro, foi um demaquilante, que logo apareceu no 2Beauty e despertou a curiosidade das leitoras. Depois o primer, que Marina não encontrava de jeito nenhum no Brasil.

Maria Christina conta que, como os produtos eram manipulados, o prazo de validade é de seis meses, o que dificulta a venda no varejo. Outro empecilho: o custo do frete para enviar os itens para outros Estados. A solução era produzir em larga escala.

– Nós já havíamos desenvolvido uns cinco produtos, não tinha por que não industrializar – diz a farmacêutica.

Play! Espia um pouquinho do canal da Marina

A partir dos contatos de Marina com a Sack’s, um dos principais sites de beleza da época – que depois seria comprado pela marca Sephora –, mãe e filha foram ao Rio apresentar o projeto. Foram mais de 24 meses até a chegada da linha de beleza Marina Smith às prateleiras virtuais. Em março, a marca completa seis anos, e a quantidade de itens oferecidos quadruplicou.

– O produto que mais vende até hoje foi sugestão da minha mãe e na qual eu não levava fé: gel fortificante para sobrancelhas – conta Marina.

Atualmente, a coleção, produzida por duas empresas gaúchas, é uma das únicas nacionais disponíveis no sephora.com.br, ao lado de com grifes como Chanel e M.A.C. E, mesmo com a crise, as vendas cresceram 21% no ano passado. E já estão em fase de teste itens como água micelar (demaquilante), novos batons e blushes, fixador de maquiagem e uma linha para cabelos oleosos.

– Tem também um primer para olhos, que estou testando há tempos, mas ainda não está do jeito que eu queria – adianta Marina.

Com a mesma sinceridade com que avalia os produtos que recebe todos os dias (e que ocupam um ármário no quarto de hóspedes, além da penteadeira digna de salão de beleza), a blogueira dá pitacos e o veredicto final sobre cada um dos cosméticos que levam o seu nome. Da ideia à chegada na fábrica, o processo pode levar de seis meses a um ano e meio. Ou até mais, se não ficar do jeitinho que Marina deseja.

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Direto da penteadeira! 4 truques para…

Fazer olhos de gatinha

“Quando comecei a fazer o delineado, ainda não me entendia muito bem com ele. Você pega uma fita adesiva e gasta um pouquinho a cola para não estragar a maquiagem. Aí é só grudar do canto externo do seu olho até a pontinha da sobrancelha e fazer o traço. Fica bem retinho! Também funciona quando você quer fazer um olho mais trabalhado, com sombra.”

 

Disfarçar olheiras

“O único lugar em que menos não é mais é nas olheiras. Eu tinha muito problema de maquiagem acumulando na linha do olho, e sempre passava o mínimo de corretivo e pó e mesmo assim aparecia. Descobri em um vídeo que é justamente o contrário: quando você usa mais, o produto acaba preenchendo a linha, e faz com que não craquele. Aprendi a usar esponja e pó para finalizar o corretivo porque a impressão que tenho é que não acumula tanto.”

 

Fazer o batom durar mais

“Ao natural, batons com acabamento matte costumam durar mais. Se você optar por um cremoso, aplique o batom e finalize com uma camada de pó translúcido por cima. E se você tiver uma sombra parecida com o batom escolhido, passe um pouco por cima dos lábios – isso ajuda a intensificar a cor. Depois, é só beijar o lencinho e reforçar com mais uma camada de batom. Também dá para usar lápis por baixo do batom em bala, mas não faça só o contorno, viu?”

 

Cobrir a Zona T

“Use um produto que tenha boa pigmentação, que mesmo com a oleosidade não vá sair. A gente esquece que a pele fica lustrosa, e não necessariamente sem cobertura – ou seja, não precisa retocar. Lencinho matificante resolve a vida! Não precisa nem passar mais uma camada de pó por cima.”

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