A obra-prima de Chanel

Nove décadas depois, o Chanel Nº 5 mantém o posto de perfume mais famoso de todos os tempos

Foto: Divulgação

De todos os itens de moda que Coco Chanel criou, difícil encontrar um mais marcante que o perfume Chanel Nº 5. Aliás, é quase impossível pensar em uma fragrância que tenha causado tanto interesse como a da estilista. Você pode até tentar pensar em outros nomes, mas nenhum está há tanto tempo no mercado e vendendo tão bem. O perfume comemora 90 anos no início desta década (há discussões sobre a data exata de sua criação e lançamento) e, até hoje, é avaliado pelas mulheres como o “aroma mais sedutor”, segundo o livro O segredo do Chanel N° 5 –  a história íntima do perfume mais famoso do mundo, de Tilar J. Mazzeo. O sucesso é traduzido em cifras. De acordo com o governo francês – a Chanel não divulga números – , um frasco é vendido a cada 30 segundos no mundo. São, em média, meio milhão de vidros em um ano, movimentando US$ 100 milhões no período. Mas o que transformou o perfume nesse sucesso de quase um século?

A história é rodeada de mistérios e lendas. Mas, em síntese, o sucesso é fruto de muita pesquisa. Coco Chanel era perfeccionista. Em qualquer projeto que se propunha a fazer, ela se consultava com os melhores profissionais do mercado. Quando surgiu o perfume, a Primeira Guerra Mundial tinha acabado de terminar. As pessoas estavam determinadas a deixar para trás um passado doloroso. O mundo se reerguia e o luxo virava combustão dessa sociedade. Chanel viu uma oportunidade de negócios e começou a pensar como seria o cheiro do seu perfume. Na época, ela já tinha lojas em Paris, Cannes e Biarritz e suas roupas faziam a cabeça das socialites francesas.

O sonho era antigo, mas foi só em 1919 que a estilista começou a pesquisar sobre perfumes. Ela chegou a fazer viagens ao sul da França e conversar com os maiores empresários da área. Os planos, porém, foram postergados no fim daquele ano quando Artur “Boy” Capel, amante e amor de sua vida, morreu em um acidente de carro. Ela ficou arrasada e demorou para voltar a pensar nos negócios. No verão de 1920, decidiu dar uma nova chance ao projeto, ao conhecer o exilado príncipe russo Dmitri Pavlovich, em um jantar na Cote D’Azur. Foi ele quem reviveu o sonho de Chanel.

O príncipe lhe mostrou o Rallet Nº 1, perfume em homenagem à dinastia Romanov, usado por sua tia, a czarina russa, e as suas primas. Ele tinha sido produzido pelo perfumista franco-russo Ernest Beaux, que, na época, ainda trabalhava na A. Rallet and Company, a empresa que havia criado a fragrância russa. Só que, antes de estourar a Revolução Russa, a empresa havia se mudado para o sul da França.

Chanel gostou do cheiro e resolveu ir atrás do perfumista. A estilista explicou que queria um perfume que fosse o balanço perfeito entre o cheiro das moças ricas – que usavam perfumes de flores como rosa e jasmin – e o das prostitutas – com odores sensuais, porém muito fortes. A ideia era fazer com que as socialites também se sentissem sexy. Ela queria que o perfume tivesse elementos sintéticos combinados com o cheiro de um buquês de flores. Apesar de já ter no mercado produtos com essas características, essa mistura era novidade entre os perfumistas.

No segundo encontro, Ernest Beaux colocou 10 amostras para ela decidir qual era a sua favorita. Após cheirar todas, a estilista escolheu a opção cinco. O número cinco cercava Chanel desde criança. Ela foi criada em um orfanato de freiras em Aubazine e os monges que fundaram a abadia do local acreditavam que o número era místico. Por isso, Coco sempre teve fascinação pelo dígito. Quando escolheu aquela amostra, sabia que o nome da sua primeira fragrância tinha que ser Chanel Nº 5. O perfume é a mistura de rosa de maio, jasmim, ylang ylang e sândalo. Mas a grande novidade era o uso exacerbado das moléculas de fragrância conhecida como aldeídos. Foi esse exagero, que fez toda a diferença no resultado final.

Após escolher o cheiro do perfume, a estilista mandou fazer a embalagem. Ela sempre soube que o frasco teria o formato das garrafas de uísque de Boy Capel. A etiqueta branca e a tipografia sem serifa são as mesmas até hoje, assim como os dizeres N° 5 –  Chanel – Paris. Isso só muda quando o produto não está na concentração parfum, aí se inclui a descrição eau de toilette ou eau de cologne. Em cima da tampa, estão os dois “Cs” entrelaçados, marca registrada da Chanel. O frasco só sofreu uma alteração em 1924, quando Coco vendeu os direitos do produto para a empresa Les Parfums Chanel, e eles o fizeram mais quadrado para ajudar na hora de empacotar. A tampa, entretanto, teve mudanças mais drásticas ao longo do anos. É por meio dela que os especialistas datam as safras do vidros de Chanel N° 5.

Chanel conseguiu criar o produto que tinha imaginado. E, ao longo de 1920, ela o foi aperfeiçoando, com Beaux, até chegar à fórmula perfeita. O lançamento ao público ocorreu no fim daquele ano, em um restaurante na Riviera Francesa. A estilista chamou os amigos mais ricos e refinados para jantar. De tempos em tempos, ela perfumava o ar com sua nova fragrância. As pessoas que passavam pelo restaurante eram atraídas pelo cheiro e queriam saber do que se tratava. Após o sucesso daquela primeira amostra, criou-se um burburinho sobre o esperado perfume de Chanel. Foi só em 1921, entretanto, que ela mandou fazer 100 unidades para distribuir entre as clientes mais influentes.

Chanel recebia na loja várias pessoas querendo comprar um frasco. Mas ela segurou ainda mais a venda para causar especulação em volta do perfume. Alguns dizem que o produto começou a ser vendido no outono daquele ano, outros acreditam que só foi comercializado no ano seguinte, em 1922. Mas o fato é que rapidamente ele ganhou fama e virou sucesso de vendas. Em 1924, houve uma demanda internacional -principalmente nos Estados Unidos com o surgimento dos novos ricos. Quando chegou ao mercado externo, foi finalmente imortalizado como o perfume mais luxuoso e sensual do mundo. O resto é história.

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