Saiba por que muitas mulheres passaram a cortar os cabelos em barbearias descoladas

Foto: Félix Zucco
Foto: Félix Zucco

Michelle Teixeira

Sabe aqueles salões de beleza superelegantes, com espumante liberado, revistas de fofoca e mulheres na maratona cabelo, mão, pé, massagem, sobrancelha? Pois há quem prefira cortar os cabelos em um ambiente totalmente diferente: gostam mesmo é da navalha e da cerveja gelada que encontram nas barbearias moderninhas. O motivo? Elas mesmas contam:

– Eu me sinto muito mais à vontade em barbearias, é mais descontraído. Tem música boa e cerveja. O clima é muito mais agradável para mim, até mesmo pelos assuntos – revela Julia Costa, 25 anos, cliente da barbearia Velho Tranquilo desde o começo de 2017.

– Quando decidi cortar o cabelo curto, passei por dois salões. Cortava, cortava e ninguém acertava. Então, o meu dentista me sugeriu a La Mafia. Fui e amei. Até hoje, as pessoas me param na rua querendo saber onde corto o cabelo. Não adianta, por melhor que seja o cabeleireiro, a técnica dos barbeiros com a máquina sempre vai ser superior – garante Lise Filber, que corta com o barbeiro Gui Almeida há seis meses.

– É uma maravilha pela praticidade. Tu podes ter um look ousado, sem recorrer a muitos recursos, como a química. Lavo o cabelo, pego um secador e pronto. Com um corte tão bem feito, tu acabas te reformulado a toda hora – revela a terapeuta Ilka Rosa, 60, que há sete meses abandonou os salões e agora assume os fios brancos em um corte feito com máquina e tesoura.

– Definitivamente, a praticidade das barbearias é o que mais me atrai. Sempre cortei em salão, desde os tops até outros mais simples e sempre me incomodou o fato de ter que esperar uma eternidade para conseguir horário. Não sou uma cliente que curte fazer reserva. Na barbearia, consigo ter esta agilidade, porque são cortes mais rápidos – afirma a cozinheira Cleide Reis, 27, que há 10 anos é adepta dos cabelos curtos.

Foto:  Félix Zucco

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A TÉCNICA DOS CURTÍSSIMOS

Em Porto Alegre, nem todas as barbearias recebem mulheres, mas há um ponto em comum entre as que as atendem: fazem apenas cortes masculinos. Nada de cabelão e repicado. Muito menos coloração. A clientela feminina que corta nesses estabelecimentos está em busca do fade perfeito, o clássico degradê, e não tem medo de raspar a cabeça.

– As mulheres que vêm para ser atendidas aqui têm estilo forte. Personalidade para caramba mesmo. Elas não têm problema algum em passar máquina e geralmente estão em busca de cortes mais “old school”. Acho que elas procuram cada vez mais as barbearias, porque no salão nem sempre os profissionais dominam a técnica de máquina – afirma Robson José Gomes, barbeiro da Club House Concept.

Luckas Cabral, responsável pelo Marketing da rede La Mafia, também acredita que esta seja a justificativa da crescente busca do público feminino pelas barber shops:
– Os salões tradicionais não costumam fazer cortes com máquina e navalha de uma forma tão especializada quanto as barbearias. Nossos profissionais são treinados para isso. Para criar cortes típicos masculinos, mas que podem ser feitos em qualquer cabeça.

Foto: Félix Zucco

Lise Filber (na foto com o barbeiro Gui Almeida) diz que as pessoas a param na rua para saber onde corta o cabelo. Foto: Félix Zucco

E não faltam histórias para contar nas barbearias. Após perder um filho, Lise Filber enfrentou estresse pós-traumático e acabou perdendo muito cabelo. Resolveu, então, cortá-lo curto, mas só conseguiu o modelo perfeito na barbearia:
– Já estou no quinto corte. Máquina e tesoura e está resolvido. Meu corte é exótico, mas superprático. Além disso, eles são muito atenciosos. Já frequentei salões chiquérrimos, mas o que interfere mesmo é a atenção. Aqui é um lugar muito alegre.

E muitos barbeiros adoram atendê-las. Na opinião de Gui Almeida, da La Mafia da Avenida Praia de Belas, “sentou na cadeira, virou cliente”.

– Homem, mulher, travesti, transexual ou extraterrestre. No fim, a cor do dinheiro é a mesma, não é verdade? Se for um corte da técnica que eu domino, que é a barbearia, vou adorar fazer.
E a mulherada não fica só na cadeira de cliente. Muitas barbearias da cidade já contratam mulheres barbeiras. Segundo Mateus Grazziotin, proprietário da rede Velho Tranquilo, além de dominarem a técnica, elas colocam ordem na casa.

– Também é bom para evitar que se crie um ambiente machista, onde só se fala de futebol e mulher. Além do trabalho delas ser extremamente detalhista e o atendimento um diferencial, os caras se tornam mais comedidos, mais educados, na presença delas. Homem quando se junta vira guri. Já quando tem uma mulher por perto eles querem mostrar que são maduros – opina o empresário.

NOVOS ARES

Além da excelência nos cortes raspados, algumas mulheres acabam atraídas pelo ambiente descolado das barbearias. Muitas delas começam a acompanhar o marido, filho, irmão e usufruem do espaço, com mesas de sinuca, cerveja e vídeo game. Em seguida, de acompanhantes se tornam clientes. A cozinheira Cleide e a estudante de Direito Júlia também garantem que o clima despojado das barbearias é um diferencial e tanto.

– Existem muitos salões com aquele padrão cabelo louro e comprido. Eu sempre era a menina diferente. Nunca senti medo desses olhares nem nada, mas aqui me sinto em casa. Desde a playlist até praticidade do corte. Tudo tem mais a ver comigo – explica Cleide.

– Além das barbearias serem especializadas no corte que busco, gasto menos e ainda me divirto. É como se eu fosse sair para bater um papo com amigos, tomar uma cerveja e, de quebra, ainda cuido do cabelo – afirma Julia.

Luckas Cabral destaca ser comum as clientes falarem que gostariam que existisse um lugar com a cara das barbearias, mas que fosse especializado para mulheres. Voltado para o entretenimento, com cerveja, videogame.

– Estamos expandindo o negócio, mas por enquanto, a curto prazo, não pensamos em criar uma La Mafia voltada para o público feminino, mas é algo bem viável. Quem sabe no futuro – diz ele.

Para Mateus Grazziotin, da rede Velho Tranquilo, abrir as portas para o público feminino já é uma vitória a ser comemorada. Por isso, expandir para um ambiente exclusivo para mulheres ainda é algo distante, mas que vem sim sendo analisado:

– Quando abrimos, em abril de 2016, éramos uma filial de uma rede de Passo Fundo e existia na empresa a postura de não atender mulher, como é nos gentleman’s clubs, como a famosa Schorem Haarsnijder & Barbier, em Roterdã, na Holanda. Tentei conversar com as minhas sócias. Expliquei que isso não cabia mais no mundo de hoje. Sem contar que não seria legal para o negócio. No fim, venceu a defesa de Grazziontin. A sociedade foi desfeita e, hoje, a barbearia, que ganhou um novo nome, já soma mais de 10 clientes mulheres fixas.

Foto: Félix Zucco

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LIBERDADE ÀS CABEÇAS

Barbeira da Velho Tranquilo do Moinhos de Vento e apaixonada pela cultura das barber shops, Caroline Ilha destaca que vivemos um momento de “convergência de estilo”, ou seja, o corte de cabelo não deve ter gênero e, sim, representar o que cada indivíduo entende que é a sua imagem:
– Até há pouco tempo, o comprimento dos cabelos não era sinônimo só de estilo, mas também de sexualidade. A proposta da barbearia moderna é mudar isso. Oferecer cortes alinhados às cabeças ávidas por personalidade. Enriquecer o estilo da pessoa, independentemente do gênero com o qual ela se identifique.
Caroline já percebe dois tipos diferentes de público entre as mulheres que buscam as barbearias: além das que querem algo novo, ousado e contemporâneo, há as que encontram ali um ambiente libertador. Ela recorda de uma cliente que chegou com um cabelão pela cintura e pediu para cortar curtinho.
– Quando terminei, ela se emocionou e disse que sentia como se estivesse se libertando, que aquilo tinha sido a melhor sensação da vida dela. Têm meninas que se sentem meninos. Então, é claro que elas vão se sentir mais à vontade nesses lugares.

VAI ATORAR?

Está pensando em aderir aos fios raspados? Uma dica é conhecer a barbearia onde você pretender cortar e conversar com o barbeiro. Muitas vezes, o profissional mesmo vai te ajudar a decidir com que tipo de corte começar, mas há pelo menos três modelos mais comuns: o undercut, o sidecut ou completamente raspado.
No undercut, os fios são raspados na região da nuca. O corte pode ser feito em fios longos, médios ou curtos. Também é um corte bastante usado por quem deseja diminuir o volume dos cabelos. Em mulheres com fios longos, o undercut só aparece quando os cabelos estão presos.
Já o side cut, é aquele corte em que as laterais da cabeça são raspadas – pode ser um lado apenas ou ambos. É o tipo de corte que fica bem em todos os tipos de fios. Mas, como nada é perfeito, é bom saber: se decidir ter os fios longos novamente, deverá esperar muito tempo até que o cabelo se iguale. Ou, claro, raspar toda a cabeça para que os fios cresçam todos ao mesmo tempo.
Outro corte também bem popular é o Pompadour, a la Elvis Presley. O modelo geralmente é caracterizado pelo corte gradual dos lados e bem alto no topo da cabeça, recuando seu movimento até a parte de trás.

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