Carpinejar: A dor nos transforma em crianças

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Ninguém sofre com maturidade. Sofrer é se tornar novamente uma criança.
É ansiar pela ajuda de um adulto mesmo sendo um adulto. Você dependerá de colo e de um apoio, de alguém para ouvir e justificar as suas dificuldades, de alguém para inspirar e motivar a ter resistência. Alguém por perto para não se ver tão desamparado pela inércia. Alguém para acender e apagar as luzes da casa. Alguém para controlar os horários dos remédios. Alguém para espiar o seu sono e levantar as cobertas caídas pelo seu movimento.

Temos que pedir socorro quando sofremos – esse é o segredo da vida. Não achar que é necessário ser forte e invencível. Resolver tudo isolado é se piorar, pois não existe como entender a gravidade do que está acontecendo e identificar os próprios avanços e recuos.

Não há independência penando, só cama e escuro. A debilidade é traiçoeira e mexe com o controle dos pensamentos. Seremos mentalmente menores de idade. O cansaço assusta e traz angústia, fecha as portas das lembranças, cria labirintos, chama o Minotauro por engano. Os medos de pequeno vêm nos assombrar, os pesadelos vêm roubar o nosso suor de madrugada.

Estar solitário sofrendo é ser um menino trancado no apartamento sem nenhum responsável, é ser uma menina aguardando na janela o retorno da família. A dor tem dentro de si a solidão da infância. É uma hipnose regressiva. Retornamos a uma fase em que não sabíamos nos proteger.

Tanto faz a consternação física ou emocional, não importa que seja uma separação ou uma dor de dente ou uma doença ou a morte de um afeto. Fica-se prostrado, saudoso dos carinhos e da vigília.

O sofrimento não tem pai nem mãe. O sofrimento é órfão. Não queira ser maior do que ele, porque vai engoli-lo usando os seus traumas e fraquezas. Telefone a um amigo ou parente e apenas diga “Não estou bem, pode me cuidar?”. A humildade é saúde.

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