Carpinejar: “Há uma ditadura da desinibição. Como se a timidez fosse doença”

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Nem todo mundo precisa ser popular, comunicativo, expansivo. Nem todo mundo precisa fazer curso de oratória, perder a vergonha. Nem todo mundo precisa se soltar e se inscrever em curso de teatro. Nem todo mundo precisa ser político e megalomaníaco. Nem todo mundo é vaidoso e exibicionista. Nem todo mundo quer selfie e vitrine.

Há uma ditadura da desinibição. Como se a timidez fosse doença. Como se a liderança fosse exclusiva do púlpito e do microfone.

Existe um patrulhamento aos alunos retraídos, aos empregados contidos, impondo a obrigação de se expor. Se a pessoa não for sociável, ela tem problemas de convivência.

Recomenda-se correção de postura, terapia, acampamentos, excursões, apresentações forçadas em público.

Vive-se um The Voice permanente nas escolas e empresas. Um karaokê do estardalhaço. Tem que gritar de qualquer jeito, tem que colocar para fora de qualquer jeito, tem que dançar de qualquer jeito, tem que enfrentar os medos de qualquer jeito.

Terminam malvistos os sussurros, os timbres baixos, o rubor, a educação. Incentiva-se os bagunceiros e os midiáticos, os palhaços e os mitômanos. Se alguém pretende defender a privacidade é confundido como arrogante. Se alguém pensa duas vezes antes de se expressar, é tachado de covarde.

Desde quando inteligência é extroversão?

Não são admitidos o nervosismo, a solidão, a reserva. Não são respeitados os sonhadores, os românticos, os meninos e meninas de poucas palavras e muitas ações. Não são elogiados os perfis privados do Instagram.

Predomina uma histeria para aparecer e garantir oportunidade. Quem não vende o seu talento não merece nenhuma chance. Tudo tem que virar interação e mercadoria com etiqueta e QR Code.

Há os que se bronzeiam ao sol e os que se resguardam na sombra. Há os que se divertem na frente dos outros e os que se fortalecem na solidão do papel. Há os que falam e os que escrevem. Há os cineastas e os atores. Há os que preferem a ribalta e os que se sobressaem nos bastidores.

É fundamental proteger a diversidade de temperamentos. Não assassinar biotipos, não censurar os introvertidos, não corromper o silêncio. Cada um pode escolher o seu jeito de ser feliz. Amar quietinho é também amar. Trabalhar quietinho é também trabalhar. Estudar quietinho é também estudar. Não é menos. Não é uma incompetência. Não é um excrescência social.

O pudor deveria ser mais valorizado. É sinal de decência.

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