Cabelo e make: o que faz de Jorginho Goulart o preferido das gaúchas

Profissional tem agenda cheia e atende gente que vem de longe só para ter cabelos cuidados por ele

Jorginho Goulart e sua equipe
Jorginho Goulart e sua equipe Foto: Adriana Franciosi

É impossível contabilizar o número de clientes do maquiador e cabeleireiro Jorginho Goulart. Elas (e eles) estão esparramados por Porto Alegre, Grande Porto Alegre, Interior e outros Estados, como Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro só para citar destinos que não ultrapassam a fronteira Sudeste do país.

Todos os dias, de terça a sábado, às 9h, uma delas (ou deles) pode ser visto sentado no sofá de couro preto de dois lugares, parte integrante do espaço de cerca de 30 metros quadrados – ampliados por espelhos do chão ao teto – que Jorginho habita no segundo andar do salão Hugo Beauty, um casarão localizado no número 991 da Avenida Lajeado, no bairro Petrópolis, na Capital.

Os clientes chegam pontualmente neste horário. Jorginho, não. É de praxe aparecer com 15 minutos de atraso. Não porque se considera uma estrela, pelo contrário. Jorginho é o avesso do avesso da afetação. O atraso é simplesmente porque não consegue vencer esses 15 minutos todas as manhãs.

– Já chego dizendo: “Eu sei, eu sei, eu sei, estou atrasado” –  diverte-se.

Recebe como resposta escancarados sorrisos – um tanto pelo carisma; outro tanto porque quem está ali sabe que vale a pena cada minuto de espera.

Jorginho Goulart é tido pelos profissionais de beleza, por mulheres da alta sociedade gaúcha, por empresárias, médicas, advogadas, personalidades do universo artístico e, inclusive, por jogadores de futebol (aqueles que rezam a cartilha do visual impecável do inglês David Beckham) como um dos profissionais tops do país. Tem passe livre nos camarins reservados às grandes modelos e atrizes desfilantes nos eventos de moda. Com Jorginho, todos justificam, “não tem erro”.

– Dá para entregar o cabelo nas mãos dele e ficar tranqüila – elogia a cliente Nathália Miesco. –  Ele faz um corte perfeito, uma coloração impecável, um penteado lindíssimo. A gente fica muito mais bonita.

Tanise Dutra partilha da mesma opinião.

– Amo o Jorginho – declara. – Moro em São Paulo e nem aqui encontrei um maquiador como ele. É o melhor que existe e tem um respeito incomum por suas clientes.

Com a palavra Renata Berni, radicada nos Estados Unidos:

– Ele trabalha com uma naturalidade impressionante. Uma visita ao Jorginho deixa a gente linda por dentro também, porque ele emana ótima energia.

Colega de Jorginho em produções de desfiles, editoriais de moda e campanhas publicitárias, o stylist Eden Matarazo consegue sintetizar com precisão cirúrgica o que faz de Jorginho um profissional singular.

– Ele é muito rápido, tem o melhor kit de maquiagem que eu já vi e, principalmente, sabe exatamente o que funciona para cada tipo de mulher – descreve. – Parece óbvio dizer isso, mas não adianta colocar uma sombra ou um batom que não combinam com determinado tipo de olho ou de boca, e Jorginho sabe disso como ninguém. Este é seu grande trunfo. Ele consegue interpretar a beleza peculiar de cada cliente. Além do mais, tem algo que poucas pessoas têm: carisma. Ele descontrai o mais tenso dos camarins, tem o poder de deixar a atmosfera alto-astral e mais leve.

Um episódio recente serve para ilustrar esta última observação de Eden Matarazo. Em Porto Alegre para a campanha publicitária de uma joalheria, a atriz Adriana Birolli mostrou-se incomodada em fotografar com um vestido escolhido pela produção. O clima ficou tenso no estúdio. Jorginho chamou para si a responsabilidade de descontrair o ambiente

– Comecei a fazer palhaçada, a falar bobagem – lembra.

Deixou a atriz tão à vontade que ela posou, feliz, com a roupa que, a princípio, havia renegado.

A jornada de Jorginho não termina antes das 21h, com raros intervalos para almoço. Nessas 12 horas de labuta, ele se envolve em um revezamento frenético de manipulação de pincéis, tinturas, tesouras, mechas, escovas, penteados, maquiagem, testes para noivas, debutantes e afins. Recebe o auxílio de uma equipe formada por cinco profissionais. Chega a atender até seis clientes ao mesmo tempo. Sempre, sempre, sempre com uma disponibilidade e um bom humor invejáveis. O preço do trabalho é semelhante ao de outros profissionais de Porto Alegre: R$ 300 para fazer cabelo e maquiagem.

Episódios divertidos são uma constante em sua vida. Um deles é recorrente. Acontece toda vez que uma das clientes endinheiradas resolve “fechar a agenda”. Por “fechar a agenda” entenda-se ter Jorginho só para si, em casa, à disposição para enfeitá-la para uma festa.

– Quando isso acontece, provoca a ira e o descontrole das demais. Elas ficam furiosas, querem matar – diverte-se Taís dos Santos, a “Beyoncé”, como Jorginho adora chamar sua braço-direito.

Certa vez, com a agenda fechada por uma noiva que o havia contratado para arrumá-la no dia do casamento, Jorginho recebeu a ligação de uma cliente antiga e muito amiga que tinha sido convidada para uma festa no mesmo dia e horário. Tentou explicar a situação, mas ela não quis entender. Só sairia de casa produzida por ele.

– Deixei a noiva prontinha e disse que precisava ir em casa tomar um banho rápido antes de acompanhá-la até a igreja. Saí num pé, atendi a outra cliente e voltei no outro – ri.

Para uma noiva conseguir horário com ele, recomenda-se marcar cabelo e maquiagem no dia da reserva da igreja, ou seja: com até um ano de antecedência. Jorginho viaja o país arrumando mulheres para subir ao altar. Cada atendimento personalizado custa R$ 5 mil. Quando há duas cerimônias no mesmo dia, uma de manhã e outra à noite, ele tenta conciliar. Não teve sorte em uma dessas empreitadas.

Foi a Cidreira produzir uma cliente e deixou a outra marcada para a noite, no hotel Sheraton, em Porto Alegre. Chegou atrasado, e a noiva estava à beira de um ataque de nervos.

– Ela ainda me fez cortar o cabelo da sogra e não me pagou nada. De tanta raiva que tinha de mim, mana – diverte-se, usando seu mais repetido bordão.

Mesma ira sentiu Michele Sobis. Há nove anos, marcou com Jorginho o teste de cabelo e maquiagem para seu casamento com o ex-jogador colorado e hoje atacante do Fluminense Rafael Sobis. Jorginho estava envolvido com um editorial de moda naquele mesmo dia e atrasou-se demais.

– Eu estava uma onça, queria matar ele – conta Michele às gargalhadas. – Mas ele chegou com esse jeito todo especial e me conquistou. Nunca mais nos separamos. É praticamente o irmão que eu não tive.

Michele só arruma o cabelo com Jorginho. Vem a Porto Alegre exclusivamente para isso. Em um dos dois dias em que estivemos acompanhando o trabalho de Jorginho no salão, Michele ligou para o seu celular, disse que havia acabado de chegar do Rio e que iria do aeroporto direto para a cadeira do cabeleireiro. Já era início da noite, e ele esperou pela cliente.

– No Rio, fui aos salões das globais e só detonaram meu cabelo – conta Michele. – Cheguei a pagar R$ 1 mil em mechas e saí com a cabeça toda vermelha. Ninguém entende de química como o Jorginho, porque ele percebe que cada cabelo é único. Faz uma mistura louca, faz mágica, e tudo fica perfeito.

Jorginho tornou-se amigo íntimo da família Sobis, que hoje vive em luxuoso condomínio na Barra da Tijuca. Foi lá que passou as últimas férias, em agosto, com passagem paga por Michele (ela faz questão de pagar sempre; e sempre convida Jorginho para passar o fim de semana por lá). Recebeu tratamento de estrela, com direito a tardes de banho de piscina no condomínio, aulas particulares de tênis e passeios de barco.

Jorginho vive ganhando presentes das clientes. Presentes caros, diga-se: uma bolsa Prada, uma gravata Louis Vuitton e os últimos lançamentos em maquiagem foram os mais recentes.

– Está vendo esses produtos, mana? – pergunta, apontando para uma mesa tapada de sombras, bases e blushes importados. – Não comprei nada. Elas me trazem tudo das viagens. Acho até que me dão muita balda.

Em troca, ele oferece uma amizade incondicional. Ultrapassa a jornada de trabalho, se necessário, para não deixar ninguém na mão.

– Se depender dele, tudo pode. Todo mundo que liga ele pode atender, todo mundo ele quer encaixar – conta a braço direito Taís, que comanda a agenda. – Quem passa por carrasca sou eu, mas é preciso ser realista e botar ordem na vida do Jorginho.

– É triste isso, sabe mana? – retruca ele. – A pior coisa que pode existir para mim é deixar alguém na mão.

Nascido em Itaqui há 38 anos, Jorginho Goulart veio adolescente para Porto Alegre estudar Arquitetura na Unisinos. Cursou um semestre e meio, mas não teve condições financeiras de manter-se na faculdade. Foi nesta época, diz, que aprendeu o conceito de luz, sombra e profundidade que tanto aplica em suas maquiagens. Neste meio tempo, trabalhou em dois salões da sua cidade – na verdade, duas salas que pegou emprestadas para atender a clientes que faziam fila na porta.

É um profissional autodidata. Durante uma passagem por Porto Alegre, com o desejo de trabalhar com beleza, caminhava pela Avenida Carlos Gomes quando parou diante do antigo salão de Hugo Moser, um casarão azul. Entrou, falou com Gabriela Niederauer, mulher de Hugo e responsável pela parte administrativa e de contratação de funcionários, e pediu horário para fazer um teste. Gabriela ficou de cabelo em pé diante daquela figura. Jorginho usava sapato de salto anabela, tic-tac no cabelo e rímel nas pestanas.

– Parecia um ser de outro planeta – ela lembra, rindo. – Mas era tão, tão cativante que não tive como dizer não.

Sem dinheiro para bancar o cachê de uma modelo, Jorginho levou a prima como cobaia. Hugo solicitou a ele que fizesse mechas. Jorginho criou três tipos distintos na cabeça da prima.

– Está tudo desparelho – observou Hugo.

– É que eu quis fazer três tipos de mechas – explicou ele. – Queria trazer três modelos, mas não tenho dinheiro para pagar nenhuma. Então fiz mechas diferentes em um cabelo só.

Foi contratado.

Hoje, além de funcionário, é amigo da família. Conta que foi ele, inclusive, o cupido responsável por apresentar para Julia, filha de Hugo e Gabriela, o atual marido.

E ainda maquiou a filha dos patrões para subir ao altar.

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