Chega de alisamento! Crespas e cacheadas trocam experiências pela internet para assumir de vez os cachos

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, há uma nova história para contar. Depois de anos de alisamentos, ganha força o movimento que chama todas a assumirem seus cachos. E o convite, aliás, chega por meio de um clique: basta qualquer smartphone ou notebook conectado à internet para que as donas de madeixas cheias de cachinhos encontrem tudo o que querem saber para cuidar e dar forma à cabeleira. Funciona quase como uma saída do armário coletiva – depois de compartilhar suas inseguranças e dividir dicas sobre os melhores produtos em grupos no grupos de Facebook, blogs e canais do YouTube, elas se unem para criar coragem de finalmente deixar seus cachos soltos por aí.

:: Conheça técnicas para aproveitar o verão sem comprometer a saúde e beleza dos cabelos
:: Mãe cria boneca negra e de cabelos crespos para inspirar a filha a se amar

Mas se libertar de escovas & progressivas & chapinhas não é tão fácil assim – principalmente quando se leva em consideração que, apesar de 70% das brasileiras ter cabelo crespo ou cacheado, o Brasil é o país que realiza mais alisamentos no mundo. No caso da universitária Kelly Freitas, foram necessários quase dois anos de procedimentos químicos para perceber que esticar os encaracolados talvez não fosse a melhor saída para conquistar a autoaprovação quando se olhava no espelho. Assim como muitas das garotas – incluindo todas as ouvidas nessa reportagem –, a estudante de Jornalismo sempre teve dificuldades em associar os cachos como ideal de beleza feminino.

– Nunca soube como lidar com o meu cabelo, não gostava. Nem a minha mãe sabia. Quando pequena, vivia com ele preso. Desembaraçava depois do banho e prendia ainda molhado, e não deixava o cacho se formar. Quando eu soltava no colégio, sempre ouvia coisas do tipo “Olha, parece uma bruxa” – conta a universitária de 22 anos.

00b56b6a

A estudante Kelly tinha problemas ao lidar com os cabelos cacheados

Conforme os anos passavam, Kelly foi nutrindo também o desejo de alisar os fios, ainda que não entendesse bem o porquê daquela vontade que insistia em aumentar. Até que, no último ano do Ensino Médio, rendeu-se.

– Entre as minhas inseguranças da adolescência, o cabelo era a principal. Quando alisei, me senti muito bem, mas percebi que ainda não era aquilo que queria. Meu cabelo não ficou igual ao de quem nasce com ele liso. Isso me fez sentir pior quando entrei na faculdade, onde a maioria das gurias é branca de cabelo liso. Estava com o cabelo igual ao delas, mas não fazia parte daquilo – relembra.

:: Cabelos sem vida? Conheça os quatro tipos de danos que comprometem a beleza dos fios

Cada menina tem seu estalo para abandonar de vez o alisamento, seja a vontade de mudar ou a preguiça de se submeter ao ritual químico todo mês. Ou até a falta de grana, como foi o caso de Kelly:

– Quando ficou muito caro retocar, conversei com uma amiga crespa que me incentivou a parar. Conforme o cabelo crescia, comecei a me ver de um jeito diferente. Olhava para o cacho da raiz crescendo e não enxergava mais como algo ruim. Despertou a curiosidade de lembrar como meu cabelo era e então cortei. Foi difícil. Pensei que ninguém ia querer ficar comigo, pois o cabelo está muito atrelado à feminilidade. Mas também foi uma fase de crescimento pessoal. Meu cabelo é muito mais do que estilo, é minha identidade. Sempre tive dificuldade de me encaixar, mas a partir daí que aprendi a ser crítica e me descobri como negra.

2

Movimento no/low poo

Enquanto ganhava confiança para cuidar do próprio cabelo, Kelly se aventurou pelos muitos blogs e grupos dedicados às cacheadas e acabou descobrindo técnicas como o no/low poo. Desenvolvido pela inglesa Lorraine Massey, o método consiste no uso de pouco (“low”) ou nenhum xampu (“no poo”) para lavar os fios. A criadora argumenta que substâncias como lauril sulfato de sódio, silicones insolúveis e petrolatos deixavam seus cabelos ressecados e estragavam os cachos. Disso nasceu o movimento, difundido amplamente nos Estados Unidos pelo livro Curly Girl: The Handbook (O Manual da Garota Cacheada, em tradução livre). Não demorou para que chegasse também ao Brasil, onde desperta a curiosidade de mais de 90 mil pessoas no grupo do Facebook No e Low Poo Iniciantes, um dos muitos dedicados ao tema.

3

É lá que adeptas como a carioca Daniele Assis compartilham truques caseiros e experiências em busca do melhor jeito para tratar dos cachos. Depois de sete anos de progressivas, relaxamentos e sessões de chapinhas toda manhã, a assistente de marketing se surpreendeu com o acessório usado por um cabeleireiro na TV para secar cabelos cacheados – o difusor, aparelho que ela descobriu como um dos melhores amigos das encaracoladas. Não pensou duas vezes: foi ao Google para saber mais sobre outros jeitos de cuidar dos fios, que há muito já cogitava deixar de alisar. Em fevereiro, completa dois anos que começou a chamada transição capilar.

– Quando você descobre as técnicas, é muita informação, demora para assimilar. Desde que adotei o no poo, venho sentindo uma redução da caspa, que era algo que me incomodava. Inclusive a minha resistência em deixar o xampu era por causa disso. Acredito que, por ser agressivo, era o próprio xampu que me fazia ter esse problema, mas agora o meu cabelo está se adaptando. Está mais brilhoso e definido. Como eu precisava usar muito creme para ficar enrolado, ficava opaco.

:: 10 produtos com chá verde para cuidar dos cabelos e da pele
:: Alisamentos causam queda dos fios? 8 mitos e verdades sobre o crescimento dos cabelos

livro

Comunidade virtual

Além de truques para manter os cachos em dia, Daniele descobriu nos grupos virtuais mulheres que dividiam as mesmas inseguranças e dúvidas. Quando falta o incentivo em casa ou entre as amigas, é na web que encontram respostas como o produto mais em conta para hidratar o fio – e quem lhes dê força para passar pelo processo demorado e difícil que é a transição capilar.

– É um clima de bastante cumplicidade. Também falamos muito de autoestima, que é algo libertador e ajuda a quebrar esse estereótipo de “cabelo ruim”. Vejo meninas que sofrem por conta de piadas preconceituosas. Na internet, a gente incentiva umas às outras. Isso com certeza tem um viés de autoconhecimento. Tive total incentivo da minha mãe, dos meus amigos, mas vejo muita gente que não teve. Existe a questão feminista de você se aceitar e se amar. Não tive ligação nenhuma com o feminismo antes e estou desconstruindo muita coisa por conta dos grupos – defende.

:: Crespas com orgulho: marca infantil lança editorial a favor dos cabelos crespos
:: Looks e cabelos naturais são tendência para o verão

Dani passou a infância admirando os cabelos lisos das amigas enquanto esperava a mãe finalmente lhe deixar aplicar química nos fios – o que só aconteceu no final da adolescência. Agora faz questão de incentivar as amigas e conhecidas a dar uma chance para seus cachos. Mas “sem nenhuma pressão”, como gosta de frisar, afinal ninguém merece sair da ditadura do cabelo liso para a ditadura do cacheado, não é?

– Só fui amar de verdade meu cabelo e me identificar com ele nos últimos anos. Mesmo quando fazia o relaxamento, não estava satisfeita. Não sabia como cuidar dele. Hoje entendo o que preciso. Levei 25 anos para aprender a amá-lo e cuidá-lo do jeito que ele é.

Youtuber e expert

Se depender de Rayza Nicácio, a revolução crespa não será mesmo pela TV, e sim pelo YouTube. É no canal que leva seu nome que a garota de 23 anos compartilha com seu meio milhão de seguidores tudo o que descobriu enquanto aprendia a cuidar de seus cachos. Com vídeos que ultrapassam as 750 mil visualizações, a blogger divide suas rotinas de beleza, indica produtos que testou e ensina penteados para quem, assim como ela, não abre mão dos fios encaracolados.

– Na internet, você tem identificação. Na televisão, a gente não tinha espaço para ver pessoas passando pela transição capilar e que exibissem o cabelo como é. A troca de experiências é muito motivadora – explica.

Mas, como tantas de suas seguidoras, Rayza não assumiu as ondas desde sempre. No primeiro vídeo publicado, há quase seis anos, ela aparece com os fios lisos e longos, mantidos à base de chapinha e escova. Apesar de nunca ter feito alisamento químico, a rotina com os aparelhos já foi o suficiente para detonar seu cabelo.

– Passei a infância vendo minha mãe fazendo escova e pensava: “Quando ficar adulta, vou ter que fazer isso também para ficar com o cabelo igual ao dela”. Ela sempre me dizia para não alisar porque ia estragar, mas a gente acredita mais no exemplo do que naquilo que a pessoa fala, não é? Então meu cabelo ficou mesmo fragilizado e parei de fazer escova e chapinha.

1

Foi aos 17 anos que Rayza deu os primeiros passos para assumir os cachos. Três anos depois, gravou o primeiro vídeo. De lá para cá, o que eram apenas dicas para quem dividia o mesmo momento acabou virando trabalho.

– Não foi proposital. Compartilhei minha história e depois que vi que tinha um certo alcance. Fiquei desesperada para que outras meninas não fossem pelo caminho que eu fui, de ficar escravizada pela chapinha, sem poder tomar um banho de piscina com os amigos. É muito gratificante – conta Rayza.

Vez ou outra, ela recebe comentários de haters que criticam e fazem piada sobre seu cabelo.

– Todo dia aparece um ou outro, mas não respondo, a não ser que esteja na TPM – brinca. – Às vezes, as pessoas entram por acaso no canal e comentam coisas tipo “Alisa seu cabelo, não é bonito assim! Parece que está bagunçado”, mas as próprias leitoras tomam a frente para me defender. Se é muito ofensivo, apago. A gente tem que ter liberdade de expressão, mas sempre com respeito.

 

Leia mais
Vídeos recomendados
Comente

Hot no Donna