O retorno da licença-maternidade: dez dicas para mães e empresas

Ana (o nome foi alterado a pedido da entrevistada) é mãe de três filhos: o mais velho tem 24 anos e o terceiro apenas 11 meses. Ela relata com estas palavras o seu retorno de três licenças-maternidades para três diferentes empresas:

– Na primeira, meus vencimentos foram reduzidos. Na segunda, meu cargo havia mudado e tive aumento de funções que, na prática, me impediam de ver meu filho. Na terceira, voltei sem a função que exercia antes. Colocaram outra pessoa no meu lugar. Da minha própria experiência e conversando com outras mães, percebo como isso mudou pouco em mais de 20 anos.

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Mais do que o período de gravidez, protegido por leis trabalhistas, o retorno da licença-maternidade combina elementos de tensão tanto para as profissionais quanto para as empresas: há uma mudança drástica de rotina, uma readaptação após um afastamento prolongado do trabalho, a novidade da distância do bebê e uma desconfiança mútua sobre os planos de futuro de parte a parte.

Donna conversou com a advogada Brunna Macarini, coaching com experiência em gestão de carreiras pós-maternidade (ela mesma, grávida de sete meses) e com a jornalista Verônica Vargas Muccini, mãe e responsável pelo site Depois da Chegada, além de coletar experiências de participantes do Clube de Mães de Porto Alegre, para elaborar uma lista de 10 atitudes práticas que tanto empresas quanto mães devem aplicar para tornar o período de readaptação menos traumático.

  1. Estude o mercado e o momento da empresa

Durante quatro ou seis meses de licença, a vida da mãe é o bebê. E é assim que precisa ser mesmo. Porém, é importante, na hora de retornar ao posto de trabalho, a mulher se inteirar sobre o cenário para o qual se está voltando, tanto o momento do mercado quanto os projetos recentes da empresa. É recomendado ficar bem informada para demonstrar assertividade nas primeiras decisões após o retomo.

  1. Quebre o gelo e demarque território

No momento do retorno, é recorrente o medo das mães de serem demitidas – e também do empregador de que as mães se demitam ao voltar. Vale chamar o gestor e abrir o jogo sobre os planos de futuro e ouvir da empresa sobre os planos para aquela profissional. É indicado também, no momento do retorno, pedir para ser apresentada a eventuais novos membros da equipe, certificar-se sobre a sua estação de trabalho, seu horário de expediente e o que mais for necessário para demonstrar que a profissional está de volta para valer.

  1. Planeje as finanças

O retorno ao trabalho é, via de regra, acompanhado de novas despesas. Pode ser uma escolinha para o bebê, uma babá ou mesmo gastos como o de deslocamento para amamentar em determinado horário, por exemplo. Se as novas despesas não forem calculadas e contabilizadas, é comum que a mulher retorne com um sentimento ainda pior: a apreensão de que ela precisa daquele trabalho somente pelo aspecto financeiro, seja qual for o ambiente que ela encontrar na volta.

  1. Saiba os direitos

Há inúmeros exemplos de empresas que, seja por má-fé ou por desconhecimento, aplicam regras ilegais no retorno das mães. A lei assegura direitos como o de amamentar sem ter o tempo descontado como intervalo e um dia de falta por ano para levar o filho a consultas médicas (até os seis anos). Informe-se sobre estes aspectos antes de retornar e, se necessário, alerte os gestores para a aplicação na prática.

  1. Teça uma rede de parceiros

O momento de retorno da mãe ao trabalho não deve ser apenas a hora em que a mãe divide seu tempo entre o bebê e o emprego. É também a hora em que cresce a responsabilidade do parceiro para que essa rotina não se torne uma tripla jornada para a mãe. Se o pai da criança não é presente, estabeleça outras redes de apoio, seja de profissionais ou de parentes.

  1. Defina espaços e horários

É preciso estabelecer horários e espaços para a amamentação. Empresas interessadas em integrar melhor as mães devem pensar em reservar um espaço com privacidade e, se possível, com equipamentos de refrigeração de alimentos (como um frigobar) para a mãe poder tanto amamentar o bebê, levado até ela, quanto coletar leite para dar de mamar mais tarde.

  1. Respeite o expediente

Mães são unânimes em afirmar que se tornam pessoas mais organizadas após a chegada do bebê e que isto se reflete positivamente nas rotinas de trabalho. Porém, justamente por essa organização, mães se sentem especialmente desrespeitadas por mensagens de trabalho fora do horário ou por demandas surpresa próximas ao fim do expediente. Estabeleça limites: dentro do horário, você trabalha; fora dele, a empresa deve respeitar seu tempo livre.

  1. Flexibilize o expediente, se possível

Ao mesmo tempo em que novas ferramentas de trabalho como aplicativos e gadgets podem servir para importunar um profissional 24×7, ajudam a ampliar possibilidades – como um home office por determinado período. Atitudes como substituir uma reunião presencial por uma participação virtual, por exemplo, podem fazer pouca diferença para a empresa, mas terão valor inestimável para as profissionais com bebê em casa. Gestores e profissionais podem estudar alternativas.

  1. Evite piadinhas

Praticamente todas as mães têm um episódio para contar de uma piadinha ou comentário desagradável que ouviram de um colega de trabalho depois do retorno da licença: “Mas como adoece esta criança” ou “Poxa, você se cuidava mais antigamente”. Comentários assim magoam, e cabe aos gestores orientar para que não ocorram.

  1. Exercite o bom senso (especialmente no início)

O primeiro ano de vida do bebê é prioridade absoluta, trabalhe a mãe ou não. Quando o emprego cobra um preço muito alto, mulheres por vezes são forçadas a alternativas como empreender porque as empresas não tiveram a sensibilidade de resguardá-la de viagens e mudanças de horários, por exemplo. Exercitar o bom senso e a tolerância pode ser o diferencial para manter uma grande profissional na equipe.

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