Ana Cardoso: “Protejo as minhas filhas. Quem não faria o mesmo em meu lugar?”

Foto: Pexels
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Eu protejo as minhas filhas. Quem não faria o mesmo em meu lugar?

Ajudo sempre que me solicitam, principalmente a menor. Eu sei que ela vai crescer, vai dormir, tomar banho, vestir-se e fazer todo o resto sozinha. Penso que é temporário. Mas tem algo estranho. Ela tem chorado muito, anda insegura e com medo. Além de amar demais, o que eu posso estar fazendo errado?

Na semana passada, ouvi de Jane Nelsen, a grande educadora da disciplina positiva, uma fábula que me fez enxergar o óbvio. Certa vez, uma menina pequena encontrou um casulo de borboleta e percebeu que algo se mexia lá dentro. Finíssimas perninhas tentavam escapar daquele charuto de folhas secas. Observou por minutos e nada de o bicho sair.

Com a melhor das intenções, a menina decidiu ajudar o inseto. Ela já sabia que era assim que as borboletas – um dos seus animais preferidos – nasciam. Segurou o casulo com firmeza e partiu-o, sem machucar o bichinho. Para sua felicidade, a borboleta voou. Linda, com suas asas alaranjadas e pretas.
A menina estava encantada, tinha sido doula. Pensava em procurar outros casulos para ver se precisavam de sua ajuda também, quando seus planos foram interrompidos pela queda do animalzinho. A poucos metros dali, a borboleta se debateu no chão por alguns minutos e morreu. A garotinha chorou e não quis acreditar no que seus olhos viam.

Ao abreviar e facilitar a saída do casulo, a pequena fez com que a borboleta não desenvolvesse a sua musculatura. Assim, voou antes de estar pronta para isso.

É fazendo escolhas e se esforçando para concluir as tarefas sozinhas que as crianças se fortalecem. Quando elas dão conta de suas atividades, sentem-se vencedoras, fortes e corajosas. Cada mochila carregada, tênis amarrado e lição de casa que a gente faz pelas crianças é um peteleco que estamos dando no casulo delas.

A Aurora está me chamando. Para tirá-la do banho. Ela tem seis anos e pode fazer isso sozinha. Avisei que não vou. E não porque sou má. Porque protejo as minhas filhas. Quem não faria o mesmo em meu lugar?

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