Finanças em dia: como fugir das influências e gerenciar seus gastos

Erik Farina, especial

Liberdade: leveza de saber o quanto se pode gastar, sem receio de fechar o mês no vermelho; certeza de não depender da estabilidade do emprego para se aproximar de seus sonhos. O verbete poderia ser descrito desta forma no dicionário da arquiteta Priscila Toniolo.

Há pouco mais de um ano, quando decidiu deixar a sociedade em uma empresa de construção civil, buscou ajuda de uma amiga, consultora financeira. Questão central: precisava saber se, com o que havia poupado, poderia encarar alguns meses de incerteza enquanto dava início a um novo negócio na área de arquitetura.

– Queria dar um passo diferente na minha trajetória, mas não tinha ideia se conseguiria segurar as contas enquanto o escritório não desse lucro – comenta Priscila, 30 anos.

Quando elaborou uma planilha financeira, surpreendeu-se com o quanto gastava com lanches e cafés entre um compromisso e outro, em lojas de conveniência. Também descobriu que os restaurantes e as saídas com as amigas, alguns dos programas favoritos, não pesavam tanto assim no orçamento como suspeitava.

– Achei que gastava bem mais, até me sentia culpada – conta – consegui ver como onde poderia equilibrar o orçamento, e isso me deu muito mais autonomia em meus gastos.

A trajetória de Priscila pode inspirar as mulheres em tempos de crise, quando o dinheiro é escasso e o endividamento espera o primeiro vacilo para atacar. Consultores financeiros dizem que elas correm mais riscos de tropeçar nas contas. Note-se: as mulheres são o alvo favorito da publicidade, tendem a assumir mais contas com filhos e evitam investimentos complicados (mas mais rentáveis).

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Foto: Cristian Mariani, divulgação

E – alerta máximo – 46,5% se endividam no cartão de crédito, com seus juros altíssimos, conforme o SerasaConsumidor. Para completar, gastam mais do que os homens em compras e serviços do dia a dia. Do calçado ao corte de cabelo, passando pelo xampu e o terninho para trabalhar, tudo é mais caro para elas.

– O perfil das mulheres que se endividam é diferente ao dos homens: enquanto eles criam grandes dívidas, como a compra de um carro, por exemplo, as contas delas vão se somando aos poucos, com uma porção de compras picadas e parcelamentos que viram um grande problema – explica Cássia D’Aquino, especialista em Educação Financeira.

Fator cultural

Tradicionalmente, destaca Cássia D’Aquino, os homens ainda tendem a assumir a responsabilidade por projetos de grande porte da família, como seguro de vida, reforma da casa ou plano de previdência, enquanto às mulheres costumam competir decisões do gasto diário: lazer e educação dos filhos, itens de decoração da casa e supermercado. São contas mais difíceis de se prever, portanto, ardilosas. Essa divisão é fruto de uma cultura que até pouco tempo colocava os homens como os provedores e as mulheres como responsáveis pelas tarefas domésticas.

– Nas famílias mais tradicionais, os pais ensinavam os filhos homens a cuidar do dinheiro, enquanto as meninas aprendiam a cuidar da casa – avalia Camila Bavaresco, consultora financeira. – O resultado é que os homens, historicamente, treinam mais a habilidade financeira.

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Salários menores

Com o avanço das mulheres como chefes de família – elas já comandam 39% dos lares brasileiros, ante 29% em 2004, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) –, o malabarismo do orçamento familiar ficou mais complexo: precisam pagar as contas da casa, dos filhos e, às vezes, até do marido. Quando o orçamento está curto, têm de escolher o que será sacrificado. E essa não é tarefa fácil.

– Quando se vê em aperto, a mulher até corta os próprios gastos, mas raramente os dos filhos e os familiares, que muitas vezes são os que mais pesam – afirma Camila Bavaresco. – Elas abraçam o mundo e, às vezes, se desequilibram.

Não ajuda o fato de ganharem menos do que seus maridos, mas gastarem mais com a casa e a família. Conforme o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), o rendimento das mulheres é até 37% menor do que o dos homens. Resultado: raramente sobra dinheiro no final do mês para uma poupança para emergência.

Menos poupanças

Uma pesquisa do Banco Mundial mostrou que apenas 25% das mulheres fazem algum tipo de economia, ante 32% dos homens. A razão de não investirem não pode ser explicada apenas pela planilha, defende Denise Damiani, autora do livro Ganhar, Gastar, Investir – O Livro do Dinheiro para Mulheres.

– Por séculos, as mulheres aprenderam que têm que ser cuidadas e sustentadas pelos maridos. E disso surgiu um medo de que, se acumularem dinheiro, fugirão do perfil das que casam e são felizes –argumenta.

Durante 15 anos, Denise, engenheira por formação, entrevistou colegas e conhecidas para entender por que algumas aceitavam trabalhar ganhando menos do que os homens e a razão de não pouparem. Concluiu haver um pavor intrínseco de romper com uma verdade preestabelecida de que cabe ao marido, e não a elas, buscar a prosperidade da família:

– Quando pensamos nas energias que definem o investidor, elas são próprias dos homens: planejamento, organização, meta. As mulheres são associadas ao relacionamento e à compaixão, ou seja, ajudar os outros, e não a si próprias.

Na mira da publicidade

Além da infinidade de produtos pensados para elas, as marcas apostam no público feminino ao anunciar itens para a casa, como móveis, eletrodomésticos e artigos de decoração. Como são mais bombardeadas com anúncios e promoções, correm mais risco de fazer compras desnecessárias. Mais: elas passam mais tempo fazendo compras. Uma pesquisa conduzida na Inglaterra pela consultoria especializada em consumo Quidco, com uma amostra de duas mil entrevistas, concluiu que os homens suportam 26 minutos de shopping antes de cair em tédio. Para as mulheres, duas horas mostrou-se um bom tempo.

Agilidade para sair do endividamento

As mulheres têm suas vantagens para superar situações de dívida. Elas são mais ágeis do que os homens para recolocar as finanças pessoais nos trilhos e estão mais afastadas de aplicações financeiras arriscadas, que podem corroer o patrimônio da família.

– Quando começam a acumular dívidas, elas costumam pedir ajuda muito mais rapidamente do que os homens, evitando que a situação saia do controle – observa Cássia D’Aquino.

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Seis passos para gastar menos

  1. Conte com a internet para pesquisar promoções em diferentes redes e buscar cupons de descontos em sites de compras coletivas: há boas ofertas em estéticas e até spas.
  2. Mesmo que vá comprar em lojas físicas, pesquise antes na internet os valores aproximados dos produtos que deseja, para ter um padrão de preço e evitar gastar mais que o necessário.
  3. Antes de sair para comprar, anote no smartphone ou em um papel o que pretende comprar, e quanto gastará em cada item. Desta forma, reduzirá o risco do consumo por impulso.
  4. Seja contida nos mimos: embora seja tentador presentear anfitriões em cada jantar e mesmo aniversário em um bar, eles saem caro e nem sempre são necessários.
  5. Gastos com bares e baladas saem caro: faça um orçamento no início do mês com quanto poderá gastar com lazer. E, a cada saída, calcule um gasto máximo, proporcional ao seu planejamento.
  6. Não abra mão da boa e velha planilha: anotar todos os gastos, separando por grupo de consumo (alimentação, saúde, contas fixas etc.), facilita a visualização do que está drenando o dinheiro.
Foto: Pexels, reprodução

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Os quatro mitos

“As mulheres compram mais por impulso”

Mentira! Homens compram tanto por impulso quanto as mulheres, assegura a consultora financeira Camila Bavaresco. Eles gastam mais do que deveriam em eletroeletrônicos e gastam tanto quanto elas com lazer. Uma pesquisa da Associação Brasileira de Shoppings Centers mostra que os homens gastam 24% a mais do que as mulheres nos centros de compras.

“Mulheres não sabem investir”

Claro que sabem. Por um lado, o hábito de investir é menos familiar às mulheres, no entanto, quando resolvem buscar aplicações, elas se informam mais do que os homens, e tendem a tomar melhores decisões, diz Cássia D´Aquino, especialista em educação financeira.

“Mulheres tomam mais dinheiro emprestado”

Outra inverdade: as mulheres procuram menos os bancos do que os homens para pedir dinheiro emprestado. Conforme o SerasaConsumidor, 9,7% delas busca crédito nas agências, ante 11,3% deles. Por outro lado, elas buscam mais crédito consignado (com juros bem mais baixos).

“Mulheres precisam que os homens as ajudem a controlar o dinheiro”

Não! As mulheres têm as mesmas condições dos homens de controlar seu orçamento e definir os gastos da casa, mas muitas vezes abdicam desta tarefa porque a consideram masculina, avalia Denise Damiani. Aquelas que rompem essa cultura costumam se descobrir ótimas administradoras e profissionais de sucesso.

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