Nutrientes extraídos de alimentos são transformados em cápsulas e bebidas pela indústria cosmética

Especialistas alertam para os riscos de "efeito contrário" pelo uso de produtos sem prescrição médica ou de procedência duvidosa

Dermatologista: objetivo não é substituir a ação dos cremes, e sim complementar
Dermatologista: objetivo não é substituir a ação dos cremes, e sim complementar Foto: Fernando Gomes

Cabelos brilhosos e esvoaçantes como os das propagandas de xampu, pele lisinha, sem rugas e sem manchas, como as das atrizes de novela. Quem não quer? Sempre preocupadas com a estética, as mulheres ? e alguns homens também ? estão sempre em busca de novidades no mercado cosmético, tentando encontrar a “fórmula da beleza”. Por outro lado, a indústria se esforça em desenvolver produtos para satisfazer esses desejos, com uma seleção de substâncias, manipuladas em laboratório ou retiradas da natureza, que prometem melhorar a aparência. E melhor: em cápsulas e bebidas, muito mais prático do que usar mil cremes diferentes para cada parte do corpo e hora do dia.

Nessa esteira, surgem anúncios com nomenclaturas diferenciadas para atrair as consumidoras. São nutricosméticos trazidos da França, aliméticos recém chegados do Japão. O princípio é o mesmo: extrair dos alimentos a melhor seleção de nutrientes para garantir uma pele bonita, cabelos hidratados, unhas mais resistentes, um bronzeado mais uniforme. O que muda é o formato. Podem ser pílulas, balas, cubos, sucos e chás. Mas será que funciona? E é seguro para a saúde? O tema gera dúvidas até mesmo entre especialistas.

Médica francesa desenvolve cápsulas desde 1985

O conceito de nutricosmético vem de uma indústria francesa, a partir de pesquisas desenvolvidas desde 1985 pela médica Marie Béjot, especializada em nutrição. A premissa é que a beleza se expressa de dentro para fora de um organismo bem nutrido e saudável. Até aí, nada de novo. O que ela notou ao estudar seus pacientes foi que somente a alimentação não seria capaz de garantir a quantidade adequada de nutrientes para que o corpo exerça plenamente suas funções ao longo do dia. Compostos de vitaminas e minerais teriam que complementar a alimentação.

? O produto age como suplemento, assegurando a ingestão de nutrientes essenciais para o bom funcionamento do organismo, principalmente daqueles que, com a correria do dia a dia, deixam de consumir ou os consomem em menor quantidade do que a necessária ? afirma Marie.

Com o respaldo de estudos científicos que comprovam os benefícios de nutrientes como vitaminas, selênio, cobre e zinco, Marie passou a desenvolver os produtos batizados de nutricosméticos. Segundo a divulgação da marca francesa, os extratos contidos nas cápsulas são absorvidos pelo organismo e transportados até o interior das células, onde atuam para hidratar a pele, prevenir os sinais do envelhecimento, além de ajudar nos cuidados dos cabelos e das unhas.

No Brasil, a empresa garante utilizar somente substâncias avalizadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e nas quantidades recomendadas pelo órgão.

Conceito japonês aposta na formulação de alimentos

Do Japão, vem a proposta dos aliméticos: alimentos com função cosmética. Diferentemente do modelo francês, estes não estão disponíveis na forma capsular. Os nutrientes são manipulados em laboratório para formulação de balas de colágeno, cubos de cereal, sucos e chás com vitaminas.

? São produtos comestíveis, que não caracterizam suplementação ? destaca a nutricionista Roselaine Garcia, que trouxe a marca para o Rio Grande do Sul.

A composição dos aliméticos, segundo Roselaine, contém extratos concentrados de frutas orgânicas, vitaminas, minerais e colágeno hidrolisado que complementam a ingestão de nutrientes essenciais ao organismo, sem adição de açúcar, conservantes e gorduras trans. Os produtos são certificados com o selo Minha Escolha, conferido a indústrias que seguem rigorosamente os critérios da Organização Mundial da Saúde (OMS) na adição de sódio, açúcares e gorduras.

Nutrólogo alerta para riscos da suplementação indevida

Para o nutrólogo Paulo Henkin, esses conceitos sugiram por uma questão comercial.

? Estudos científicos não demonstram benefícios da suplementação em pessoas saudáveis ? afirma Henkin.

O médico explica que os alimentos têm, sim, nutrientes comprovadamente benéficos ao organismo ? a ciência já identificou mais de 24 mil substâncias ? porém, eles só teriam esse efeito no conjunto de uma alimentação balanceada, ou de “alta qualidade”, como chamam os especialistas. Os diferentes componentes de cada alimento interagem dentro das células para bloquear o processo de envelhecimento ou do surgimento de doenças, assim como para melhorar as condições do cabelo e da pele.

? O que se sabe é que a alimentação tem um papel decisivo na saúde, mas quais substâncias agem de forma específica é o que a ciência ainda se pergunta ? observa o médico.

Henkin recomenda cautela ao consumidor, pois a suplementação indevida pode levar a erros alimentares, resultando no efeito contrário, ou seja, a desnutrição, e até em doenças mais graves. Sem contar produtos importados, não autorizados pela Anvisa, que são comercializados ilegalmente no país. A exceção, em se tratando de suplementação, são pessoas em tratamento por distúrbio alimentar, que precisam repor algum nutriente de forma sintética, com a devida orientação médica.

Dermatologista reconhece benefícios estéticos de nutrientes

O dermatologista Sérgio Dornelles esmiúça as novas nomenclaturas que surgem no mercado partindo do conceito de “agente ergogênico” (do grego, ergon=trabalho + gennan=produzir) que abrange todo e qualquer produto que tenha ação sobre a melhora do desempenho do organismo, e podem ser divididos em três grupos: fisiológicos, nutricionais e farmacológicos.

? Na verdade, os termos nutricosmético e alimético se superpõem em vários aspectos. Além da característica nutritiva, seu uso pode trazer benefícios estéticos ? explica Dornelles.

Durante muitos anos, a produção de cosméticos se dedicou a criar cremes faciais e corporais que ofereciam e continuam oferecendo a esperança de manter ou melhorar as características da pele no que se refere ao rejuvenescimento, comenta o especialista. De alguns anos para cá, a indústria começou a pesquisar produtos que não são mais de aplicação sobre a pele, mas que têm ação a partir da sua ingestão.

Conforme o médico, a intenção desse tipo de produto não é substituir a ação dos cremes, e sim complementar. Mas adverte:

? Há uma verdadeira enxurrada de novos produtos que precisam ser cuidadosamente analisados, pois muitos não têm estudos científicos bem embasados, o que invalida suas ações quanto ao que pode estar sendo divulgado.

Do ponto de vista da saúde, o que se sabe e já vem sendo amplamente difundido, a partir da Organização Mundial de Saúde e outras sociedades médicas, é que ter uma alimentação de alta qualidade, praticar atividade física e não fumar, correlacionadamente, são atitudes que reduzem em 85% as chances de diabetes, infarto, hipertensão, câncer e derrame cerebral. Se existem ou não fórmulas milagrosas de saúde e beleza, a ciência se esforça em investigar. A dica é consultar um especialista para tirar dúvidas e identificar o que realmente seu corpo precisa ? e o que ele descarta.

bemestar@zerohora.com.br

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