Carpinejar: “Coisa de gaúcho não temer a batalha para defender a prole”

Foto: Gilmar de Souza
Foto: Gilmar de Souza

Eu tenho hábito de escrever em praças. Em Porto Alegre, me isolo no laguinho do Grêmio Náutico União, da sede Petrópolis. Enquanto os outros caminham em círculos, eu ando dentro de mim.

Mas nunca é fácil me aproximar do meu esconderijo entre as árvores. Preciso enfrentar o temperamento agressivo do quero-quero. Ele não gosta de mim. Quando eu me dirijo para a alameda das quadras, ele já se põe em arma. É um duelo de faroeste. Bufa, concentra os olhos, arruma o penacho, levanta poeira com uma de suas patas e corre em minha direção. Sou obrigado a perder o charme do passo a passo e trotear em desespero. É uma vergonha social. Nem ficar quieto traz calmaria, a tática usada com os cachorros bravos não tem serventia.

Farejando o meu medo, ele voa para cutucar as minhas costas e cabeça. É uma invasão de pássaros feita por um único pássaro. Não o compreendo: não fiz nada para que demonstre colossal ódio. Soa como implicância gratuita. Parece que a cisma é somente comigo. Não ataca mais ninguém.

Lá estou, adulto, homem barbudo, fugindo do quero-quero. Logo eu, que não temo cascavel e rato. Uma comédia para os funcionários do clube, que não escondem as risadas da perseguição matinal. Não duvido que a cena seja um dia gravada e surja nas cassetadas de Faustão.

Buscando decifrar o seu comportamento arisco, me dei conta de que ele apenas está protegendo o seu ninho, guardando a casa. Atrás de sua vigília, há dois filhotes ainda sem pêlo e bambas, perto das cercas.
Aquilo me converteu emocionalmente, desmoronou a antipatia. Ele é um exemplo de pai. Eu vi que somos iguais, ou, pelo menos, tento ser. Minha paternidade sonha em lutar pelos filhos como um quero-quero. Com a mesma garra e imposição. Com a mesma fúria e possessão.

Pode me zombar, pode me ofender, mas jamais os meus filhos. Minha vaidade se concentra toda na minha ninhada. Eu perco o discernimento. Levanto voo e afio as asas em revoada. É o ponto fraco e também o ponto forte.
Coisa de gaúcho não temer a batalha para defender a prole.

Leia mais colunas do Carpinejar:
:: Não há melhor abrigo que o abraço de mãe
:: Não posso sair de casa sem dar um beijo de despedida na minha mulher
:: Não nos declarávamos com flores e cartão, eram fitas-cassete

Leia mais
Comente

Hot no Donna