Montenegro atrai viajantes com uma mistura de história, beleza e cultura

Foto: Djamila Grossman

Durante mais de uma década após o desmanche da Iugoslávia, Montenegro, a menor das seis repúblicas do país, parecia não ter lugar na mente do viajante além de ser visto como o pequeno parceiro da Sérvia.

Agora, independente desde 2006, a nação do Adriático ensanduichada entre Croácia, Bósnia e Herzegovina e Albânia atrai rapidamente viajantes ocidentais com uma mistura promissora de História, beleza e cultura. Para muitas pessoas que falam inglês a nação continua sendo em grande medida uma pedra preciosa desconhecida – uma Croácia antes de virar bacana.

Certamente o país tem muito a oferecer: uma costa com quase 300 quilômetros de extensão esculpida com portos espetaculares como as cidades muradas de Budva e Kotor, vales imensos e rios preguiçosos pontilhados por castanheiras d’água silvestres.

Poucos visitantes passam muito tempo em Podgorica, a pequena capital montenegrina, porque opiniões como ” pouco interessante para turistas” causam arrepios nas resenhas. Porém, durante minhas duas visitas a Montenegro no ano passado, eu considerei Podgorica surpreendentemente agradável, com cafeterias animadas, bairros intrigantes, sem faltar encantos e contatos comoventes.

Montenegro foi em grande medida poupada da ira da Otan porque Milo Djukanovic, então presidente do país, trabalhou para afastar a nação dos sérvios durante a guerra. Em 2006, a maioria dos montenegrinos votou pela separação da Sérvia para sempre, e o rompimento se deu pacificamente.

– Parecia um casamento que não dava certo – afirmou Ninoslav Markovic, nativo de Podgorica que estudou turismo na cidade de Kotor, considerada Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

– Havia alguma raiva, mas nenhuma grande briga.

Lutei para encontrar sinais do conflito durante a jornada para a cidade. Automóveis lustrosos das marcas BMW e Mercedes deslizavam por uma bela estrada, passando por rotatórias, lojas de móveis e oficinas mecânicas. A maior parte dos prédios era composta por complexos de apartamentos atarracados e sem alma salpicados pela cor da roupa para secar pendurada nas sacadas.

Procurando um lugar para ficar, terminei no Hotel Crna Gora, construído em 1953, antes o mais refinado de Podgorica. No auge, era o endereço da elite do Partido Comunista.
Olhando para o prédio agora vi pouca coisa além de um cubo de concreto banal, mas logo reconheci que ele tinha um quê especial todo seu.

O saguão era luminoso e os corredores obscurecidos ganhavam vida com o longo tapete vermelho. Ao longo das décadas, o hotel se tornou um pequeno repositório de pinturas de artistas montenegrinos e iugoslavos famosos, como Petar Lubarda e Milo Milunovic.

O hotel vai se tornar um Hilton e desde a minha visita equipes de construção demoliram grandes porções do edifício como parte de um projeto de reforma de US$ 56 milhões. O novo Hilton Podgorica Crna Gora deve ser reaberto em maio de 2015 e terá 200 quartos, spa e sete salas de conferência. As obras de arte e parte da fachada de pedra original serão preservadas, garantiu Zarko Buric, proprietário do hotel de novo nome.

Podgorica é um lugar legal para caminhar: compacta, com cerca de 185 mil habitantes, calçadas frondosas e muitas cafeterias para ver e ser visto. Deixei as malas e saí porta afora. Dá para bater perna pela Slobode, rua fechada para carros à noite, onde as famílias tomam sorvete e bandos de garotos adolescentes perambulam em nuvens de perfume. Calçadões serpenteavam ao longo das confluências dos rios Ribnica e Moraca, passando pelas ruínas de um antigo forte turco e ao lado de uma pequena praia de pedregulhos.

Impérios fluíram e refluíram pelos Bálcãs há séculos, e cada onda deixou sua marca em Montenegro. Achei strudlas de influência austríaca e baklavas gregas. Comi pizza em um centro espiritual ortodoxo sérvio que também funciona como restaurante onde São Simão me julgava de seu poleiro em uma pesada parede de pedra.

Os turcos otomanos governaram os Bálcãs durante 500 anos e deixaram as mais indeléveis impressões na cozinha do país. Eu me estufei até quase entrar em coma com um prato enorme de carnes assadas e linguiças cevapi no Pod Volat, restaurante com arcos de pedra nos arredores de uma torre otomana no século 17.

No meu último dia na cidade, fui rumo ao norte ao longo da Slobode com planos de caminhar mais alguns quilômetros até o topo do Gorica. No sopé do morro fica uma capela bojuda enfiada contra um bosque de oliveiras e ciprestes. Trata- se da igreja de São Jorge, do século 16, a mais antiga da cidade, uma casamata sombria e melancólica com um cemitério tomado pelo mato nos fundos. As tumbas foram vandalizadas e esquecidas, e agora vivem cobertas por montes enormes de espessa hera.

– Deseja ver alguma coisa? – perguntou o guardião da igreja, Radovan Mitrovic, quando viu meu interesse pelos santos.

Comprei um pequeno ícone de São Nicolau na modesta loja de presentes da capela e saí para retomar a caminhada.

– Espere! – gritou Mitrovic, correndo até lá fora atrás de mim.

– Tome, um presente para você – ele disse, entregando um ícone de São Basílio, um dos santos mais populares de Montenegro.

– Talvez ele o traga de volta.

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