Viviane Bevilacqua: a comunidade de trocas e doação de objetos usados ganha a Europa

Mirella decidiu estudar na Alemanha. Conseguiu uma bolsa para uma boa universidade em Berlim, fez as malas e se foi, cheia de medos e esperanças. Depois de morar os primeiros tempos com amigos, achou que era hora de alugar um pequeno apartamento. Morar sozinha, ter seu próprio cantinho, sempre foi seu grande sonho.

Encontrou um quarto e sala que cabia no seu apertado orçamento. O problema é que não teria dinheiro para mobiliá-lo, comprar eletrodomésticos e, principalmente, a televisão. Ela não vivia sem a companhia da TV.

Uma amiga, então, sugeriu que ela entrasse em uma comunidade de troca e doação, tão comum na Alemanha. Mirella nem sabia o que era isso, mas topou na hora. Quando foi cadastrar, lembrou que não teria nada para trocar. Todos os seus pertences cabiam em duas malas – uma com roupas para o frio e outra para o calor.

– Por que você não dá aulas de português em troca de móveis e aparelhos domésticos? Ou aula de samba? Comida brasileira também faz sucesso por aqui – sugeriu a amiga.

Mirella fez tudo isso. Trocou aula de português por um sofá, uma mesa com duas cadeiras, uma cama de casal, e até por uma bicicleta usada. Ensinou os alemães a fazerem um bom churrasco e alguns pratos da culinária baiana, e eles lhe deram em troca uma televisão, um pouco antiga, mas que tem até controle remoto. Com as colegas de faculdade trocou aulas de samba por roupas de cama, mesa e banho, panelas, pratos… E assim foi indo, dava uma coisa, recebia outra.

Não demorou muito para o pequeno apartamento da brasileira virar referência entre os milhares de adeptos das comunidades de troca e doação, cada vez mais comuns em diversas cidades da Europa. Além de divertido e de não ter custos, trocar objetos que não se usa mais evita o desperdício e o descarte de mais lixo na natureza. A regra para fazer parte destas comunidades é que não entre dinheiro nas negociações, só trocas ou doações.

Minha amiga está encantada com o senso de comunidade que tem observado por lá. “Tudo o que não serve para um é oferecido para o outro, e assim sucessivamente. Eles não alimentam a cultura do desperdício”, conta a estudante. No Brasil existem algumas iniciativas neste sentido, mas ainda tímidas. Talvez porque nos falte maturidade para entender que o valor das coisas nem sempre deve ser medido pelo preço que pagamos por elas. Ainda estamos na fase da ostentação.

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