Carpinejar: Corno manso

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Contar ou não contar que o seu xará de trago e ressaca está sendo traído? – eis o maior dilema da amizade. Antecipar o pior ou deixar o pior acontecer? Melhor ser um corno pontual ou um corno retardatário? Há diferença em desvendar a infidelidade antes ou depois? A antecipação diminui o estrago? O colega que não fala que viu a traição estará quebrando o voto de lealdade?
Quantas dúvidas numa só questão.

Meu amigo telefonou desesperado:
– Você está com a sua mulher aí ao seu lado?
– Não, ela está viajando. Por quê?
– Pois é, difícil a situação, não sei se deveria contar. Mas não posso lhe ver sofrer e ser enganado. Pensei duas vezes antes de ligar…
– O que foi?
– Acabei de passar pela calçada da fama em Gramado… Ah, deixa pra lá!
– Desembucha, meu!
– Vi a tua esposa abraçada a um cara, andando abraçada a um cara, em plena luz do sol, nem aí para a multidão! Muito descaramento. Desculpa, meu velho, não queria ser o portador desta notícia.
– Não precisa se desculpar.
– Uma vaca, cara, não merece isto!
– Calma, calma, como era ele?
– Sua altura, barba cerrada, cerca de 50 anos, cabelos pretos…
– Ele está de jaqueta de couro, jeans e bota?
– Sim.
– Previsível. A minha mulher se amarra no estilo selvagem da motocicleta.
– Bah, que m.! Não fala assim que choro.
– Ele não vive rindo?
– Sim, parece muito feliz.
– Ele não está com ray-ban?
– Como que descobriu?
– Cara, imagino quem seja…
– Você já estava desconfiado?
– Faço terapia, tem coisas que não tem como suportar sozinho.
– Você aceita que ela saia com um outro?
– Meu irmão, o que posso fazer? Impossível competir com ele. É batalha perdida. Ele é o homem da vida dela, serei sempre o segundo.
– Como assim, velho? Enlouqueceu? Agora deu para ser corno manso?
– Nada a ver, é que conheço as minhas limitações!
– Não vai fazer nada? Nenhum barraco, não mandará a vadia embora?
– Ela não é vadia, é a mulher que amo.
– Recebe um par de chifres e ainda defende a traidora? Não estou lhe reconhecendo, velho, precisa ser internado. Pirou na batatinha.
– Estou conformado. Há coisas que não há como mudar na vida.
– Não acredito que tem sangue de barata.
– Faz um favor, então, para mim?
– Faço!
– Volta lá, cumprimenta a minha mulher e dá um recado para ela.
– Pode deixar comigo! Ela vai ver com quem se meteu… O que falo?
– Diz para ela aproveitar o passeio com o seu pai e avisa que venho morrendo de saudade.

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