Ana Cardoso: “Entendi um dos segredos da vida adulta, nem tudo gira em torno de mim”

Foto: Pexels
Foto: Pexels

Você sente um climão e põe em prática uma estratégica de paz: pisa em ovos, fica bem quietinha e pede desculpas por tudo, até por ter nascido. Entender o que está acontecendo torna-se secundário, o importante é não tornar aqueles momentos ainda piores.

Muitas vezes essas táticas são inteligentes e funcionam melhor que uma conversa. A grande questão é que passar por tudo isso em silêncio também é uma violência. Aceitar a responsabilidade sobre algo “errado” é injusto. Desculpar-se por motivos variados também faz um mal gigantesco para nossa autoestima.

Levei muitos anos para entender um dos segredos da vida adulta: nem tudo gira em torno de mim. Uma cara amarrada, uma pessoa mal-humorada e até mesmo alguém que já chega agredindo num diálogo podem não ter absolutamente nada a ver com alguma atitude minha. Assim, por que eu preciso me comportar como uma ré culpada implorando por perdão quando não fiz nada? Esta compreensão equivale a muitas horas de sono ou terapia.

Exige treino, é verdade. Descobri isso, que é libertador, de uma forma bem dolorosa. Há muitos anos retomei o contato com uma amiga da adolescência. Eu a adorava e não sei por que ficamos um longo período sem nos falar. Ela trabalhava em uma companhia aérea e me disse que precisava ir a Porto Alegre por uns dias. Combinamos um jantar e fiquei superfeliz, pois andava me sentindo sozinha.

Quando chegou a data, ela avisou que não viria mais e deu uma desculpa qualquer. Fiquei tão frustrada e brava que simplesmente não conseguia ser legal ou gentil com ninguém à minha volta. Em especial com meu marido, a pessoa mais próxima. Essa situação mudou completamente a forma como eu encarava o mau humor dele, por exemplo.

A partir dali me tornei bem mais segura em situações de estresse. Essa habilidade é muito valiosa, especialmente agora, na adolescência de minha filha mais velha. Se eu tomasse como pessoal cada cara feia ou reclamação, iria me sentir a pior mãe do mundo. E talvez até me tornar. Uma mãe covarde e submissa é um péssimo exemplo.

E como faz para discutir o motivo da cara feia? Resolver o problema sempre é a melhor solução. Quando não estamos acuados, achando que fizemos algo errado, fica bem mais fácil, inclusive. Pergunte, ofereça ajuda, ouça… e acredite: a vida é bem mais leve quando não vestimos a camiseta de umbigo do universo.

Leia mais colunas da Ana:
:: Ana Cardoso: “Que tal nós, mulheres, pararmos de nos diminuir em público?”
:: “Mães não deveriam ser descartadas em seus trabalhos após a licença-maternidade!”

Leia mais
Comente

Hot no Donna