Por que você deve ficar ligada na composição dos cosméticos que usa

Graças à falta de regulações federais, a palavra de ordem é cautela – o comprador tem que estar informado, alertam dermatologistas

Foto: Pexels, reprodução
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Por Por Jane E. Brody,
The New York Times

Quando você lava os cabelos, limpa ou hidrata a pele, faz as unhas, usa maquiagem, desodorante ou protetor solar, já se perguntou se o produto que está usando pode fazer mais mal do que bem?

Talvez você deva.

Certamente, esses produtos não são tão preocupantes quanto os medicamentos, que exigem testes extensivos e aprovação da Food and Drug Administration (FDA) antes de serem comercializados. Ainda assim, desastres podem ocorrer – e às vezes ocorrem – pelo uso de cosméticos e de produtos de cuidados pessoais, e o governo é impotente para agir até que uma grande quantidade de reclamações de consumidores acenda o sinal vermelho.

Em um editorial recente na JAMA Internal Medicine, o Dr. Robert M. Califf, que foi chefe da FDA no governo do presidente Barack Obama, observou: “A indústria de cosméticos permanece em grande parte autorregulada. A história demonstrou repetidamente que, quando há supervisão regulamentar insuficiente, algumas pessoas ou empresas sem escrúpulos irão explorar o público vulnerável com fins lucrativos”.

Mesmo quando um perigo vem à tona, um produto pode permanecer no mercado por anos. (Embora a FDA finalmente tenha proibido produtos químicos antibacterianos como o triclosan em sabonetes, ele ainda faz parte de cremes dentais e outros produtos de consumo.)

Um caso atual é um exemplo clássico. A FDA normalmente recebe cerca de 300 a 400 queixas por ano sobre reações adversas a cosméticos e produtos de cuidados pessoais, todos vendidos sem receita médica e sem a aprovação prévia do governo. Em 2013, quando a agência recebeu 127 relatórios de efeitos adversos de uma única linha de produtos para os cabelos chamada WEN, descobriu que o fabricante, Chaz Dean Inc., estava sentado sobre mais de 21 mil queixas de perda de cabelo e danos no couro cabeludo associados ao produto.

Uma ação coletiva movida por mais de 200 mulheres contra a empresa e o produtor de informes publicitários Guthy-Renker obteve uma sentença no ano passado de US$26,3 milhões. No entanto, a empresa afirma que os produtos de cuidados com o cabelo WEN são “totalmente seguros” e continua a vendê-los.

Foto: Pexels, reprodução

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Ao contrário dos medicamentos, os cosméticos podem ser vendidos com base apenas nos testes dos fabricantes (ou sem testes) e reivindicações de eficácia e segurança. Mesmo os ingredientes não precisam ser aprovados pelo o governo. (Somente os aditivos de cor requerem aprovação antes da comercialização.)

– A FDA tem que esperar as pistas de relatórios voluntários se acumularem, sugerindo que um produto pode não ser tão seguro quanto se pensava – explica o professor Califf, cardiologista e vice-chanceler da Escola de Medicina da Universidade Duke.

Questionado em uma entrevista sobre o que mais seria possível fazer para proteger o público, ele disse:

– É altamente improvável na administração atual. Há uma pequena força de trabalho na FDA para lidar com uma indústria enorme que atualmente policia a si mesma. O relato voluntário de eventos adversos relacionados a cosméticos e produtos de cuidados pessoais é muito melhor do que nada, mas é bastante inadequado para o trabalho. Não há nenhum requisito legal para que os fabricantes transmitam relatórios de eventos adversos à FDA.

Somente fabricantes de medicamentos e instrumentos médicos são obrigados a enviar relatórios de perigos associados aos seus produtos.

A Lei Federal de Alimentos, Medicamentos e Cosméticos define cosméticos como “artigos destinados a ser passados, vertidos, polvilhados ou pulverizados, introduzidos ou aplicados no corpo humano… para limpeza, embelezamento, aumento de atratividade ou alteração da aparência”.

O editorial de Califf acompanhou um relatório da revista feito pelo dermatologista Shuai Xu e dois colegas da Escola de Medicina Feinberg da Universidade Northwestern. Após descobrir milhares de reclamações sobre os produtos WEN, a FDA disponibilizou publicamente o Sistema de Relatório de Eventos Adversos do Centro de Segurança Alimentar e Nutrição Aplicada, um repositório de casos adversos relacionados a alimentos, suplementos alimentares e cosméticos.

Isso permitiu que Xu e seus colegas analisassem todos os eventos adversos associados aos produtos cosméticos e de cuidados pessoais voluntariamente enviados de 2004 a 2016 pelos consumidores e profissionais de saúde. Até 2014, eles alcançaram a média de 396 por ano. Houve um aumento de 78 por cento nos relatórios em 2015 e um aumento de 300 por cento em 2016, em grande parte devido a queixas sobre os produtos WEN.

No geral, descobriram os pesquisadores, os três produtos mais mencionados eram de cuidados com o cabelo, com a pele e tatuagens e uma quantidade significativamente mais alta que a média de relatórios cita graves resultados para a saúde que envolviam bebês, higiene pessoal, cabelos e produtos para colorir os cabelos.

Os consumidores que apresentaram reações ruins aos produtos podem consultar um médico ou entrar em contato com o fabricante, “mas eles raramente pensam em ir a uma agência governamental”, disse Xu em uma entrevista.

Ao mesmo tempo, dois senadores dos EUA, Dianne Feinstein, democrata da Califórnia, e Susan Collins, republicana do Maine, propuseram um projeto de Lei de Segurança dos Produtos de Cuidados Pessoais, que exigiria que os fabricantes de cosméticos e produtos de higiene pessoal apresentassem uma lista de todos os ingredientes e os relatos de eventos adversos à FDA e daria autoridade à agência para solicitar a retirada de produtos do comércio.

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– Como dermatologista, vivo e respiro produtos de cuidados pessoais dia e noite. Os pacientes me perguntam sobre eles o tempo todo. Eu aviso que a rotulagem pode ser muito complicada. É preciso um doutor em química para poder interpretar todos os termos. O que significa que um produto seja rotulado de ‘natural’? Isso não o torna seguro. Uma hera venenosa é perfeitamente natural – diz Xu. – Mas não sou alarmista, não joguei fora todos os sabonetes e cremes da minha casa. Não sou a favor da sobrerregulamentação, que poderia resultar em custos mais altos para produtos como hidratantes. Mas não deveria ser controverso pedir melhores relatórios e um melhor sistema de dados que inclua informações de consumidores, médicos e fabricantes. Isso é importante não só para detectar problemas, mas também para aliviar os medos públicos.

Califf disse que já existem mecanismos tecnológicos para a coleta dessas informações, em particular através de prontuários eletrônicos de saúde. Como um membro de uma família propensa ao melanoma, ele afirmou estar especialmente preocupado com os bloqueadores solares, que se enquadram entre os inúmeros produtos cosméticos, assim como os vendidos especificamente como protetores solares.

– Não se sabe o quanto desses produtos químicos são absorvidos pela pele e o efeito que podem ter ao longo de uma vida de uso – disse ele. – Os estudos corretos sobre os efeitos na saúde não foram feitos.

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