Ceva das minas: gaúchas criam grupo para aumentar a participação feminina no mercado cervejeiro

Rosária Penz é sommelier, cervejeira e dona de bar (Foto: Mariana Fontoura, Especial)
Rosária Penz é sommelier, cervejeira e dona de bar (Foto: Mariana Fontoura, Especial)

Por Rossana Silva, especial

Da produção ao design de rótulos, um grupo de gaúchas tem mostrado que a relação das mulheres com a cerveja vai bem além de degustar o resultado final. É o Ceva das Minas, que reúne cerca de 40 mulheres atuantes ao longo do processo de fabricação de cervejarias artesanais. O nome, usado inicialmente para designar eventos que destacavam as marcas que tinham mulheres atuando na produção, passou a denominar também o coletivo para incentivar a ampliação do número de gurias trabalhando em cervejarias.

— Começamos a entender que, dentro do Ceva das Minas, tínhamos uma cervejaria inteira, da administração à produção. Passamos a organizar workshops para ensinar umas às outras o seu papel no meio cervejeiro. Além de formar ainda mais as que já atuam, queremos abrir caminho para as meninas que estão chegando no setor – explica a analista de comunicação da cervejaria Perro Libre, Carolina Alves, 24 anos.

Nos encontros presenciais, pelo menos uma vez a cada mês, elas trocam informações, traçam estratégias sobre como ampliar a participação das mulheres no mundo cervejeiro, “brassam” (jargão para o processo de fabricação) juntas e, claro, bebem. No dia a dia, a comunicação segue nos grupos no WhatsApp e no Facebook. Um dos assuntos recentes foi o lançamento da cerveja Mulher – Rosa Vermelha, da Proibida, “delicada e perfumada, feita especialmente para você, mulher”, conforme a descrição publicada pela marca nas redes sociais. A exemplo do que se viu nos comentários no post, a iniciativa pegou mal entre as mulheres que trabalham com cerveja.

— O meio cervejeiro tem uma tendência masculina. As objeções vão vir, mas cabe a nós colocar esses muros abaixo. Escutamos muito as pessoas dizendo que a avó fazia cerveja em casa, mas isso em algum momento acabou se perdendo, pela pressão da sociedade machista. Acreditamos que cerveja para mulher é a que ela quer tomar, e ponto — afirma Carolina.

É o público feminino, por exemplo, que consome de maneira mais uniforme os variados estilos das 14 torneiras da Penz Bier – Das Haus, na Cidade Baixa. Ao observar o comportamento dos frequentadores, a proprietária, Rosária Penz Pacheco, 43 anos, percebeu que as mulheres são mais abertas a experimentar novos estilos – assim como ela. Em 1992, enquanto aguardava a chamada para iniciar o curso de Economia no segundo semestre, Rosária percorreu a Alemanha de cidade em cidade experimentando os rótulos do santuário da bebida.

De volta a Porto Alegre, formou-se e trabalhou por quase 20 anos em um banco, até decidir transformar a paixão em trabalho. Fez cursos de sommelier em São Paulo e Porto Alegre e trabalhou em uma distribuidora antes de abrir as portas do próprio negócio. O domínio sobre o tema garantiu a ela a certificação como juíza da conceituada organização Beer Judge Certification Program. Na noite de terça-feira, ao conduzir uma degustação guiada em seu bar, lembrou que a bebida já foi considerada um líquido sagrado – em uma época na qual eram as mulheres as responsáveis por produzi-la. E foi feita por uma mulher a descoberta essencial para o aprimoramento da cerveja: o lúpulo, cuja flor estampa uma tatuagem no braço esquerdo de Rosária. Nos últimos anos, ela acompanhou o crescimento da presença feminina no setor.

— As mulheres têm participado cada vez mais do mercado. Nossa atuação como sommelier já está bem consolidada, mas na produção, ainda deixa muito a desejar. Há bastante preconceito na contratação, e algumas vagas chegam a vir com a especificação de que são exclusivas para homens — explica.
Devido ao trabalho na fábrica envolver o uso de força, muitos donos de cervejarias ainda impõem restrições à contratação de mulheres, como percebeu Adriana Aita, 33 anos, ao começar a enviar currículos. Depois de anos produzindo cerveja em casa, a bióloga tinha o desejo de atuar em uma fábrica. Com o apoio de Rosária, conseguiu a vaga na Babel, em meados de 2015. O teste incluiu levantar sacos de malte de 25 quilos e um barril de 65 quilos. Ela conta que, apesar de experimentar cervejas fazer parte da rotina, o dia a dia pode ser mais braçal do que glamouroso.

— Fazemos todo o processo, desde moer o malte, a brassagem em si (misturar o malte à agua sob a ação do calor), colocar na fermentadora e toda a parte de envase, como esterilizar e rotular as garrafas… Provamos a cerveja para ver se está ok, se precisa de mais fermentação ou se tem sabores e aromas indesejados. Faço as mesmas tarefas que os homens, e procuramos levantar o peso em dupla, para não detonar as costas – afirma.

 

A cervejeira Adriana Aita (Foto: Omar Freitas, Especial)

A cervejeira Adriana Aita (Foto: Omar Freitas, Especial)

A cervejeira engrossa o coro de que cerveja de mulher é a cerveja que ela quiser – ou fizer.

— Cerveja não tem gênero, o gosto é de cada um. Independentemente de gênero, não podemos limitar o nosso gosto. As mulheres não devem achar que têm de tomar cerveja fraca. Elas podem abrir o gosto e provar para decidir o que preferem — sugere.

E as mulheres estão chegando com tudo não apenas no mercado. A participação delas têm aumentado também entre os cervejeiros caseiros, que arriscam fórmulas para consumo próprio. Cerca de metade das integrantes da Associação dos Cervejeiros Artesanais do Estado do Rio Grande do Sul (Acerva) fez sua inscrição em 2016. O presidente, Francisco Haubert de Souza, afirma que as mulheres chegam com grande conhecimento em áreas importantes para a fabricação, como a microbiologia:

— Elas estão formando um movimento organizado para se inserirem nesse meio. Procuram se capacitar e estão se organizando para participar mais. É um ambiente que, às vezes, ainda tem receio da participação delas, com uma cultura meio machista, mas está melhorando. E como elas estão se aliando em grupo, vêm com conhecimentos importantes. Não queremos que haja diferença, a participação delas agrega.

CERVEJA 803

Antes do polêmico lançamento da Proibida, o debate sobre o que é uma cerveja para mulher foi levantado pela cervejaria Perro Libre, com o rótulo 803. A cerveja, lançada junto a uma campanha para questionar definições e restrições de gênero, tem tonalidade escura e “um lúpulo que teima em aparecer, não só no sabor, como no aroma”.

Batizado em referência ao Dia da Mulher, o rótulo ganhou o prêmio de melhor cerveja American Black Ale no Concurso Brasileiro de Cervejas de 2016 e pode ser saboreado em mais de uma dezena de bares de Porto Alegre.

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