Dicas para mulheres ganharem mais, gastarem menos e investirem

Um dia, em 2001, a executiva Denise Damiani descobriu que ganhava menos do que todos os outros sócios da empresa de consultoria onde atuava. Foi quando finalmente decidiu olhar a planilha anual de ganhos. E, então, o choque: apesar de cuidar de um dos principais clientes, seu nome era o último da lista.

– Por que não estava prestando atenção em como era remunerada? Porque achava que era óbvio que estava fazendo um bom resultado, que todo mundo estava vendo e iria cuidar de mim. Mentira. Tenho que ter um bom resultado e ir lá exigir que esse resultado seja recompensado.

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Denise pediu demissão, e, em resposta, viu a distorção ser corrigida. Ela conta esta história no livro Ganhar, Gastar, Investir, que acaba de lançar em parceria com a jornalista Cynthia de Almeida, pela editora Sextante. E pontua: a partir daquele momento começou a se engajar para que mulheres ganhassem o mesmo que os homens e aprendessem a exigir o que merecem e a lidar com o próprio dinheiro. Com um currículo notável, que inclui MBA em Harvard e postos de comando em diferentes empresas, ela hoje tem sua própria consultoria e um site, que leva seu nome, e a missão de empoderar as mulheres no mundo do trabalho e das finanças.

– As mulheres que hoje têm mais poder devem ajudar para as que as outras mulheres também tenham mais poder.

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Ganhar, Gastar, Investir, de Denise Damiani e Cynthia Almeida, é um lançamento da editora Sextante, com 256 páginas. Preços médios: R$ 39,90 e R$ 24,99 (ebook)

O livro é um resultado das perguntas e queixas mais frequentes que Denise ouve por aí em palestras e contatos profissionais: vão desde “Não ganho bem”, “Não sei me vender”, a “Como controlar meus gastos sem perder qualidade de vida?” e “Como escolher um investimento?”. Em resposta, a consultora explica os fundamentos de como ganhar mais, gastar menos e investir, e alerta para o fato de que muitas mulheres ainda delegam o planejamento das finanças, poucas pensam a longo prazo ou se preocupam em entender um pouco mais de economia. O que fazer, então? Esqueça o passado e comece hoje, provoca Denise.

Mulheres ganhando menos. Até quando?

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Esse assunto tem duas pernas, pessoal, e cultural. No âmbito pessoal, você tem que primeiro perguntar o que as pessoas ganham, por que não ganha igual, pedir aumento. A coisa mais difícil é entender que você merece ganhar bem e ganhar mais. Se não entender que tem valor e merece, não vai para frente. A famosa autoestima ajuda para caramba. Em época de promoção, havia fila de rapazes na minha sala, dizendo que queriam aumento; as mulheres não vinham nunca. Elas ficam esperando serem reconhecidas: “Faço um bom trabalho e com certeza vão me reconhecer”. Não, se você faz um bom trabalho com certeza vão te deixar fazendo esse bom trabalho (risos). No coletivo, há alguns grupos de mulheres, e sou fundadora de alguns deles e participante ativa, que trabalham com empresas para elas entenderem que essa diferença salarial não é só antiética, mas também contra os negócios. Quanto menos as mulheres estiverem participando da real decisão, do poder, nos salários menores e com cargos menores, a empresa não vai para frente. O presidente mundial da Mercer, uma das maiores empresas de RH do mundo, estava me dizendo que, neste ano, em Davos (no Fórum Econômico Mundial), o café da manhã em que se discutiu sobre mulheres e o poder nas empresas foi o mais concorrido. Há dois anos ninguém ligava para esse tema. O mundo começou a atentar para o que é vantagem competitiva: e está absolutamente comprovado que, se você descartar metade da inteligência que tem na sua empresa, não der poder para as mulheres, não vai ter os melhores resultados. Não adianta ter 50% das sua força de trabalho sem poder, sem tomar decisão, porque as coisas não serão feitas da perspectivas delas. Tem que ter um movimento para a gente mudar isso na sociedade.

Um desafio a vencer: a insegurança

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Não é mito, não. Vejo isso bastante: a síndrome da fraude assola muitas mulheres. E vejo pouco avanço nisso. Obviamente, hoje temos uma agenda em que quem não fala de mulher está por fora. Toda essa discussão ajuda muito. Quando você começa a discutir, você olha ao redor: “Achei que só eu era uma fraude. Se todas estão achando a mesma coisa, tem alguma coisa errada”.

Uma outra possibilidade: empreender

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O empreendedorismo feminino deu um salto nos últimos anos de maneira absoluta. Por quê? Por que as empresas estão muito chatas para se trabalhar, e as mulheres não estão a fim: “Aqui está horrível, não me respeitam? Vou criar meu próprio negócio”. E também tem essa coisa do espelho, tem tantas redes de mulheres empreendedoras, tanta gente empreendendo: “Eu me sinto acompanhada, vou tentar”. O mito é que vai trabalhar menos: o empreendedor trabalha muito mais. Há também o mito da flexibilidade, “ao empreender, faço o horário que eu quero”: o empreendedor também não faz o horário que quer – e, se você tiver poder como funcionário, vai poder fazer o horário que quer.

Além de direitos iguais, exigir as diferenças

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Quem fizer diferença, nem para homem e mulher, mas para a necessidade de cada um, tem uma grande vantagem competitiva. Quem tratar os diferentes diferentemente conseguirá atrair os melhores talentos e retê-los. O problema da mulher não é a gravidez nem a licença maternidade, é como a gente a integra na volta, após a licença. Se você não tiver um bom programa de reintegração, não estará fazendo diferença apenas cumprindo a lei. Aí, acaba deixando ela meio na geladeira: “Você não terá promoção porque só trabalhou seis meses neste ano”… Isso é um desestímulo, algo muito malfeito nas empresas. Mulheres gastam mais: mito ou fato? Em geral, as mulheres gastam mesmo mais do que os homens. Primeiro porque são responsáveis por 80% das decisões de compra e 70% das compras efetivas, de carro a comida. Segundo, que elas não compram só para si, mas para os filhos, o marido, os pais, ajudam os amigos, a vizinha… Tudo isso é uma quantidade de gasto significativamente maior. E elas têm uma crença de que no fim tudo vai tudo certo, o que eu chamo de pensamento mágico: alguma coisa vai vir e vai dar tudo certo.

Planejamento a longo prazo. O que é isso?

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As mulheres olham a curtíssimo prazo: como vou fazer o salário durar neste mês, como vou fazer chegar até as próximas férias… Mas se você perguntar sobre os planos nos próximos 30 anos: “Vou contratar uma previdência privada”. Não sabe o que é, quanto rende, mas acha que vai resolver. Há esta visão de curto prazo também na carreira. Você pergunta para um profissional júnior o que quer ser em 10 anos: um menino dá uma visão perfeita, a menina diz que não sabe nem o que quer ser até o fim do ano. Minha teoria é que a gente não quer se decepcionar: por que fazer um plano se pode não dar certo?

Economia: aprenda o básico

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As mulheres infelizmente estão na idade da pedra em relação a dinheiro. Por exemplo: pergunte quanto está o juro da economia hoje. Ninguém sabe dizer – 99% das mulheres não sabem o que quer dizer juro da economia (a taxa de juros é o instrumento utilizado pelo Banco Central para manter a inflação sob controle. A taxa básica de juros está em 14,25% ao ano). Você sabe dizer 30 cores de esmalte entre o vermelho e o rosa, que não te serve para nada, mas não sabe dizer quanto é o juro da economia. Portanto, se for aplicar um dinheiro não sabe se vai te dar 10% ou 20% ao ano. Não é possível ter esse desinteresse por uma coisa tão básica. Acho que é devido (à ideia de que) “mulher não é feita para isso”, alguém vai cuidar para mim. Se você souber que tem que cozinhar, vai aprender, mesmo que seja uma cozinheira ruim. Então, se souber que vai ter que cuidar da sua vida financeira, vai ter que aprender. Abra o jornal na parte de economia e vai ler o que quer dizer juro de economia. Na primeira vez, não vai entender nada, mas se você se esforçar, dar um Google, ler um livro, daqui a um ano vai estar entendendo um pouco.

Quer aprender a investir? Comece agora

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As mulheres ganham menos do que os homens, gastam mais do que eles, não sabem investir, vivem mais anos do que eles, na média. Portanto, você precisa de mais dinheiro no final da vida. Então, o que fazer? Adianta chorar o leite derramado? Não. Então, tiro a culpa e o passado da minha cabeça e penso: “Vou começar hoje. Não amanhã, hoje”. Não comece pela poupança, mas pelo tesouro direto (programa de negociação de títulos públicos a pessoas físicas por meio da internet), que paga juros da economia com pouquíssimo risco. Mas o que é tesouro direto? Google, tem que começar a ler, pesquisar, pedir ajuda para alguém explicar melhor.

Gráficos e planilhas: há como fugir deles?

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Do que você não pode abrir mão: saber quanto ganha, quanto gasta e o retorno do quanto está investindo, de todo o resto dá para abrir mão. Se conseguir fazer isso sem planilha, tudo bem. Se você acha que gasta 10 por mês e gasta 11 ou 12, tudo bem. Não pode achar que gasta 10 e gasta 20.

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