Amor e ciúme não são sinônimos

Escada rolante do shopping, hora de pouco movimento. A moça que estava atrás de mim de repente grita:

– Diz isso de novo. Diz, quero ver se você tem coragem!

Eu virei o rosto para ver o que estava acontecendo. É intuitivo. A gente olha mesmo sem querer (quem manda falar alto?). Aí, vi que ela discutia ao telefone.

– Olha, me faz um favor, não me liga mais. Se é para falar besteira prefiro que não me ligue. Vai tratar este ciúme primeiro. Teu caso é para psiquiatra. Não, eu não vou te ver hoje, não temos mais nada pra conversar. Tchau. Tchau. Tchau! Vou desligar!

A moça bufava no meu cangote. Ela estava mesmo irada. E desligou o telefone na cara do sujeito.

Ficou óbvio que ela brigava com alguém que sentia muito ciúme dela, provavelmente o namorado ou marido. Chegamos ao térreo e não a vi mais. Foi só um pequeno trecho de uma discussão que, pelo jeito, é bastante comum entre o casal.

Não lembro qual foi o poeta que disse que o ciúme é “o perfume do amor”. Isto pode ser muito bonito na hora de fazer versos poéticos ou de escrever doces romances… Mas no dia a dia, na vida pra valer, o ciúme não tem nada de bonito ou romântico. Acho, mesmo, que está muito mais ligado ao sentimento de posse do que ao amor. O ciúme escraviza, o amor liberta. O ciúme é a desconfiança, o amor, a segurança. O ciúme é a doença, o amor, a cura. Como, então, fazer dos dois uma coisa só?

– A gente se ama muito – me contou uma amiga, que estava de perna engessada depois de ser agredida violentamente pelo marido.

Indignada, sugeri que o denunciasse, antes que algo pior acontecesse. Ouvi como resposta que ele é muito ciumento – “vê coisas que não existem” – mas que é por amor que ele age assim. E o pior é que ela acredita.

Dias atrás, uma mulher matou o ex-companheiro porque não suportava vê-lo com outra. “Se ele não for meu, não será de mais ninguém”, ela declarou, pouco antes de matá-lo com dois tiros. Outra, ligou para todos os números de mulheres que estavam no celular do marido, pedindo que nunca mais entrassem em contato com ele, pois o homem era comprometido. Inclusive para a chefe dele.

Essas são histórias de amor? Não. A moça lá da escada do shopping tem toda a razão. Ciúme, quando excessivo, é doença que precisa ser tratada enquanto ainda há tempo para salvar o relacionamento. Porque ninguém aguenta uma pessoa ciumenta a vida inteira, e não dá para ficar perdendo tempo e gastando energia com acusações mútuas, cobranças bobas e fantasias.

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