Conheça April Barton, a cabeleireira de Jake Gyllenhaal, Kevin Bacon e Cyndi Lauper

(Jessica Lahrman/The New York Time)
(Jessica Lahrman/The New York Time)

Carson Griffith, The New York Times

April Barton apareceu na porta de trás de seu salão, no conjunto 303 do número 7 da Bond Street, em Lower Manhattan.

— Estou atrasada, o que significa que o Malcolm já está me esperando.

Ela se referia a um de seus clientes cativos, o escritor de cabelos crespos Malcolm Gladwell.

E lá estava ele, sentado na cadeira de metal. Agitou as mãos um pouco enquanto explicava o visual que queria. April ia balançando a cabeça até que levantou a Sensei profissional que tinha na mão direita e começou a trabalhar, batendo papo enquanto ia passando a tesoura, delicada, mas decididamente, no tufo que o rapaz tinha no topo da cabeça.

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Uns dez minutos depois, ela ficou muito quieta e o clima do salão mudou. Parecia que, ao terminar a parte superior para atacar as pontas desgrenhadas, tinha entrado em um estado meditativo. Aos poucos, foi criando um novo formato no frisado, moldando os cachos macios até que eles se encaixassem na visão que tinha em mente. Seu objetivo: manter o cabelo expressivo, no comprimento costumeiro, ao mesmo tempo em que diminuía a densidade se livrando de quase metade dos caracóis, de modo que o escalpo de Gladwell pudesse respirar e seu cabelo recuperasse a mobilidade.

Pouco a pouco, as madeixas cobrem o chão. Depois de 45 minutos, formam um semicírculo ao redor da cadeira e o corte está pronto. Mais um cliente satisfeito.

April, 48 anos, cobra US$300 por um corte masculino. No mínimo. O feminino não sai por menos de US$500. (As outras cabeleireiras do salão cobram menos.) Ganhou fama fazendo o que sabe em uma suíte de canto do Chelsea Hotel durante 17 anos, antes de se mudar para Bond Street. Entre a clientela, os atores Jake Gyllenhaal, Adrien Brody, Nathan Lane, Ethan Hawke, Matthew Modine, Matthew Broderick e Kevin Bacon. Entre os músicos que se sentaram em sua cadeira estão Mary J. Blige, Elvis Costello, Willie Nelson e os integrantes do U2 durante suas paradas em Nova York. Desde que se instalou no centro, John Turturro e Cyndi Lauper engrossaram a lista dos fregueses do Suite 303.

— Eu corto cabelo desde sempre. Sou boa nisso. É a minha especialidade — comenta.

Hawke concorda.

— Corto com a April desde o fim dos anos 90 e toda vez que preciso de algo importante para um papel é ela que eu procuro.

Modine é ainda mais efusivo.

—April é artista – e cantora, atriz, pintora, escritora, poeta – que, por acaso, também corta cabelo” — escreveu, elogioso, em um e-mail.

A vida movimentada de April na verdade a diferencia das cabeleireiras de celebridades. Ela conta que foi “sequestrada” pelo pai e levada para a Califórnia aos cinco anos de idade, quando os pais se separaram. Aos quinze, se viu morando em um parque de trailers em Fort Lauderdale, na Flórida, quando descobriu sua vocação cortando os cabelos dos colegas de classe. Aos 17, era uma garçonete com problemas com a cocaína. Conseguiu superar o vício e ficou limpa durante nove anos, mas voltou aos antigos hábitos, dos quais só conseguiu abdicar de vez em 2009.

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No fim dos anos 80 e início da década de 90, April trabalhou em vários salões de Nova York (incluindo o de John Dellaria) antes de começar a se sentir esgotada.

— Fiz uma viagem a Bali tipo ‘Comer, Rezar, Amar’; aí voltei e me vi meio que numa encruzilhada. Achei que não fosse voltar a cortar mais.

A chama da paixão reacendeu em uma festa, onde ela, em um papo com George Chemeche, o artista residente do Chelsea Hotel, ouviu dele que deveria conversar com Stanley e David Bard, os sócios e gerentes do salão na época.

— Eu achava o Chelsea Hotel muito barra-pesada, mas Stanley me levou à sala de canto e pedi a ele que não dissesse mais nada, que me deixasse ficar ali um pouco sozinha. Foi quando soube. Tinha riso, tinha gente, tinha música. E cabelo. Foi quando eu disse: ‘Fico com ele’.

De 1995 a 2013, o salão de três cadeiras de April, a que ela deu o nome de Suite 303 por causa do endereço, foi um dos grandes segredos de Nova York. O piso de madeira, manchado de vermelho, era parcialmente coberto por um tapete de pele de carneiro. O fogo ardia na lareira, os tijolos cobertos de tinta dourada, cortesia da artista Tara Amelchenko. O pessoal fumava e bebia no terraço que dá para a West 23rd Street. Era uma festa eterna, mas sem a ansiedade social que ela acarretava.

Lisa and her newest client Ethan. Back to school haircut!

Uma foto publicada por April Barton Suite 303 (@suite303_nyc) em

Mesmo apesar do talento artístico, talvez, no fundo, ela tenha sempre sido uma mulher de negócios. Além dos cabelos que cortou durante a adolescência em Fort Lauderdale, April abriu um negócio a que chamou April’s Roses, uma pequena empresa em que chefiava outras adolescentes que vendiam rosas em clubes noturnos.

Muito tempo depois, quando acabara de se instalar no Chelsea, apostou em outra linha de trabalho, logo depois que uma amiga lhe deu de presente uma noite com um garoto de programa.

— Pedi ao rapaz que me desse o nome do cafetão. E quando finalmente me encontrei com ele, ofereci uma oportunidade de negócios — conta ela.

April revela que durou um ano administrando o serviço de gigolô, além de continuar fazendo cortes, antes de se decidir a sair do ramo do sexo por temer que ele acabasse com a estrutura que tinha montado.

— Eles tinham um lance materno esquisito comigo — comenta sobre os homens que empregava.

— Já estava começando a ficar ruim, aí acabei com aquilo de vez. Estava começando a atrapalhar. Sabe o que significava tudo para mim? O Suite 303.

Em 2011, o hotel fechou as portas aos hóspedes, mas April (além de outros cem moradores permanentes) ficaram durante parte da reforma que começou sob a nova administração.

(Jessica Lehrman/The New York Times)

(Jessica Lehrman/The New York Times)

— Quando eu pensava que o Chelsea Hotel não conseguia ficar mais tenebroso, ainda trabalhei lá dois anos antes de fechar.

Na escuridão do fim do dia, ela tinha que usar uma lanterna de mineiro na cabeça para fazer os cortes. O fim parecia próximo.

— Foi quando conheci a Selima — conta April, referindo-se a Selima Salaun, dona da Selima Optique, loja de óculos de marca e vintage na Bond Street, que lhe ofereceu um espaço nos fundos do estabelecimento, onde antes havia um café. Junto com o novo endereço vieram novos clientes, graças á clientela de Selima.

— Tem sido ótimo. Através de Selima conheci John Turturro, Cyndi Lauper. Temos tudo a ver.

Nos últimos dois anos, a velha guarda do Chelsea Hotel também passou a frequentar seu salão.

Um dos tratamentos mais populares atualmente é o chamado “etching”, que nada mais é que uma aparada nos pelos do corpo, incluindo peito, axilas e a região pubiana. “Tem muito roqueiro que precisa antes de subir ao palco; tem muito ator que vai fazer cena de sexo também, é bom dar uma cuidada”, analisa.

Ela saca do smartphone e mostra a foto do cliente que passou pelo tratamento mais recentemente: Dan Amboyer, que está na série “Younger” e na superprodução “Batman vs. Superman: A Origem da Justiça”.

— Eu nunca corto o cabelo. Ele tem que abraçar o corpo e dar a impressão, visual e sensorial, de não ter sido cortado.

Ela deixa o telefone de lado.

— Esse é o truque, sabe? Nunca deixar que saibam por onde você andou.

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