Não é só em Hollywood: saiba como ter igualdade salarial no seu trabalho

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Camila Maccari, especial

O movimento Time’s Up, iniciado com as denúncias de assédio, transformou-se em algo muito maior: em Hollywood, as atrizes estão mobilizadas também pela equiparação salarial e por mais representatividade na indústria cinematográfica. Ou seja, assim como na maioria dos escritórios mundo afora, quando o assunto é salário, mesmo o trabalho da pequena parcela de mulheres famosas, ricas e bem-sucedidas parece valer menos do que o de seus colegas homens.

E as atrizes aproveitam a visibilidade que possuem para trazer a pauta à tona. O Festival de Cinema de Cannes, que ocorreu em maio, foi marcado por declarações e manifestações que reivindicam o fim do gap salarial. Diante de colegas e da imprensa do mundo todo, a atriz Salma Hayek pediu aos atores que aceitem diminuir seus salários em prol da igualdade de gênero.

No primeiro final de semana do festival, 82 mulheres da indústria, incluindo atrizes como Jane Fonda, Kristen Stewart, Cate Blanchett, Marion Cotillard e a própria Salma Hayek desfilaram juntas pelo tapete vermelho e, simbolicamente, pararam na metade das escadas: porque ainda são impedidas de chegarem ao topo. Cate Blanchett, presidente do júri, leu o texto que desafiava o poder público a aplicar as leis sobre igualdade salarial, enquanto manifestava solidariedade com as mulheres de outras profissões. O que nos traz a pergunta: será que a discussão promovida por grandes nomes do showbiz impacta de alguma forma na disparidade que muitas de nós enfrentam no trabalho?

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No Brasil, dados do IBGE apontam que mulheres ganham 25% a menos do que os homens pela mesma função. Diante desse panorama, a executiva de RH e fundadora da Empregueafro Patrícia Santos vê com otimismo o efeito que as mobilizações das famosas podem ter:
– O movimento faz com que todos fiquemos conscientes sobre a disparidade salarial entre homens e mulheres no mercado de trabalho e com o quanto isso é global. Que bom que isso está acontecendo com tanto eco em Hollywood, centro de atenção do mundo. Isso faz com que, ao menos, as discussões aconteçam.

A advogada para mulheres Gabriela Souza já percebe uma repercussão do movimento na vida prática das mulheres. As clientes que a buscam por questões trabalhistas vêm com novos questionamentos:
– Conversa vai, conversa vem, e muitas se perguntam por que razão um colega homem ganha mais pela mesma função. É esse o resultado por enquanto: quando você vê esse monte de mulheres se questionando sobre os direitos delas, você passa, também, a ter mais consciência dos próprios.

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Os desafios são ainda maiores para mulheres negras, como nos lembrou a atriz vencedora do Oscar Viola Davis: ela se manifestou dizendo que, embora sua trajetória seja comparável à de Maryl Streep ou de Julianne Moore, seu cachê não chega nem perto do das colegas.

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Para além de Hollywood também é assim. No Brasil, uma pesquisa do Instituto Locomotiva aponta que uma mulher negra graduada chega a ganhar 43% menos do que um homem branco – e 27% a menos que uma mulher branca. Para a pesquisadora Winnie Bueno, a discussão sobre disparidade salarial acaba levando em conta, na maioria das vezes, apenas mulheres brancas. Analisa que, sem o recorte de raça, o movimento não é efetivo.

– As mulheres negras estão na base da pirâmide econômica do país e sofrem duas vezes: pelo machismo e pelo racismo. A partir do momento em que você possibilita que essas mulheres tenham oportunidades equitativas no mercado de trabalho você resolve o problema como um todo, já que são essas mulheres que estão na base.

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Mas há luz no fim do túnel. Um artigo publicado no site do Fórum Econômico Mundial (WEF) mostra que uma das tendências para o futuro do mercado do trabalho é a contratação de mulheres. O conselheiro sênior do WEF Paolo Gallo afirma que a colaboração, a criatividade e a capacidade de ouvir são características humanas nas quais a mulher se sobressai. Vale, agora, questionar se essa vantagem vai ser traduzida, também, economicamente: além de valorizado, o trabalho da mulher será devidamente remunerado?

Confira três dicas para buscar a igualdade salarial

Articule-se dentro da empresa
Um reflexo direto das denúncias contra machismo e sexismo são os movimentos de empresas que tentam dar conta da diversidade.
– Muitas instituições têm grupos de diálogos: participar deles pode ser uma maneira de expor as suas demandas. A partir dessas reivindicações, muitas empresas começam a reavaliar as práticas e políticas de RH – explica Patrícia Santos.

Essa articulação também é importante para obter o aumento que possa lhe garantir a igualdade salarial.
– Resiliência e comunicação são habilidades estratégicas para o ambiente de trabalho, inclusive para assuntos como negociação de salários e promoções – avalia a consultora de RH Nicole Braga.

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Fale sobre o salário com colegas
Discutir o quanto se ganha ainda é um tabu no Brasil – e isto faz com que, muitas vezes, as mulheres não tenham ideia de que recebem menos do que os colegas homens na mesma função. Ou ainda que mulheres negras não saibam qual a diferença salarial em relação às colegas brancas. Então, se você perceber uma abertura, coloque o assunto salário em pauta.
A advogada Gabriela Souza lembra que, só a partir de provas concretas e números exatos, é possível reivindicar seus direitos perante a lei:
– É inconstitucional a discriminação por gênero. Ou seja, se você e seu colega têm a mesma experiência e formação e, ainda assim, ele recebe um pagamento maior, algo está errado aí. Já a diferença de salário por raça é considerada crime.

Conheça o seu valor
Patrícia explica que, na hora de se candidatar a posições mais altas, por exemplo, as mulheres sentem necessidade de cumprir todos os requisitos, enquanto homens não são tão criteriosos e se arriscam mais. A autoconfiança também pode ser uma ferramenta na hora de conquistar cargos altos e salários melhores, quebrando aquele teto de vidro que faz com que, no Brasil, mulheres podem atingir cargos de confiança dentro da empresa, mas dificilmente o cargo principal. Um levantamento do IBGE divulgado em março aponta que 37% dos cargos de chefia são ocupados por mulheres. Já uma pesquisa da consultoria Grant Thorton mostra que, por aqui, elas ocupam 16% dos cargos de CEO: um número baixo, mas que teve um aumento de 5% entre 2016 e 2017.

Casos que diferença salarial que ficaram famosos recentemente em Hollywood

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Claire Foy e Matt Smith
Uma das polêmicas mais recentes envolve a diferença de salário entre os protagonistas da série The Crown, da descolada Netflix, que, no Brasil, faz um marketing pesado em torno do nome nome ser feminino (“a” Netflix). Pelas filmagens de duas temporadas, Claire Foy, a premiada protagonista da série, ganhou cerca de R$ 1 milhão a menos do que Matt Smith, colega de elenco. Diante da repercussão negativa, a produtora indenizou a atriz com o valor que ela teria recebido se os salários fossem iguais.

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Michelle Williams e Mark Wahlberg
De acordo com a Forbes, em 2017, Mark Wahlberg foi o ator mais bem pago do mundo, recebendo U$ 68 milhões _ a atriz Emma Stone ocupou a primeira posição feminina com um total de US$ 26 milhões. No final do ano, o ator esteve no meio de uma polêmica salarial junto com a colega Michelle Williams: para refilmar algumas cenas do longa Todo o Dinheiro do Mundo, Wahlberg faturou US$ 1,5 milhão, enquanto Michelle, que já tem um Globo de Ouro no currículo, recebeu US$ 1 mil dólares pelo mesmo trabalho.

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Robin Wright e Kevin Spacey
Protagonista da série House of Cards, também da Netflix, Robin Wright também precisou brigar por um salário igual ao do então colega de elenco, Kevin Spacey _ que foi tirado da série depois de acusações de abuso sexual. Em 2016, a atriz pediu equiparação salarial à Netflix e recebeu o aumento. Em uma entrevista à revista digital americana Net-a-Porter, em maio de 2017, Robin contou que descobriu mais tarde que seu salário continuava menor.

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Octavia Spencer e Jessica Chastain
As duas atrizes ganhadoras do Oscar são amigas íntimas e defensoras ferrenhas da igualdade salarial. Em um painel no Festival de Cinema de Sundance, Octavia Spencer comentou a importância de trazer as mulheres negras para o debate. Ao discutir com Jessica Chastain os salários que receberiam por uma comédia que vão estrelar juntas, à época em fase de produção, ficaram chocadas ao descobrir a diferença de valores. Jessica decidiu negociar os pagamentos de ambas, garantindo que a colega ganhasse uma cifra cinco vezes maior.

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