Carpinejar: Meu amigo de sunga

É um choque testemunhar o seu grande amigo na praia. Agora posso dizer que ele é um grande amigo porque eu o vi de sunga. Dividimos o vexame do despojamento do litoral. Antes da praia, a amizade estava vestida para a missa. Depois da praia, duvido que existam maiores constrangimentos. É partilhar o confessionário honesto da idade e da condição física. Os pecados se despedem da carne.

Eu mal me concentrava na conversa. Só o olhava de cima a baixo, da barba ruiva aos chinelos havaianas:
– Será ele mesmo? Eu o conhecia de óculos, jeans e camisa social, com a vestimenta sóbria de terapeuta. Sempre comedido, sempre respeitoso. Já gargalhamos em bares e restaurantes, na casa de um e de outro, só que nunca assim, com os cotovelos próximos no Juízo Final.

De repente, lá estava Mário Corso rindo e dividindo uma caipirinha com pedaço de pano nas partes íntimas, esgueirado numa cadeira no sol. Se ele estivesse fantasiado não seria igualmente extravagante. Nenhuma festa causaria tamanho transtorno. Nem se surgisse de Thor com um martelo de borracha.
Analisava a sua barriguinha tímida, a sua brancura, a sua mirada infinita ao oceano, as suas pausas de espuma, a forma pastosa em que se colocou protetor solar.

– Será ele mesmo? Respondia apenas “aham” para me manter vivo nas palavras e distrair o foco de minha distração. Nenhuma mulher de biquíni chamaria mais atenção do que o meu grande amigo de sunga. Tinha que adaptar a minha admiração. Alojar aquela imagem no álbum de família. Suportar a verdade exclusiva de um banho de mar. Mas podia ser pior. A gente ainda não se encontrou de pijama.

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