O boom dos produtos de beleza feitos para serem… comidos

Fabricantes são criticados pela falta de resultados comprovados

Norma Kamali, fashion designer de 60 anos, é consumidora de nutricosméticos
Norma Kamali, fashion designer de 60 anos, é consumidora de nutricosméticos Foto: Erin Baiano, The New York Times

Ter uma boa pele não depende desse novo segmento de produtos, dizem alguns críticos, mas de vegetais, alimentos integrais e água potável

A maquiadora Sue Devitt, cujos clientes incluem Sarah Jessica Parker, Jennifer Lopez e Keira Knightley, é conhecida por suas sombras suntuosas e bases com extrato de algas marinhas. Em fevereiro, Devitt e Tanya Zuckerbrot, a nutricionista oficial da Organização Miss Universo, devem aparecer na televisão norte-americana para apresentar um novo produto de beleza que não foi feito para massagear o corpo, escovar o cabelo, nem passar no rosto. Ele foi feito para ser comido.

O destaque central da nova coleção de cosméticos da io Beauty é o Beauty Booster. Consiste em um líquido cor de vinho, vendido no que parece ser um enorme vidro de esmalte, tampado com um conta-gotas. Repleto de antioxidantes e minerais e com o sabor da fruta doce no qual ele foi inspirado (Devitt disse que notou que sua pele ficou mais luminosa depois de comer gojis, framboesas e amoras silvestres na fazenda de um amigo), o elixir pode ser tomado com iogurte e águamineral com gás, ou mesmo consumido sozinho.

Mas por que não simplesmente comer frutas ou beber sucos?

? Os sucos têm uma tonelada de calorias ? diz Zuckerbrot, observando que o seu produto não tem açúcar e calorias. ? Quem quer sacrificar a boa forma para cuidar do rosto?

O Booster é apenas o produto mais recente de uma nova geração de cosméticos engenhosos ? ou engenhosamente comercializados ? que não servem para lubrificar, como o Noxzema, mas para serem mordidos, bebidos ou misturados com gelo.

Em breve, aplicar protetor solar poderá se tornar algo retrô, agora que os cientistas inventaram a cápsula otimizadora de bronzeamento da Imedeen para ajudar a prevenir queimaduras solares (no Brasil, existe também a pílula Sunlover, que promete ajudar a pegar um bronzeado). As barras de granola parecem ultrapassadas ao lado da Nimble, anunciada como a primeira barra de nutrição específica para a pele. E borrifar colônia soa antiquado em comparação a chupar o Deo Perfume Candy, da Bulgária, que libera uma fragrância de rosas através dos poros da pele.

Os produtos alegam melhorar a pele, os cabelos e as unhas com colágeno, açaí, luteína, resveratrol, goji, chá verde, vitaminas e outros ingredientes. Uma década atrás, esses mesmos ingredientes eram encontrados em corredores empoeirados de lojas de alimentos saudáveis. Hoje, estão nas prateleiras de varejistas que atendem a todas as classes sociais: Sephora, Nordstrom, drogarias e muitas lojas de conveniência.

Supostamente criadas para melhorar a elasticidade e a umidade da pele das mulheres, as barras Balance com sabor de chocolate, da Nimble, chegam ao mercado em janeiro (os sabores de iogurte de laranja e manteiga de amendoim já estão sendo testados em algumas praças).

A Frutels lançou um novo produto antiacne que também se baseia naquele que é tradicionalmente considerado um inimigo da pele: o chocolate. Você pode cuidar da pele com inúmeras “bebidas de embelezamento”, tal como elas ficaram conhecidas: a Snapdragon, da Votre Vu; a Skin Essentials, da Crystal Light; e a Beauty Drink, da Herbasway.

O esteticista hollywoodiano Vincent Borba criou uma linha de cosméticos para a Walgreens que inclui as populares águas Skin Balance (US$ 24,99 cada pacote com 12), que são vendidas em quatro variedades: Antienvelhecimento, Firmadora, Clareadora e Revigorante.

Além de cosméticos cuja comestibilidade é feita para divertir ? o pó lambível de marshmallow da Urban Decay, o esfoliante de lábios da Smashbox, as tatuagens doces da Dylan’s Candy Bar ? existem coisas mais sérias. Mesmo que essa categoria, classificada pelo setor de cosméticos como “nutricosméticos” e “alimentos funcionais”, tenha sido prejudicada pela recessão, ainda se espera que a demanda tenha um aumento de cerca de 6% ao ano, chegando a alcançar US$ 8,5 bilhões até 2015, de acordo com a Freedonia Group, empresa de pesquisa de mercado.

Analistas da Zenith International, empresa de consultoria na área de alimentos e bebidas, disseram que esse crescimento tem sido impulsionado pela cultura de celebridades e por consumidores educados que buscam formas sofisticadas de retardar o envelhecimento.

Mas e os produtos, funcionam? Muitos médicos dizem que não (embora outros, como os dermatologistas Fredric Brandt, Howard Murad e Nicholas Perricone, incluam suplementos em suas recomendações). Ter uma boa pele não depende de bebidas e alimentos de embelezamento magistralmente comercializados, dizem os críticos, mas de vegetais, alimentos integrais e água potável.

? Se você estiver adequadamente hidratado, a sua pele vai ter uma aparência úmida e saudável ? afirma Wahida Karmally, diretora de Nutrição do Instituto Irving para Pesquisa Clínica e Translacional, da Universidade Columbia. ? A água leva os nutrientes dos alimentos aos tecidos e órgãos do corpo para mantê-los saudáveis.

Uma repórter pediu a Karmally que comentasse os ingredientes de diversos novos alimentos e bebidas de embelezamento. Ela questionou a pesquisa que embasa os produtos, observou que eles têm substâncias que podem causar reações alérgicas em algumas pessoas e disse que alguns usavam gomas para deixar o produto viscoso e extrato de suco de frutas para dar a coloração.

Sobre a água Revigorante com lichia de Vincent Borba, disse, por e-mail: “Se você precisar se revigorar, beba água pura ou acrescente fatias de limão nela. Karmally destacou o fato de que a barra da Nimble contém gordura saturada.

A Administração de Alimentos e Medicamentos americana não comprova a segurança de produtos cosméticos e ingredientes antes de eles serem vendidos aos consumidores; as empresas de cosméticos são as responsáveis por isso.

Os fabricantes tampouco são obrigados a apresentar dados sobre os ingredientes ou relatórios sobre lesões relacionadas aos cosméticos à Administração de Alimentos e Medicamentos (embora sejam incentivados a fazê-lo).

Pode ser essa a razão pela qual, até agora, esses produtos não conseguiram pegar nos Estados Unidos. Até o momento, os alimentos e bebidas de embelezamento se tornaram mais populares no Japão, onde uma legislação que regula os “alimentos para uso específico de saúde” exige que esses produtos recebam um selo de aprovação antes de chegarem ao consumidor, de acordo com analistas da Euromonitor International, empresa de pesquisa. Multidões também estão adotando os nutricosméticos na China, onde os suplementos fazem parte da medicina há muito tempo.

Porém, por mais que os consumidores dos Estados Unidos tenham engolido a ideia de tomar vitaminas (pelo menos até recentemente, quando duas pesquisas descobriram que ingerir doses extras de vitaminas pode ser algo de fato nocivo), eles não têm tanta certeza quanto a ingerir cremes antirrugas.

O mercado americano tem 5% do tamanho do mercado japonês, de acordo com analistas da Euromonitor. Algumas grandes marcas, como a Mars e a Nestlé, não conseguiram emplacar seus cosméticos comestíveis nos Estados Unidos.

A Nestlé introduziu a bebida de embelezamento Glowelle (US$ 7 por garrafa) em 2008 e, depois, a retirou do mercado em 2011 (um porta-voz da empresa se recusou a falar sobre a possibilidade de uma volta do produto).

Porém, para muitos, as possibilidades dos produtos de beleza comestíveis estão apenas começando a aparecer. Borba contou como em 2004, havia quem pensasse que as suas águas Skin Balance ? que agora fazem parte do negócio de bebidas de embelezamento, estimado em mais de US$ 1,4 bilhão, de acordo com a Zenith International ? seriam apenas uma moda passageira.

? Todo mundo me olhava como se eu tivesse um parafuso a menos. Agora, o futuro chegou.

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