Ana Cardoso: “Quando se tem filhos é quase impossível falar com outro adulto sem ser interrompida”

Foto: Pixabay
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A tarde de sábado parecia perfeita: era dia de Leia Mulheres, um encontro mensal que discute romances escritos por mulheres, mediados por estudantes de Letras. Há diversos grupos pelo país. Esta edição era sobre A Filha Perdida, da Elena Ferrante, minha escritora preferida desde o ano passado.

Coloquei na bolsa caderno, canetinhas e bolachas, pois a Aurora iria comigo. Encontros literários não são exatamente o programa preferido de crianças recém-alfabetizadas, mas o que faz uma mãe que não tem com quem deixar os filhos porém não abdica de suas paixões? Carrega junto e entretém. É o jeito.

Minha melhor amiga também ia. Separei dois livros para emprestar pra ela, entre eles Jóquei, da Matilde Campilho, a poetisa portuguesa que constrói versos de uma forma tão peculiar que – ao ler – me sinto a protagonista de todo poema, mesmo que o enredo não tenha nada a ver com a minha vida.

Fazia sol e o Leia foi realizado num palácio ricamente restaurado que, em outros tempos, foi a prefeitura de Curitiba. O Paço, hoje, é um centro cultural. A sala estava lotada, chegamos um pouco atrasadas, mas não perturbamos o grupo ao entrar. O sol passava pelos janelões iluminando o piso de mármore. O salão era impressionante, com pinturas renascentistas no teto e paredes revestidas de madeira esculpida. A atmosfera era de encantamento.

O evento estava confuso. Todo mundo queria falar de si. Ninguém analisava as técnicas da Ferrante. Parecia grupo do AA – porque EU, a MINHA experiência – nada contra, mas não era o objetivo literário. Muita fala, pouca escuta e zero construção.

De lá fomos para uma feira cultural. Eu queria conversar sobre política, literatura, fazer confidências e filosofar. Encontramos tanta gente e tanto barulho que foi impossível. Voltei pra casa órfã de conversa adulta.

Quando se tem filhos é quase impossível falar com outro adulto sem ser interrompida, sem pessoas te chamando ou espiadelas no celular. É muito raro ter aqueles papos de amiga que você sai curada e cheia de ideias novas.

Será que estes momentos existem ainda ou eles migraram das tardes de sábado para o WhatsApp nos intervalos da semana? Assim não vale, quero as conversas de volta!

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