Carpinejar: “Cartão de visita, um hábito quase em desuso hoje pela facilidade digital de anotar no celular”

Foto: Pexels
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A agenda de endereços de meu pai era um álbum de figurinhas. Só que, em vez de grudar jogadores de futebol nas páginas como eu fazia com o Campeonato Brasileiro, ele colava cartões de visitas de seus encontros. As páginas na espiral ficavam grossas e vagarosas. Ele montava o seu time adulto de amigos, a sua escalação de telefonemas e urgências.

É das estampas paternas que veio a minha adoração por cartão de visita, um hábito quase em desuso hoje pela facilidade digital de anotar referências no celular. Eu preservo o rito de guardar quando sou brindado com a pequena amostra biográfica de algum conhecido. Há um verdadeiro museu nas minhas gavetas, com personalidades já falecidas e outras que trocaram de endereço e ofício.

Como os empregos são cada vez mais temporários, não há mais a obrigatoriedade de imprimir as boas-vindas para os egressos das promoções. Para os que mantêm a tradição, o cartão revela como o profissional se vê e onde trabalha.

Se é muito colorido e com letras grandes, é de serviço popular como telentrega de restaurantes, chaveiros, chapeação, lavanderia, farmácias. Lembra ímãs de geladeira.

Se é branco e com letras pequenas, costuma ser de bancos e entidades financeiras. Reproduzem as fontes mínimas como nos contratos de empréstimo.

Dos dois lados ocupados, grandes chances de lidar com publicitários, jornalistas e relações públicas.
Quanto mais despojado, maior o cargo. Quanto mais poluído, menor a influência.

Na época em que trabalhava de office-boy, na adolescência, o meu sonho se resumia a ter um escritório com o meu nome na porta e uma caixinha de cartões de visita. Nunca aconteceu, porque virei poeta. Mas sempre imaginei a cena em que receberia clientes e, na saída, selaria o negócio com aperto de mão e o meu cartãozinho. Eu treinava a frase de efeito:

– Me telefone quando precisar, esse é o meu ramal direto.

Possuir um ramal direto significava sala própria, a realeza do mundo corporativo de antigamente, acesso exclusivo sem a necessidade de passar pelo filtro da secretária.

Com o igual rigor de um alfaiate e seus tecidos, escolheria com esmero a textura do papel, a cor e a tipologia. Depois, alisaria a superfície para me envaidecer do nome bem feito e entregaria os primeiros exemplares para a família.

Jamais pude dar meu cartão de visita para o meu pai completar a sua coleção. Mas ainda há uma esperança para ser vivida. Apesar de fora do tempo e completamente atrasado.

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