Carpinejar: Fisioterapia do coração

Foto: Pexels, reprodução
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Quem sofre por amor perdido precisará encontrar a calma dentro do desespero. É quase insuportável, mas até hoje não existe outro jeito.

A tranquilidade será obtida fazendo tudo a contragosto, mas nunca deixando de fazer. Nunca deixar de pontuar, ainda que sejam empates modorrentos. Nunca deixar de comparecer na rotina. Nunca deixar de seguir o cotidiano mais banal, mesmo não querendo. Nunca deixar de conversar, apesar do silêncio longo das lembranças magoadas.

Não deve, de maneira nenhuma, fingir felicidade, apenas não seja sufocado pela imobilidade. Ocupe os seus horários para o tempo não se fixar inteiramente naquela pessoa perdida.

É não ter vontade de dormir, e resistir na cama, no escuro, para o sono finalmente aparecer com seu livro monótono.

É não ter vontade de abandonar o quarto e abrir as janelas para a claridade impor a sua realeza e realidade.

É não ter vontade de sair, detestar o sol brilhando nas árvores, e dar uma caminhada pelo bairro.

É não ter vontade de comer, enfrentar a careta e juntar força para levantar quatro garfadas grandes por refeição.

É não ter vontade de cuidar dos filhos, e entender que eles não têm nada a ver com as suas escolhas erradas e não merecem sangrar junto.

É não ter vontade de tomar banho e entrar no box por obrigação, forçado por si mesmo, carregado por si mesmo, como alguém que depende da ducha fria para acordar da bebedeira dos pensamentos.

É não ter vontade de trabalhar e desenvolver projetos dentro daquilo que é possível, perdoando a lentidão com a constância.

É não ter vontade de arrumar a casa e seguir lavando a roupa, ligando a máquina, mantendo o esforço braçal de estender as peças prendedor por prendedor. Doerá o gesto alçado ao céu, entretanto respire fundo e vá colocando bandeiras brancas em seu varal.

A aparência de ordem ajudará o caos interno a ser menos barulhento.

A dor é egoísta e deseja que suspenda a rivalidade: desmarque qualquer compromisso e pare qualquer prazer para senti-la completamente. Combata a exclusividade da angústia mantendo as suas tarefas mínimas: levantando quando não há esperança, passeando quando não há força, cantando uma canção favorita bem alto quando o choro roça a garganta e embaça os olhos.

A comida não terá gosto, a água não levará embora a sujeira por dentro, o dia não se mostrará aventureiro, nenhuma frase alheia apresentará relevância, nenhuma viagem provocará curiosidade, nenhuma visita despertará atenção, porém continue a estar presente de corpo – o espírito virá depois, o espírito volta.

Separar-se é perder a alma e prosseguir com o casco. É uma fisioterapia exaustiva e, a princípio inútil, para voltar a estar de pé. Você não consegue enxergar a recuperação porque a ruptura é recente e a vergonha é imensa. E também porque recomeçar do zero sempre será mais difícil, envolve uma ideia de retrocesso e derrota.

Mas a contrariedade cura pois lhe conservará ativo.

Um passinho de cada vez, não mais que isso, não menos que isso. Seja um passarinho caminhando sem pressa de voar e, assim, fortalecerá os pés das palavras para readquirir, lá adiante, o amor pela vida.

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