Carpinejar: “Meu amigo Zé queria vender o seu Santana, 1987”

Foto: Divulgação
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Meu amigo Zé queria vender o seu Santana branco, 1987. Até que recebeu uma ótima proposta de compra. O valor superava as suas expectativas. Era alvo da obsessão de um colecionador, que não mediria esforços para concretizar o acerto. Bastava somente acenar afirmativamente a cabeça e selar o interesse com o cumprimento.

Só que Zé lembrou que era o carro dado pelo seu pai falecido, também Zé.
Lembrou que eles brincavam que era o veículo dos Zé.
Lembrou que não tinha outra herança paterna tão significativa.
Lembrou que esse caixão não deixaria a terra levar.
Lembrou que ele conhecia o mal-estar das estradas pelo ronco do motor.
Lembrou que cursou uma universidade inteira indo e voltando naquela carroceria.
Lembrou que assimilou ali macetes do volante, como dirigir na banguela.
Lembrou que começou e desfez namoros em seu banco cinza.
Lembrou da quantidade de tempestades e geadas que atravessaram juntos.
Lembrou que já foi ao Rio de Janeiro com amigos, em madrugadas viradas.
Lembrou que é o único lugar de sua vida que ainda tem toca-fitas.
Lembrou que o vidro não é automático e o quanto gostava de certas operações manuais, como girar a manivela para receber o vento na cara.
Lembrou que apenas não desaprendeu a rezar porque sempre tem a sua frente a lomba da Lucas de Oliveira.

Enquanto recordava das três décadas de história, mudou o seu semblante na negociação, de esperançoso a melancólico, e passou a boicotar a própria posse:
– Serei sincero: o câmbio não funciona, a seta tranca, faz tempo que não passa por revisão, vive me deixando na mão, engole gasolina que nem doido…

Foram tamanhas as críticas desferidas que o interessado recolheu a oferta silenciosamente e agradeceu a honestidade. Zé nunca venderá o Santana branco, 1987. Não é pelo preço, mas pelo apreço.

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