Ana Cardoso: “No domingo, almoço é mero detalhe na rotina de uma família”

Foto: Pexels
Foto: Pexels

Minha mãe não curte almoço em sua casa. Ainda assim, todo domingo, existe uma pré-combinação atávica de que comeremos lá. Isso acontece desde que eu e meus irmãos saímos do ninho.

Durante nossa adolescência, a vontade dela de almoçar fora imperava. Argumentava que já havia cozinhado ou se preocupado com panelas a semana toda, que merecia descansar no domingo. Justo, justíssimo. Bem, é verdade que eu e meus irmãos fazíamos o almoço, mas sei bem que almoço é mero detalhe na rotina de uma família.

A base do problema começou há décadas. Quando éramos pequenos, meus pais tinham uma chácara a 15 km de nossa casa. Lá, minha mãe decretava: corram, gritem, aqui vocês podem berrar. Domingo era dia de zoeira, gritaria e comilança. Mesmo que com o tempo a gente tenha deixado de ir à chácara, e transferido os gritos para os nossos próprios quartos, um fenômeno bem estranho aconteceu: nossos filhos, tempos depois, ressuscitaram o costume dominical de gritar.

Há alguns anos, ela morava numa casa e o encontro de domingo era um caos. “Se esta é única forma de eu ver meus filhos, tudo bem, eu faço”. Falava como um condenado no corredor da morte. Dizia que o problema era meu pai: “Ele não gosta de barulho”. Foi preciso ele passar dessa para outra melhor para percebemos que era ela quem não gostava. Ou os dois, algo normal em um casamento longo. Chega uma hora que não sabemos quem é quem.

Na casa, reclamava do entra-e-sai das crianças. Na sala de estar principal, havia portas-janelas que davam para um jardim com dois cachorros histéricos, algumas árvores frutíferas, os cocôs desses cachorros e uma área cheia de grama e lama. Uma tentação quase irresistível para as crianças e para os adultos, quando o papo ficava chato.

E sempre ficava. Meu pai não admitia que ninguém discordasse dele. Como meus irmãos possuem opiniões políticas fervorosas e torcem para times de futebol distintos, o entrevero era certo. Eu também sempre fui “do contra”.

Hoje em dia, só piorou. Todo assunto é polêmico. A gente se provoca o tempo todo, como se estivéssemos eternamente na quinta série. Família é isso e, minha mãe querendo ou não, é enchendo a barriga de todo mundo de comida que a família entra em acordo de paz.

Leia mais colunas da Ana:
:: Ana Cardoso: “Protejo as minhas filhas. Quem não faria o mesmo em meu lugar?”
:: Ana Cardoso: “Que tal nós, mulheres, pararmos de nos diminuir em público?”

Leia mais
Comente

Hot no Donna