Ana Cardoso: “Perder a geladeira recém-paga é tristeza de levar os mais contidos a soluços sentidos”

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O céu estava sujo, o chão tinha ratos e os colchões, com lama e mofo, só se prestavam a pesadelos.
Naquele domingo, não choveu na Ilha da Pintada. A maior parte da população ainda estava desabrigada, recebendo doações na igreja. Desde a tempestade de quarta que a água do Guaíba só fazia subir. A ressaca da chuvarada tomara conta do pequeno vilarejo. Quem tinha pra onde ir, foi.

Então, o domingo de trégua serviu pra visitar, avaliar o estrago e planejar o retorno. Todos ainda estavam de galocha nos pés e nó na garganta. Perder a geladeira recém-paga, a cômoda que não tinha um mês, é tristeza de levar os mais contidos a soluços sentidos.

No meio de tanta imundice e lágrima, de tanto desalento e desesperança, um homem, com um estranho bigode penteado para a esquerda, estacionou seu carro velho na pracinha. Acendeu fogo na churrasqueira externa da padaria fechada e tirou do isopor dois potes plásticos retangulares. Pedaços de fita crepe diferenciavam o conteúdo dos potes: um era doce e o outro, salgado.

Aos poucos o cheiro foi tomando conta da rua. Perfume de pão, de trigo, de coisa boa. Sem falar palavra, o homem tirou os quitutes do forno improvisado e serviu a quem passava na rua. A massa era sempre a mesma, doce. Os assados – no entanto – eram recheados com salsicha ou goiabada.

Sorrisos, conversas tímidas e algum sinal de volta da alegria passearam na calçada. O calor dos pãezinhos no estômago fazia esquecer a tragédia recente e abstrair a previsão de mais chuva para os próximos dias.

Um trovão ou outro ficaram despercebidos. O vento zunia e a claridade ia sumindo naquele dia seco, sem sol, sem azul nem amarelo, todo cinza. Antes que escurecesse, o ronco do motor do velho automóvel do homem misterioso anunciou a todos que era hora de ir embora ou se refugiar.

[Essa história aconteceu de fato e quem me contou foi minha amiga Elizabete Drowler]

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