Reflexões e significados da relação da mulher com o cabelo

“Continuei a alisar os cabelos, com muito cuidado, e dividi-os em duas porções iguais, para compor as duas tranças. Não as fiz logo, nem assim depressa, como podem supor os cabelereiros de ofício, mas devagar, devagarinho, saboreando pelo tato aqueles fios grossos, que eram parte dela. O trabalho era atrapalhado, às vezes por desazo, outras de propósito para desfazer o feito e refazê-lo. Os dedos roçavam na nuca da pequena ou nas espáduas vestidas de chita, e a sensação era um deleite. Mas, enfim, os cabelos iam acabando, por mais que eu os quisesse intermináveis. Desejei penteá-los por todos os séculos dos séculos, tecer duas tranças que pudessem envolver o infinito por um número inominável de vezes. Se isto vos parecer enfático, desgraçado leitor, é que nunca penteastes uma pequena”.

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A cena de sensualidade marcante antecede um beijo, o primeiro trocado pelos protagonistas de uma das obras-primas Machado de Assis sabia das coisas. Uma personagem tão emblemática como Capitu não poderia ser somente olhos. Em primeiro lugar, ela é cabelo. Os fios que a uniram pela primeira vez ao futuro marido eram uma espécie de extensão dela mesma, de sua sensualidade e de sua paixão. Capitu, afinal de contas, é mulher. E, como tal, tem a alma trançada em sua grossa cabeleira.primas da literatura brasileira. As palavras delicadas e permeadas de paixão são a confissão de Bentinho, que penteou os cabelos de Capitu antes de beijá-la nas páginas iniciais de Dom Casmurro. A principal personagem feminina de Machado de Assis é conhecida pelo poder de seus olhos verdes, os olhos de ressaca. Mas a verdade é que o jovem Bento Santiago menciona, já nos primeiros capítulos do romance, a beleza dos grossos cabelos de Capitolina antes mesmo de ter reparado em seu olhar.

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John Paul Arlington, especial

 

Olhar para o movimento cada vez mais intenso nos incontáveis salões de cabelereiro que pipocam pelas cidades é a primeira pista para perceber a importância dos cabelos para uma mulher. Dizendo assim, até parece que essa relação visceral com os cabelos é coisa nova, posterior à invenção do salão de beleza. Nada disso: há na história das culturas evidências de sobra que comprovam o profundo significado das madeixas na personalidade de uma mulher e no jeito como ela entende a si e ao mundo a sua volta.

Ponto mais alto da anatomia humana, a cabeça é considerada, na maior parte das culturas, o centro vital do corpo. Nela estão os cabelos, que nascem, crescem e caem conforme sua própria vontade e ainda sobrevivem ao sujeito depois de sua morte. A cabeça dirige o corpo e, sobre ela, estão os fios que a ornam, protegem e definem. Feitos de queratina, uma proteína muito resistente, os cabelos continuam crescendo mesmo após a morte e são capazes de guardar características de seus donos por décadas – entregam, por exemplo, se a pessoa usou drogas ou tem determinados hábitos alimentares.

“Ah, cabelo cresce.”

A velha máxima que as avós nos ensinaram a repetir é a mais pura verdade – e talvez por isso tenhamos nos dado conta desde tão cedo que podemos fazer do cabelo uma representação de nós mesmas – uma representação transitória e efêmera, mas mesmo assim marcante. Um fóssil humano descoberto na Irlanda é uma das tantas provas disso. O Celta de Clonycavan foi encontrado durante escavações e surpreendeu os arqueólogos porque usava um penteado do tipo moicano, modelado por uma espécie de gel feito com óleo vegetal e resina de pinho. Detalhe: calcula-se que o sujeito viveu há mais ou menos 2,3 mil anos. Já naquele tempo comunicar posições, status e estados de espírito por meio do cabelo era coisa comum.

As mitologias que basearam a construção do pensamento moderno não ignoraram a relevância do cabelo. Basta lembrar de personagens como a Medusa, cujos cabelos eram serpentes: quem olhasse para o rosto que as cobras emolduravam virava pedra para sempre. Para matar Medusa, Perseu precisou arrancar-lhe a cabeça. Há ainda a deusa egípcia Ísis, cujos cabelos eram fonte de vida e fertilidade. Sansão era invencível, até que Dalila descobriu a fonte de sua força: cortou-lhe os cabelos e o herói, então fraco, sucumbiu.

Na literatura, Machado de Assis não foi o primeiro a referir os encantos dos cabelos de uma mulher. O clássico Rapunzel, publicado pela primeira vez em 1812 pelos Irmãos Grimm, conta a história da princesa condenada por uma bruxa a viver isolada em uma alta e solitária torre. A sua conexão com o mundo exterior e, principalmente, com o príncipe dos seus sonhos é, claro, o longo cabelo loiro. Uma das obras fundadoras da literatura brasileira, Iracema, de José de Alencar, tem uma protagonista com cabelos “mais negros do que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira”. Assim, com essa caracterização, o escritor compõe a imagem idealizada da índia nativa do Brasil, cujo traço físico mais marcante é a cabeleira lisa, negra e comprida.

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John Paul Arlington, especial

Já nos nossos tempos, Martha Medeiros, no livro Divã, faz do salão do beleza um dos locais em que sua protagonista, Mercedes, repensa a própria existência. Ela repete o bordão “repica, repica!” ao cabelereiro, com a intenção de que algo, além do corte do cabelo, se transforme em sua vida.

Mas por que, afinal, o cabelo é tão importante para nós? A psicanalista Diana Corso comenta que, desde a infância, ele é muito mais do que um ornamento para a cabeça. O primeiro corte, por exemplo, representa a separação do bebê de sua mãe. E é também a primeira manifestação de alguma maturidade. Afinal, é comum que, depois das primeiras tesouradas, o cabelo da criança mude: deixa de ser aquela penugem macia e cacheada para ser, verdadeiramente, cabelo de gente grande. O fetiche dos homens por cabelos – em especial os compridos – também encontra uma explicação na psicanálise.

— Segundo Freud, a última coisa que um menino vê em sua mãe antes de perceber que ela não tem um pênis são os seus pelos pubianos. Por isso, os cabelos femininos são, durante toda a vida, um objeto de atração para os homens — explica.

Diana afirma ainda que o ato de modificar o cabelo — cortes, tinturas, apliques ou o que mais aparecer — é um dos mais poderosos ritos de passagem.

— Mudar o cabelo é a possibilidade mais rápida e eficiente de se tornar uma pessoa diferente. Por isso, o corte ou a tintura podem ocorrer nos momentos decisivos da vida, em que a mulher quer se transformar. Com a vantagem de que mudar o cabelo é um rito reversível, caso a pessoa mude de ideia.

Em função da carga semântica que o cabelo carrega, uma das representações mais contundentes da velhice é, justamente, o seu branqueamento.

— Os primeiros fios brancos mudam o jeito como o mundo olha para aquela pessoa. E mudam o jeito como ela própria olha para si — completa Diana.

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Por trás das madeixas de cada mulher, movimenta-se todo um universo de significados, que comunicam ao mundo quem é aquela pessoa. Por isso, nos tornamos quase irracionais em nome de um cabelo bonito. Pesquisas apontam que as brasileiras deixam de comprar roupas ou sapatos para investir nos tratamentos capilares. Um levantamento feito no ano passado pela consultoria Kantar Worldpanel mostra que nenhum país do mundo gasta tanto em produtos para o cabelo como o Brasil. Em 2013, cerca de 25 milhões de brasileiras alisavam o cabelo. Elas e mais uma porção de outras em todo o país fizeram o número de salões de beleza ultrapassar os 350 mil em todo o território nacional. A disposição das gurias em dar um trato nas madeixas fez o setor de produtos como xampus, cremes, pomadas e condicionadores crescer 350% na última década, com um faturamento de mais ou menos R$ 18 bilhões por ano. Achou muito? Pois saiba que isso vai aumentar: em 2015, seremos o maior mercado do mundo neste quesito.

Olhando esses dados assim pode até parecer exagero. Mas, depois de mais de dois mil anos de cultura, psicologia, identidade e arte, não seria agora que a mulherada iria deixar o cabelo de lado, certo?

Sagrado ou profano?

Ao longo da história, os fios femininos serviram para a construção não somente de partes significativas da cultura, mas também das religiões. Por sua intrínseca sensualidade, é comum que a cabeleira seja relacionada ao sexo, ao pecado e à feminilidade. Basta lembrar da figura de Maria Madalena, a prostituta que acolhe Jesus Cristo, de acordo com a Bíblia. É com os cabelos que ela enxuga os pés do filho de Deus, como se a santidade dele pudesse encobrir tudo o que as vastas madeixas dela representavam. E o que dizer das beatas que vão à missa com os cabelos cobertos por um veuzinho de renda? Escondem os cabelos em sinal de recato, respeito e devoção, afastando-se do pecado de tê-los soltos, com os de Maria Madalena. Sim, você está pensando certo: não é por acaso que todas as imagens de Nossa Senhora a retratam com um véu cobrindo os cabelos.

Nas religiões de matriz africana, a mãe de todos os orixás, Iemanjá, também cultiva longos e sedosos cabelos. Fertilidade e proteção, atributos sempre ligados à figura feminina, fazem com que Iemanjá seja a entidade mais reverenciada no Brasil. Nas festas dedicadas a ela, que ocorrem sempre junto ao mar, os devotos a presenteiam com perfumes, pentes e espelhos. Segundo a crença, o que ela mais gosta é de pentear e perfumar suas madeixas, longas e fartas como o oceano.

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Há séculos, as bruxas normalmente são representadas por mulheres de cabelos vastos e desgrenhados. Aliás, esta é uma imagem recorrente ainda hoje: alguém com os cabelos desarrumados transmite a ideia de desordem, já que eles são a extensão da cabeça. Ainda falando em bruxas, o que não pode faltar em uma poção ou feitiço? Cabelo de gente, é claro. Seja para prender o homem amado ou para fins ainda menos honrosos, fios do cabelo da vítima são presença certa nos caldeirões.

A ligação entre o cabelo e a religiosidade também instaurou costumes que se perpetuam há milênios. As leis da Charia, baseadas nos ensinamentos do Alcorão, determinam que as mulheres muçulmanas cubram a cabeça com a hijab, o véu islâmico. Causador de polêmica ao redor do mundo, o véu deve ser usado para esconder a beleza dos cabelos femininos, que deve ser resguardada somente para o deleite do marido. Também seguindo ensinamentos milenares, as mulheres indianas jovens ou casadas cobrem os cabelos com uma volta do sari, o manto que orna suas vestimentas. As casadas têm a cabeça cingida por um pó vermelho, resultado da mistura de mercúrio e açafrão, que representa a sua fertilidade. Ainda na Índia, a primeira mecha de cabelo cortada das meninas é incorporada a uma bola de massa comestível e lançada ao rio Ganges, como oferenda aos deuses. Este é um dos tantos ritos de passagem do hinduísmo que envolvem os cabelos.

Eles fazem a fama delas

Desde os primórdios, as ricas, famosas e poderosas dedicam boa parte da sua energia ao trato dos cabelos. Afinal, os fios fazem parte da mensagem que elas querem transmitir. E não estamos falando somente de Hollywood e suas celebridades desfilando lindas e loiras (ou ruivas, ou castanhas) sobre os tapetes vermelhos: a trabalheira e a gastança com a cabeleira vem de longe.

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Uma das primeiras celebridades da história, a rainha egípcia Cleópatra utilizava leite de cabra para hidratar os cabelos e deixá-los mais sedosos. Maria Antonieta, a rainha decapitada da França no final do século 16, usou a moda como instrumento político e demonstração de poder. E os penteados foram o ponto alto de sua estratégia. Famosa pela invenção do “pouf”, uma estrutura de arame que sustentava perucas gigantescas, a rainha não teve medo de ousar. Historiadores afirmam que seus penteados chegavam a pesar oito quilos e podiam ter três metros de altura. Frutas, legumes, flores, esculturas e até gaiolas com pássaros vivos ornavam a cabeça da rainha. Não à toa, na ocasião de sua decapitação, um dos atos mais conhecidos da Revolução Francesa, o carrasco segurou sua cabeça pelos cabelos e mostrou à multidão, que explodiu em vivas.

Um livro para quem não consegue tirar o cabelo da cabe;a

Por Cláudia Laitano

A maioria das mulheres não passa um dia sequer na vida sem pensar no próprio cabelo. A mais desencanada de nós checará o visual apenas de manhã, antes de sair de casa, avaliando condições gerais e se está diante de mais um bad hair day. Em caso de ressaca capilar, a desencanada resolverá o problema com um rabo de cavalo e vai procurar esquecer o assunto procurar, eu disse. A maioria, porém, dará um jeito de conferir o cabelo várias vezes ao dia e não só no espelho do banheiro, mas na superfície brilhante de um carro, no alumínio de um balcão da lanchonete, no vidro de uma janela recém lavada…

Apesar desse exército de mulheres, de todas as idades e ao longo de toda a vida, dedicadas ao escrutínio da estética capilar, coube a um homem dar forma e conteúdo ao livro que leva essa obsessão ao limite. “Há um momento na vida em que ele começa a pensar no cabelo como outras pessoas pensam na morte”, descreve o narrador de História do Cabelo, romance do escritor argentino Alan Pauls lançado há três anos no Brasil.

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As obsessões do personagem soam às vezes engraçadas – menos por exóticas do que por constrangedoramente familiares. Quem, afinal, nunca teceu mil teorias sobre cabeleireiros, estilos de corte, efeitos psicológicos/transcendentais do cabelo que não se ajeita de jeito nenhum? O personagem do livro vaga por Buenos Aires entrando e saindo de salões, condenado a pensar no cabelo – se deve cortar muito, pouco, deixar crescer, não cortar mais, raspar a cabeça para sempre. Em busca do corte perfeito, o personagem reflete sobre o cabelo como símbolo social, instrumento político e de identidade ao longo de diferentes períodos da história.

O lado anedótico da obsessão do protagonista com o próprio cabelo, porém, acaba sendo apenas um pretexto para uma trama política que tem a Argentina dos anos 70 como cenário – com História do Pranto e História do Dinheiro, História do Cabelo forma uma trilogia dedicada a um dos períodos mais sombrios do país vizinho. “São três coisas que temos e que perdemos, gastamos, ao longo da vida. Era essa sensação que queria passar ao tratar desse período histórico, porque foi por essa experiência que passaram os argentinos na época”, explica Pauls.

Se durante a leitura você conseguir esquecer que também tem cabelo e que provavelmente ele se desarrumou durante o período em que ficou absorvido pela história, pode ficar tranquilo: seu caso nem é tão grave assim.

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