Sociedade em família: os desafios para separar trabalho e vida pessoal

Casados e sócios: Nelmo Ricalde e Carla Bazotti |Foto: Ronaldo Bernardi
Casados e sócios: Nelmo Ricalde e Carla Bazotti |Foto: Ronaldo Bernardi

Depois de mais um dia extenuante, o casal senta à mesa de jantar para relaxar, mas termina por reclamar do trabalho. Os dois estão infelizes nos seus empregos e adorariam demitir os seus patrões para fazer algo mais gratificante. Talvez realizar o sonho de administrar um negócio com a cara deles. Somando as economias de ambos, talvez mais um empréstimo (nada exorbitante), daria para tentar sorte naquela sala comercial perto de casa que eles namoram há semanas.

Não faltam negócios que começam dessa forma no Brasil. Isso ou variações. Irmãs que decidiram firmar sociedade. Filha que resolveu aceitar o convite para trabalhar com o pai… Na soma, nada menos do que 90% das empresas brasileiras, segundo dados do IBGE, têm origem familiar. Mas misturar negócios e família tem das suas armadilhas. E não são poucas.

– É preciso pensar duas vezes antes de empreender. Se for com um parente, quatro vezes. O erro mais comum é achar que, porque o negócio representa o sonho de alguém e é aberto por pessoas que se amam, ele necessita de menos planejamento do que qualquer outro _ alerta Luciano Silveira da Silva, técnico de atendimento do Sebrae na região metropolitana de Porto Alegre e mestre em Administração pela Universidade de Poitiers, na França.

Luciano elogiaria a prudência do casal Carla Bazotti e Nelmo Ricalde. Os dois tiveram uma ideia de negócio em 2009, quando Nelmo fez um tratamento para recuperar peso que necessitava de nove refeições por dia e teve dificuldade de encontrar alimentos nas porções recomendadas pelos nutricionistas. Percebendo a oportunidade de mercado, ele e a mulher bolaram a ProLight Alimentos. Talvez em razão da formação de ambos – ele era bancário, ela trabalhava no planejamento financeiro de uma empresa –, o projeto foi minuciosamente planejado e executado entre 2012 e 2015.
Porém, mesmo negócios que saem da prancheta com planejamento apresentam dissabores:

– Talvez o mais complicado seja o gerenciamento do tempo. Porque é ilusão achar que você não vai levar o trabalho para casa. Ou as brigas. É impossível ter uma divergência na empresa e não ir para casa de cara amarrada com aquela mesma pessoa com quem você discutiu – declara Carla Bazotti.

Segundo Luciano, quanto mais divididas e explícitas forem as tarefas de cada cargo da empresa, menor a chance de desavenças. Entre parentes, isso é ainda mais fundamental para que se evite confusão entre as hierarquias da casa e do negócio, bem como os conflitos geracionais.

– Parentesco não é diploma. A sua irmã pode ser a pessoa que você mais ama e confia no mundo, mas isso não vai fazer dela automaticamente um boa profissional, entende? O cunhado também não vai virar uma boa opção para um cargo apenas porque está desempregado. É preciso colocar pessoas certas nos postos certos e, se possível, ter até em contrato as atribuições de cada um.

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Três gerações: Evelise, Maria Angélica e Natasha | Foto Félix Zucco

Colega não só da mãe, Evelise Tellini Vontobel, mas também da avó, Maria Angélica Tellini, em um escritório de arquitetura, Natasha Tellini Vontobel prefere ver o copo meio cheio. Vê também fatores positivos na convivência entre diferentes gerações:

– O que observo por aí são muitos escritórios fecharem porque se acostumaram a fazer as coisas sempre da mesma forma. Quando a necessidade dos clientes passa a ser outra, não sabem como mudar. Dar espaço para a geração seguinte em uma empresa familiar é uma forma de trazer ideias e necessidades daquela geração para dentro do trabalho _ observa Natasha, 31 anos, sócia-diretora da Tellini Vontobel Arquitetura.

Outro problema das empresas familiares observado pelo Sebrae é a alta rotatividade do quadro de funcionários. Empregados que não fazem parte da família dona da empresa podem se sentir desprestigiados, excluídos das decisões ou constrangidos de reclamar de um colega para um parente dele. Foi uma lição que Kerlen Costa e Eurico Albrecht tiveram especial cuidado ao abrir o Café República, em 2013. Mais uma vez, a formação do casal pesou.

– Antes de abrir o café, tive uma formação de oito anos no Exército. Lá eu seguia aquela lógica de que um dava a ordem e o outro obedecia, sem questionamentos. Na hora de abrir um negócio, quis fazer justamente o contrário. Incentivar o diálogo com e entre os funcionários. Nós demoramos para contratar uma pessoa. Só contratamos se ela puder agregar valor e se sentir parte do nosso negócio. A Kerlen, por ser advogada trabalhista, também sempre disse: “essa é a parte que temos de fazer tudo certinho” _ conta Eurico, hoje à frente de um time de sete funcionários.

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Kerlen Costa e Eurico Albrecht estão à frente do Café República | Foto Divulgação

Mas há pontos positivos também, claro. O maior deles, citado por praticamente todos os entrevistados dessa matéria, é ter ao lado pessoas com o mesmo projeto de vida. Alguém 100% comprometido com o sucesso de um negócio. Afinal de contas, o negócio é parte da família e o amor entre um e outro acaba indissociável. Natasha exemplifica como isso se dá no dia a dia:

– Claro que temos desavenças de trabalho. Mas por mais pegada que seja a discussão, nunca desligo o telefone sem dizer: “Então tá, beijo mãe. Te amo.” Tem emprego melhor?

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7 Pecados de empreender em família

Confira aqueles que, segundo o Sebrae, são os erros mais comuns de quem monta um negócio com familiares:

  • Colocar a emoção acima da razão
    Não é porque você tem um sonho de abrir um estabelecimento que o mundo vai precisar dele. Cuidado para não ouvir apenas os conselhos do parente com quem você deseja se associar. Como todo negócio, é preciso pesquisar o mercado, planejar a viabilidade e investir com cautela.
  • Se perder no tempo
    Sem organização, um negócio pode se tornar um carma que tomará conta da família do despertar ao adormecer. Serão inevitáveis conversas de trabalho em casa, mas estabeleça limites. Respeite suas folgas, mesmo quando estiverem entre sócios/familiares.
  • Confundir parentesco e competência
    Seu pai pode ser um bom chefe de família, mas isso não significa que será seu chefe na empresa. O mesmo raciocínio vale para qualquer parente. Atenção aos “anexos”: quando sua irmã pedir emprego para o namorado, por exemplo, tenha em vista o que pode acontecer com o cargo caso o relacionamento acabe.
  • Brigar como se estivesse em casa
    Você pode ter passado a vida brigando com um parente na intimidade do lar, mas será preciso deixar isso de lado em um ambiente de trabalho em respeito não só a ele, mas aos funcionários que não são obrigados a testemunhar cenas desse tipo.
  • Excluir os funcionários
    Cuidado para não tornar a empresa um jogo nós, da família, contra eles, os funcionários contratados. Sem oportunidade de crescer e sem estabelecer laços com seus superiores e com o negócio, a tendência é os funcionários deixarem a empresa.
  • Desrespeitar as finanças
    Não caia na tentação de “passar um tempo sem salário” ou então de sangrar o caixa da empresa para pagar uma despesa particular da família que nada tem a ver com o negócio. São os caminhos mais rápidos para perder de vista a saúde financeira da empreitada.
  • Abusar da informalidade nos cargos
    Mesmo entre parentes, documente quem exerce qual cargo na empresa e quais são as responsabilidades de cada um. Uma boa divisão de tarefas é o primeiro passo para evitar conflitos no ambiente de trabalho e para que parentes possam se tratar como profissionais.

Por onde começar?

Para quem deseja se aventurar no empreendedorismo, o Sebrae dispõe de uma consultoria individual de design thinking de negócios. Informe-se pelo telefone 0800 570 0800.

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