Por ideologia, por praticidade ou pela pegada cool, mulheres escolhem raspar o cabelo

Foto: Ricardo Lage
Foto: Ricardo Lage

Textos: Thamires Tancredi
Fotos: Ricardo Lage

Você já deve ter ouvido falar que os cabelos são a moldura do rosto. Ou que os fios longos são sinônimo de feminilidade. Mas já parou para pensar quem, afinal, disse isso? Seja para quebrar conceitos sobre beleza – ou o que é considerado feminino – ou até por buscar mais praticidade no dia a dia, muitas mulheres têm adotado o cabelo raspado. O interesse pelo visual com os fios curtíssimos se refletiu, inclusive, no relatório mais recente do Google Fashion Trends, que analisa o comportamento de buscas na área da moda.

Com a liberdade feminina cada vez mais em pauta, o número de usuários que procuraram por cabelos raspados cresceu 462%. Professora-titular da UFRGS e integrante do Grupo de Estudos de Educação e Relações de Gênero (GEERGE) da universidade, Jane Felipe acredita que a opção de manter os fios curtíssimos por conta própria (e não por motivos de doença, por exemplo) tem a ver com as novas reflexões que as mulheres vêm fazendo sobre as cobranças que ainda existem sobre seu próprio corpo.

– Existe um movimento de mulheres que estão rompendo com esses padrões mais tradicionais de feminilidade, em que o cabelo deveria compor. Elas estão aprendendo que cabelos curtos são práticos, por exemplo, e você acaba economizando. E, vamos combinar, vivemos em um país tropical, em que é calor, então dá trabalho manter um cabelão, principalmente quando ainda temos exigências de padrões de beleza – explica. – Elas se dão conta de que podem ter uma feminilidade que independe dos cabelos.

VÍDEO: Elas contam as vantagens de ter raspado o cabelo

É justamente esse o perfil das quatro mulheres que você conhece agora. Em busca de liberdade, para encontrar sua própria identidade ou até ter mais tempo livre, elas escolheram raspar os fios. E garantem que a escolha não afeta em nada a imagem feminina que enxergam ao olhar no espelho.

– Nunca vi cabelo longo como algo tão feminino, até porque adoro quando vejo meninos de cabelo comprido – argumenta a estudante de Biomedicina Monise Zanotto Bataglion, nossa garota da capa. – Para mim, a roupa até influencia mais do que o cabelo. Se coloco uma calça de moletom, tênis e um casaco por cima, estou um menino! Mas se corto o cabelo e uso um vestidinho, estou mais menina. O cabelo não é algo tão ligado ao feminino quanto se acha.

Para a instagrammer Carol DeLarge, foi-se o tempo em que artifícios como um sapato de salto, unhas pintadas e, claro, cabelos longos, definiam o que é ou não ser mulher.

– A feminilidade não é definida pelo exterior. Não é a maquiagem ou o cabelo que tornam você feminina. O que me torna feminina é ser quem eu sou, porque me sinto do gênero feminino. Não preciso de algo para me representar. Posso ser eu mesma.

A modelo Desiree Moennig levanta outro ponto: por mais que venha se tornando, aos poucos, mais comum ver mulheres com o cabelo raspado nas ruas, ainda há questões que as pessoas ligam, erroneamente, ao simples fato de ter os fios mais curtos (ou compridos), como sexualidade e beleza.

Foto: Ricardo Lage

– Querendo ou não, na cabeça das pessoas, se você cortar o cabelo, não é feminina. Não vai ser bonita, não vai namorar ninguém. Ou, se você cortar o cabelo é lésbica, o que não tem nada a ver – reflete. – (Raspar o cabelo) não é questão de se aceitar ou não na sociedade, é sobre aceitar quem você é. Se por um lado o cabelo raspado virou sinônimo de liberdade e leveza para quem adota o visual, há quem ache que os fios curtinhos demandam atenção extra com outras “vaidades”, conta Morgana Ramirez Wolff:

– Ouço comentários de que, para ter um cabelo assim, preciso estar sempre maquiada. Mas não! Não preciso compensar nada porque não tenho cabelo ou “ser feminina” com make.

Para quem busca incentivo para se arriscar e mudar o visual, Donna conta a história de mudança das quatro gurias ao lado a seguir. Tenha em mente a filosofia das gurias: no fim, é só cabelo – e ele cresce!

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Raspei meus cabelos por praticidade 

A rotina atribulada pedia uma solução para a estudante de Biomedicina Monise Zanotto Bataglion, 29 anos. Além da faculdade, ela ainda precisava se desdobrar com os cuidados da filha, Valentina, cinco anos, e o trabalho freelancer como assistente de maquiagem e escovista em sets de gravação. A solução? Decidiu economizar o tempo que levava para cuidar dos próprios cabelos.

– Queria uma solução em que me sentisse bem e fosse prática. Se precisasse excluir algo para fazer outras coisas entrarem, eliminei o que menos me faz falta: o tempo que perdia arrumando o cabelo – relembra. – Lavava, escova, fazia chapinha, hidratação. São duas horas a cada dois dias que ganho para mim. Foi a melhor coisa! Me libertei. Me sinto mais livre e leve!

Foto: Ricardo Lage

Se para Monise raspar os cabelos foi uma decisão tranquila, para a filha nem tanto. Logo que chegou da escola, Valentina se surpreendeu com o novo visual da mãe:
– Estava ansiosa pela opinião dela. Ela olhou e disse: “Não gotei, mamãe” – recorda, entre risos, imitando o jeitinho de falar da criança.

Mas logo a menina se acostumou – ainda mais quando a mãe virou sensação entre os coleguinhas. Monise conta que alguns meninos estranharam o visual, pois não era “cabelo de menina”. Nada que um papo bacana não resolvesse.

– Sempre digo que ninguém precisa ser igual a mim, não precisa gostar, mas precisa me respeitar. E foi essa questão que mostrei para minha filha. Valentina vai ter liberdade, porque a mãe dela vai dar a liberdade dela fazer a escolha que ela quiser.

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Raspei meus cabelos por autenticidade

Às vésperas de completar 20 anos, Desiree Moennig é daquelas gurias estilosas que se notam à distância. E muito do seu visual cool e marcante era culpa dos cabelos – ou, hoje, da ausência deles. Por cinco anos, a modelo usou dreads longos. Mas um dia, resolveu mudar. Primeiro, pensou em assumir os cabelos naturais, que são cacheados. A ideia, contudo, não durou muito tempo.

– Minha vida inteira fiz alisamento nos cabelos, por isso pensei em assumir. Mas não me sentia “eu” ainda com os meus cachos, sabe? Um dia acordei, me olhei no espelho e pensei: “Estou com a mesma cara há cinco anos”. E raspei. Sem pensar muito. De impulso mesmo – recorda.

Foto: Ricardo Lage

Pouco mais de quatro meses depois da decisão de raspar os fios, Desiree nem pensa em deixá-los crescer de novo.
– Sabe que não me enxergo mais de outro jeito? Não me vejo mais de cabelos grandes – diverte-se.

Mesmo feliz com a mudança, Desiree ficou, em um primeiro momento, apreensiva: será que conseguiria trabalhos como modelo, mesmo com o look raspado? Por enquanto, não tem do que reclamar: coleciona jobs bacanas, de ensaios de moda a publicidade para marcas de beleza, sob a tutela da agência Premier Models. Virou, também, inspiração para outras mulheres que têm medo de mudar o visual. E até para a própria mãe, que também resolveu raspar os fios e platinar.

– Às vezes, rola me de dizerem: “Nossa, como eu queria fazer isso também”. E questiono: “Por que tu não faz?”. As pessoas ficam ainda muito presas à opinião dos outros. Sente vontade? Corta, pinta, faz o que quiser. Sou dessa opinião, e por isso decidi cortar.

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Raspei meus cabelos por liberdade

Foi depois de sofrer dois episódios de assédio que Carol DeLarge, 21 anos, quis mudar. Decidiu deixar os cabelos castanhos de comprimento médio e castanhos para trás.

– Depois de ter sido assediada, me sentia estranha comigo mesma. E justamente para quebrar essa ideia de que eu era só um objeto que queriam usar, entrei em um salão e raspei o meu cabelo para sair daquela situação. Nunca mais olhei para trás. Me senti livre daquela opressão.

Foto: Ricardo Lage

Foto: Ricardo Lage

Hoje, a instagrammer nem pensa em deixar o cabelo crescer de novo. Poucos meses depois de aderir ao novo visual, já se divertiu pintando os fios curtíssimos de preto, azul e, claro, o platinado que você vê na foto ao lado. Atrai não só centenas de likes, mas também olhares por onde passa em Gramado, onde mora.
– Gosto que as pessoas me olhem porque, de alguma forma, queremos impactar e trazer uma ideia diferente do que está sendo visto. As reações são geralmente positivas. As crianças adoram – conta.
Mas a maior vantagem de ter os cabelos raspados, para Carol, são as novas sensações que experimenta.
– Você sente todas as questões sensoriais. O vento bate no teu rosto de uma forma diferente. Você se sente mais livre, mais exposta para o mundo. Pode ser você mesma, sempre.

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Raspei meus cabelos por identidade 

Em dois anos, Morgana Ramirez Wolff teve (quase) todos os cabelos possíveis. Foi loiríssima, morena, castanha e ruiva. Pintou os fios de vários tons de pink, azul e verde. Foi do longo ao curtinho, do reto ao repicado, do franjão à franjinha. Mesmo assim, parece que ainda não havia se encontrado.
– Meu cabelo sempre foi algo que me incomodou. Como trabalho em salão, preciso estar bem apresentável. E meu cabelo nunca estava como eu queria.

Foto: Ricardo Lage

Exatamente no dia em que completou 23 anos, em abril do ano passado, tomou a decisão talvez mais radical em relação aos seus fios: raspou completamente os cabelos. Acostumada a acompanhar desfiles de moda, Morgana viu que muitas modelos estavam aderindo ao visual. Por que não testar também?

– Eu já tinha o cabelo curto, então achei legal. E queria fazer algo por mim. Sempre me senti muito pressionada a fazer as coisas que a sociedade impõe, como ter cabelo liso… Esse foi um ponto bem forte também na minha decisão de raspar – afirma. – Foi quase que um grito de independência. Tem gente que chega e diz: “Tu tá muito linda”. E isso em um mundo que o padrão é completamente outro.

E o que mudou depois de adotar o novo look, que completa um ano (sem mudanças!) em alguns meses?
– Depois que raspei, parece que muitas coisas se romperam. Questões com o corpo, com a estética em geral. Você tem uma nova visão sobre si. Sinto que agora me vejo no espelho.

Foto: Ricardo Lage

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