Donna das Minhas Escolhas: duas mulheres contam como encaram a passagem do tempo

Fotos: Bruno Alencastro
Fotos: Bruno Alencastro

A designer Heloisa Crocco tem 67 anos e cabelos assumidamente grisalhos. Ela preza a liberdade de não tentar combater cada sinal do tempo. A empresária Nereida Manzoli tem 57 anos e uma rotina de cuidados com a beleza, das sessões diárias de ginástica aos tratamentos estéticos que preservam uma aparência mais jovem.

Cada uma encara o envelhecimento à sua maneira – e sem julgar quem pensa diferente delas. Eis o mote da série Donna das Minhas Escolhas, que estreamos neste fim de semana, às vésperas do Dia Internacional da Mulher: abordar questões importantes ou polêmicas do universo feminino a partir de visões de mundo e experiências de vida distintas. Ao longo do mês de março, outros temas virão, sempre pelo olhar de leitoras que concordam em discordar. Porque a única regra é escolher o que é melhor para si mesma.

A seguir, você verá o que Heloísa e Nereida têm a dizer, em depoimentos concedidos ao repórter Caue Fonseca. Leia e faça as suas próprias escolhas.

“Preferi a liberdade de assumir a passagem do tempo”

Por Heloisa Crocco

“A opção de envelhecer da forma mais natural possível não é algo isolado. Tem a ver com aquilo a que tu te propões como estilo de vida. Tem a ver com a forma como tu te colocas no mundo, te pensas no mundo. Pensar quem tu queres ser, para onde tu queres ir, o que tu queres fazer. Tem muita gente que passa pela vida sem se questionar sobre isso. Mas eu me questionei, e a resposta veio nesse despojamento, nessa liberdade.

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O meu cabelo, por exemplo. Eu fiquei grisalha muito cedo. Com 30 e poucos anos. Então, se eu pintasse, seria diariamente aquela saga. Aquele pedacinho de raiz mal pintada me incomodaria. Então, para mim, foi preferível assumir a passagem do tempo do que me tornar escrava disso. É a liberdade da gente. Agora, não pensa que viver assim é fácil. Não é nada simples. Dá trabalho, mas é outro. Uma pessoa com a cabeça branca que se vestisse de outra forma, por exemplo, que não fosse igualmente despojada, não combinaria. Aí, sim, eu ficaria uma velha. Eu que tenho apenas 67 anos (risos). Outra questão é o corte, a forma de arrumá-lo, que requer bastante cuidado e atenção a uma sofisticação no todo.

Claro que há situações engraçadas que decorrem dessa opção. Lembro de uma vez que eu e um colega fotógrafo trabalhamos até as 11h da noite. Estávamos arrasados, e saímos para tomar uma cerveja e comer na pizzaria de uns amigos dele. Não sei se ele chega a ter 10 anos a menos do que eu. Chegando lá, o garçom quis ser simpático: “Que legal, trouxe a mãe hoje!” (risos). E como essa, teve outras tantas. Mas a gente se diverte. Aprende a rir disso.

Agora, é importante salientar que a minha opção visual: grisalha, sem maquiagem, sem plásticas, não é necessariamente melhor que a do outro. Cada um é um. Tem gente que acredita que arrumando por fora arruma por dentro. Tem quem ache que, sendo bonita por dentro, acaba ficando bonita por fora. Então, ninguém é melhor do que ninguém.

Acho bem interessante analisar como certas pessoas vão envelhecendo e como levam essas etapas. Tem pessoas que vão ficando velhas e se veem em volta de uma penumbra de medo. Agora, se tu ficares entre os jovens, tu te encorajas. É por isso que as etapas da vida têm as idades certas. Tu só podes gerar filhos jovem, por exemplo. Porque não temos esses temores todos.

Foto: Bruno Alencastro

Foto: Bruno Alencastro

Faço a ressalva de que essa velhice de espírito pode chegar para quem é bem novo. Tem pessoas de 50 anos que estão em tal estado de desânimo que só falta deitar, né? E tem pessoas com 60, com 70, enamoradas pela vida. Realizando e mirando os cem anos. Esses tempos, vi uma entrevista da Fernanda Montenegro. Como não valorizar uma mulher com aquele fogo, com aquela pulsão? E ali parece que o fato de ser velha é o que torna ela ainda mais interessante.

Via de regra, o envelhecer, essa chegada do outono, ficou mais amena. Quando a revista me propôs esse papo, lembrei da minha avó. Ela morreu com 84 anos. Mas, por anos, eu chegava na casa dela, e ela estava sempre no quarto, deitada ou na cadeira de balanço. Hoje, uma mulher de 84 anos está pegando um avião para visitar o neto. É outra dinâmica, outra mirada.

Sobre a questão da visibilidade do idoso, especialmente da mulher, eu atribuo a uma questão cultural. Na Europa, por exemplo, se vê, sim, pessoas mais velhas na televisão, no palco, atendendo em lojas… Se não aparecem aqui, é talvez porque ainda seja novo para nós. Mas estamos ficando mais velhos como país, então essa valorização há de chegar.

Se eu tivesse de resumir em uma frase, eu diria que envelhecer é um presente. Tenho de agradecer que eu estou mais velha, que estamos aqui conversando. Agradecer cada dia que chega para nós. E brindar esse dia. Que a gente está bem, que a gente está lúcido. Eu acho o máximo! O ser humano não se dá conta de que a passagem é muito fugaz, muito rápida. Agora é o tempo de colheita. Vamos tratar de vivê-la com luz, saúde e muita alegria.”

“Não abro mão de ser o melhor de mim”

Por Nereida Manzoli

“É curioso pensar sobre isso, porque eu não era uma criança vaidosa. E também não era uma adolescente muito vaidosa. Se hoje tenho 57 anos, era guria no final da década de 1970. Então, ainda pegava um pouco daquele estilo meio despojado, meio hippie.

Se for para buscar algo da minha infância que pode ter influenciado em hoje eu ser uma pessoa que se preocupa com a aparência, talvez seja o fato de eu ter sofrido bullying. Isso quando a palavra ainda nem existia, né? Lembro que o meu pai começou do nada, e demorou para nós construirmos uma boa condição financeira. Mas ele fazia questão de priorizar que eu estudasse em um colégio particular. Ao longo da semana, tudo bem, porque nós usávamos uniforme. Mas, aos sábados, a gente podia ir com a roupa que quisesse. E aí as outras meninas riam de mim. Talvez, agora, quando tenho a oportunidade, faça mais questão de me cuidar.

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Foto: Bruno Alencastro

E outro fato marcante é que eu havia passado bastante tempo sem prestar atenção em mim. Primeiro porque não precisava mesmo, era uma moça. Depois, por estar muito focada nos meus dois filhos. Só que então, aos 35 anos, eu tive um câncer de mama. E, por mais que tenha dado tudo certo, que tenha recuperado o cabelo, refeito os seios e tudo mais, bate fundo a gente se ver mal fisicamente. Eu pensei: “Saí vitoriosa. Quer saber de uma coisa? Vou é cuidar mais de mim”.

Foi ali que comecei a fazer ginástica todos os dias de semana, por exemplo. Quando falho um, vou aos sábados. A me maquiar, a me vestir melhor, a pintar o cabelo… E cabelo eu preciso fazer o retoque da raiz a cada 15 dias. Não é fácil, mas não vou ganhar 10 anos assim de graça (risos). Também, não julgo. Se tem algo que meus pais me ensinaram bem é que ninguém é melhor do que ninguém. Mas eu, de cabelo branco, nem pensar.

Seria convencida se dissesse que me considero bonita. Mas me considero uma mulher segura, charmosa… É evidente que todo mundo tem algo no seu corpo que gostaria que fosse diferente. Eu, por exemplo, acho que herdei da minha mãe um pouco da flacidez nas pernas. Mas fazer o que, né? Ginástica e, agora, essa carboxiterapia, que dá bom resultado. É com agulhas, então dói mais na pele do que no bolso (risos).

Acho que mais do que envelhecer, as pessoas temem se tornar invisíveis. Para um relacionamento, por exemplo. Sou divorciada e tenho um namorado há cinco anos, viúvo e um pouco mais novo do que eu. Isso para mim é um estímulo para me cuidar ainda mais.

Foto: Bruno Alencastro

Foto: Bruno Alencastro

Mas a gente tenta – e acho que consigo – não se estressar demais com idade. Plástica, por exemplo, a gente fica tentada a fazer, mas acho um risco. Por ora, só aproveitei para mexer nas pálpebras quando tive de refazer as próteses dos seios, 10 anos depois do câncer. Mas quem tem dinheiro começa a fazer, depois vicia e não consegue parar. Tipo Michael Jackson, né? Já está bonitinho, para! Aí gostou e foi mexer mais…

Além disso, a vida mudou muito, né? Os 50 e poucos anos de hoje são os 30 e poucos de outros tempos. Acho um exagero isso de considerar idosos a partir de 60 anos. Ora, idosa. Uma mulher de recém 60 anos não podendo ficar em fila de supermercado? Ah, não concordo!

Aqui e ali, a gente percebe a passagem do tempo. A hora de abandonar um determinado tipo de cabelo. O dia em que não dá mais para usar um vestido de determinado comprimento. Paciência. O bom de amadurecer é que a gente vai se preocupando menos com o que não dá pra solucionar. E digo mais: tanto física quanto mentalmente, eu me sinto melhor hoje do que décadas atrás. Acho que, quando nós somos jovens, perdemos tanto tempo ficando ansiosas e inseguras com bobagem. Hoje, minha vida é muito mais simples. O que eu quero ser, e disso não abro mão, é o melhor de mim.”

Confira o vídeo 

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