Ah, as botas brancas…

Eu nem dormi, com medo de perder a hora. Fiquei acompanhando o tic-tac-tic-tac do despertador. O dia mal havia clareado e eu estava pronta, finalmente estreando a roupa mais linda que já tinha usado até então: o uniforme de gala da banda do colégio! O casaco azul celeste com botões dourados presos por cordas de cetim branco, a saia branca, curta, de pregas, o chapéu alto enfeitado com uma pena e, o mais lindo de tudo: as botas brancas, até os joelhos. Igual a uma Paquita _ só que eu não sabia disso, até porque elas ainda não existiam.
Antes deste dia inesquecível, em que estreei na Banda Marcial do colégio, odiava o tal 7 de Setembro. Só porque Dom Pedro gritou “Independência ou Morte” na frente de um riacho eu tinha que acordar cedo, colocar o uniforme feio da escola e passar a amanhã inteira esperando para marchar e prestar reverência às autoridades que ficavam no palanque? Eu nem sabia quem era aquele monte de gente que se aglomerava no palquinho montado na rua principal da cidade!
Depois, em casa, ficávamos vendo os desfiles dos militares em Brasília, que duravam praticamente o dia inteiro. Eles prestavam continência ao presidente Médici e, anos mais tarde, ao Geisel. O presidente da República sim, era uma grande autoridade. Tanto que no desfile na Capital Federal tinha até tanques de guerra, cavalaria, caminhões, homens camuflados, marinheiros e _ maravilha das maravilhas _ rasantes de aviões do exército. Era um show, o tal do Dia da Independência.
Voltando, então, à estreia na banda. Me colocaram para tocar flauta doce. Não fiquei feliz, mas já era um começo. Pelo menos usaria o uniforme azul e branco e as botas. Ah, as botas… No segundo ano passei para a escaleta, uma espécie de mini piano, só que de soprar. Depois, para o surdo. Estava melhorando, pelo menos me deram um tambor.
Mas meu sonho era fazer parte da turma do tarol, onde estavam os colegas mais velhos e respeitados por todos os professores e colegas. No quarto e último ano de banda ( depois mudei de cidade) finalmente pude desfilar do jeito que sempre quis, tocando o melhor instrumento.
Aí, veio a adolescência, e desfilar no 7 de Setembro virou um grande mico, até porque comecei a entender melhor o que significava a tal ” independência do Brasil”.
Nunca mais quis saber de banda, mas as botas brancas permaneceram guardadas por um bom tempo no meu armário.
Eram a prova de que, com persistência, a gente pode conseguir tudo o que quer.
Ou quase tudo.

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