Carpinejar: Centopeia de espírito

Foto: Pexels, reprodução
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Nunca vi nenhuma mulher selecionar os seus sapatos para a campanha de agasalho (até porque elas acreditam que sapato não é agasalho). São generosas e oferecem roupas novas, recentes, que não servem mais. Realizam limpas no armário mensalmente, separam o que não agrada com bonança. Nunca deixam nada parado, sem utilidade para o próximo. Mas sapato, não.

Sapato é imortal para a mulher. Sapato pode estragar, adoecer, só que não morre. Sapato pode perder a sola, o bico, arrebentar as tiras, porém recebe a condecoração da permanência. Ou ele é levado para um sapateiro de confiança ou fica em coma numa sacolinha com sachê.

Mulher ama sapatos, de homens apenas gosta e nem todo dia.

Quando o sapato não corresponde às expectativas, ela repassa a uma amiga torcendo para a felicidade dos dois. É o máximo de caridade que alcança nesse quesito.

Jogar fora, nunca. Tampouco das caixas consegue se desfazer. Não elimina coisa alguma: conserva o ventre dos sapatos, a placenta dos sapatos, o cordão umbilical dos sapatos.

Já observei botas, tênis e calçados masculinos na rua, no lixo e no meio-fio, gestos impensáveis para o universo feminino.

Mulher é uma centopeia de espírito. Não compra quando precisa. Compra para criar necessidades. Jamais conta quantos pares possui – é um número aberto e infinito. Apesar das mil e uma noites, ela sabe de cor os que usou e onde fez a sua estreia.

Por maior que seja a coleção, acha que ainda tem pouco. Não considera o estoque suficiente. Vive uma repescagem nas lojas, caçando tipos favoritos de edições passadas. Tanto que a mulher não lamenta amores perdidos, e sim chora por não ter adquirido um par a mais daquele salto predileto.

Sapato é o xamã para as mulheres. Cura demissões, tristezas e depressões. Em casos graves, a solução é a superdose: arrebatar vários em um único dia.

Se o homem deseja terminar um relacionamento, existe uma receita ideal que poupa saliva e dispensa enfrentamentos exaustivos. Basta arremessar scarpins de sua esposa na parede. Ou despejar a gaveta de sandálias pela janela. Ou arrebentar os fechos das botas. Ou preparar macarrão com as rasteirinhas.

Não sofrerá discutindo. A porta baterá para sempre e ela, certamente, não colocará também você na campanha de agasalho.

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