Empresa britânica emprega teste de DNA para definir tratamento de pele personalizado

(Fotos Lauren Fleishman/The New York Times)
(Fotos Lauren Fleishman/The New York Times)

Courtney Rubin
The New York Times

O que está sendo considerado o futuro do tratamento de pele começa, por mais estranho que pareça, com um bochecho de uma solução bucal. É para eliminar quaisquer resíduos que possam interferir com uma boa amostra de saliva, da qual o DNA será extraído e os cremes, preparados de acordo com o código genético individual.

O teste é de uma empresa chamada GeneU e feito em um estabelecimento, inaugurado há nove meses na New Bond Street, em Londres, que mais parece uma mistura de cenário de filme de ficção científica com os toques vermelhos e prateados das lojas da Apple – o que não deixa de ser apropriado, já que o teste de DNA é feito por meio de um microchip minúsculo e realizado por meia dúzia de beldades de pele perfeita que, por acaso, também têm PhD.

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Ao contrário de outros testes do gênero, que são enviados para o laboratório e levam pelo menos duas semanas para ficarem prontos, o da GeneU é feito ali mesmo, em meia hora. Atualmente, o exame analisa apenas as variações de dois genes: o que contém informações sobre a rapidez com que o corpo deteriora colágeno e o de proteção antioxidante. Os resultados, junto com as respostas de um questionário simples sobre estilo de vida, são então inseridos em um algoritmo que produz dois dos 18 produtos que se adaptam melhor à pessoa. (As fórmulas são baseadas em pesquisas minuciosas de ingredientes e concentrações.) O custo: 600 libras (aproximadamente US$ 940, ou quase R$ 3 mil) pelo teste mais suprimento para duas semanas. Por questões de privacidade, os resultados são destruídos; ficam somente os nomes dos preparados recomendados.

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Nick Rhodes (E), tecladista da banda Duran Duran, e Christofer Toumazou (D): as mentes criativa e científica por trás da GeneU

A teoria por trás da GeneU reza que o tratamento de pele inovador pode contar com ingredientes benéficos, mas que não são necessariamente aquilo de que sua pele necessita. Se você é, digamos, uma pessoa cujo gene MMP1 está programado para deteriorar colágeno mais lentamente, a teoria da empresa é a de que é desperdício de tempo (e dinheiro) passar anos usando cremes que alegam aumentar sua produção; o hábito não vai diminuir os efeitos do tempo e pode até entupir os poros e/ou causar outros danos. O que sugere que, como na Medicina em geral, no tratamento de pele nem sempre mais é melhor.

– Para nós, trata-se de oferecer à pessoa a concentração exata que pode ser metabolizada pela pele – explica Christofer Toumazou, fundador da companhia e professor da Imperial College London.

Toumazou não é dermatologista; na verdade é engenheiro elétrico e ajudou a desenvolver um pâncreas artificial para quem sofre de diabete tipo 1, um implante auricular que permite a crianças surdas ouvir e um monitor cardíaco sem fios. E só passou a se interessar pelo DNA há uma década, quando seu filho foi diagnosticado com uma doença genética. Já o diretor criativo da empresa, acredite se quiser, é Nick Rhodes, tecladista da banda Duran Duran, que conhece tudo sobre produtos de beleza – tanto que usou o mesmo batom rosa Yves Saint Laurent que a noiva no dia em que se casaram, em 1984.

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Testes clínicos duplos-cegos feitos ao longo de um ano e meio sugerem que o GeneU reduz linhas finas de expressão e rugas em até 30% em três meses, conta Toumazou – os resultados ainda não foram publicados. O Dr. S. Tyler Hollmig, por exemplo, professor assistente de Cirurgia Dermatológica da Universidade de Stanford, se mostra cético (embora tenha comentado que o que a GeneU está fazendo é “muito interessante e admirável”).

– É o ambiente que causa o envelhecimento. Se você colocar gêmeos idênticos, um vivendo em Belize e o outro na Bélgica, a pele dos dois vai ficar completamente diferente – afirma.

O especialista observa também que, apesar da importância dada aos antioxidantes (levante a mão quem aumentou o consumo de frutas vermelhas na última década), não há, por incrível que pareça, uma pesquisa minuciosa mostrando que eles realmente diminuem os sinais da idade.

Toumazou pretende investir mais no quesito ambiental na próxima rodada de testes de DNA, que se concentrará na Epigenética (ou seja, a forma como seus genes atuam, se é que o fazem, em relação ao seu estilo de vida). E pretende criar novas opções de customização, incluindo testes para outros genes relacionados à saúde da pele, como os que controlam a elasticidade e a hiperpigmentação.

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DNA como base

A GeneU não é a única empresa que oferece produtos de beleza criados com base na genética: a SkinShift de Austin, no Texas, Estados Unidos, oferece um teste de DNA a US$ 99 (pouco mais de R$ 300) para, a seguir, sugerir uma combinação de um de seus quatro cremes e cinco suplementos nutricionais baseada no que considera a prioridade máxima para a pele em questão. Nenhum produto custa mais que US$ 75 (menos de R$ 250). Como Toumazou, a fundador da SkinShift, Ruthie Harper, não é dermatologista, mas sim internista.

O Dr. Hollmig também é cético em relação à SkinShift e, embora se mostre mais impressionado com a GeneU, reconhece que a grande diferença entre as duas companhias seja mesmo o preço. A tecnologia da segunda impressiona mais, além de oferecer mais opções de customização, mas estudos sobre o envelhecimento da pele com vários ingredientes (como os antioxidantes) ainda não foram especificamente controlados em termos de formulação e dosagem, quantidades adequadas de amostra ou design randomizado e, por isso, não dá para saber com certeza se funcionam ou não. Assim, a ideia de uma quantidade cuidadosamente calculada se torna quase irrelevante.

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Encontro nas nuvens

A GeneU surgiu de um encontro inesperado, há quase três anos, quando Toumazou se viu sentado ao lado de Rhodes em um jatinho que ia de Londres para Veneza, rumo à festa de aniversário de um xeque amigo comum. (E não tinha a mínima ideia de quem ele era até a mulher lhe cochichar no ouvido.) Rhodes encorajou Toumazou a abrir uma empresa própria em vez de licenciar sua tecnologia.

– Já usei de tudo, desde as coisas mais baratas de farmácia aos cremes mais sofisticados e caros. Aquilo me atraiu feito um ímã. Você oferece praticamente uma certeza de eficácia – afirma Rhodes, que garante já sentir as linhas de expressão mais finas sumindo graças aos produtos da GeneU, e a empresa se mostrou agradavelmente surpresa com o interesse masculino que, segundo Rhodes, é motivado pelo aspecto tecnológico do processo.

Foi o músico também quem decorou a loja, sendo responsável inclusive pelas fotos inspiradas em Mondrian nas paredes (que, na verdade, são imagens ampliadas dos microchips de Toumazou); recrutou também Antony Price, estilista responsável pelos ternos fluorescente do Duran Duran no vídeo da música Rio, para criar os uniformes dos funcionários, que consistem em calça prateada e blusa combinando, com direito a gola alta (foto à esquerda). Rhodes também vetou o nome original criado por Toumazou: Genonics.

– Não tinha pegada – garante o letrista.

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