Ana Cardoso: “Precisamos falar sobre slime”

Foto: Reprodução/Instagram
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Slime (pronuncia-se islaime) é aquele brinquedo que as crianças andam fazendo com creme de barbear, água boricada, cola e bórax. Se você não sabe o que é bórax, pergunte a alguém com mais de três e menos de 20 anos.

A primeira vez em que as minhas filhas produziram seu slime foi no ano passado. O “negócio” ficou mole e achei que fosse parar por ali. Encontrei resíduos melequentos em cima do micro-ondas, na área de serviço e na toalha de rosto delas. Odiei.

Não tenho nada contra o tipo de brinquedo, que se chamava geleca antigamente. Na minha infância eram consistentes e cheirosas. Recentemente viraram amoebas, de vida útil bem limitada, perfeitas para entretenimento rápido e inimigas mortais de tapetes e sofás de veludo. Eu estava feliz com as amoebas. Eram um presente baratinho, bom para mandar em aniversário comemorado na escola.

Quem não gosta de uma amoeba geladinha? Até eu adoro. O problema foi quando a fábrica migrou para minha cozinha, com respingos pela casa toda. A atividade é socializante, é verdade. Crianças que nem brincam muito bem unem as mãos no slime.

Nos Estados Unidos, vi kits especiais com tintas e purpurina. A Anita me olhou de canto de olho “eu sei que você não vai me dar”. Bom que me conhece. Não a ponto de parar de me pedir “só uma coisinha” quando vou ao supermercado ou à farmácia. Geralmente quer creme de barbear. Ela, uma menina imberbe.

No último final de semana, conheci uma garota de Bento Gonçalves, jovem empreendedora de seis anos, que está capitalizando o vício. Vende sua produção à R$ 15 o pote. A mãe – que compartilha meu incômodo com o brinquedo pastoso – contou que, em Farroupilha, alguns ingredientes estão em falta, tamanha é a procura dos slimeiros.

Não se trata de ser estraga-prazeres de criança, mas essa brincadeira desperdiça tudo – dinheiro, produtos, o meio ambiente e tempo (limpando a sujeira depois). Tudo vai fora, boa parte suja a casa. Ao término, ninguém brinca e quando descartamos – sorrateiramente – a meleca, elas protestam. Estou tentando convencer meu povo a substituir a produção por cookies, que, ao menos, podem ser levados de lanche. “Ah, não tem graça, é muito duro”, protestou a Aurora, de seis anos. Precisamos inventar outra moda mais sustentável logo. Polenta, quem sabe?

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