Carpinejar: “Na identidade, ninguém é bonito como no Instagram”

Foto: Pexels
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Em todas as vezes em que eu fui tirar a foto para um documento, o mundo desabou, o carro estragou, passei a noite em claro.

É uma sina. No passaporte, a minha cara é de traficante. Na identidade, a minha lata é de terrorista. Nunca dou sorte. Ainda mais agora que não há mais como levar fotinho 3×4 e encomendar um layout mais simpático. As fotografias são feitas nas repartições na hora e baixadas imediatamente sem compaixão e repescagem.

Perdemos o romantismo do banquinho e do fundo branco dos estúdios. Minhas melhores fotinhos são da infância, quando os pais me levavam, todo arrumado, para os cliques do lambe-lambe da avenida Protásio Alves.

Mobilizei esforços para caprichar na carteira de motorista. Mas, para variar, a escrita torta do destino usou novamente o seu garrancho comigo. Não dormi preso no banheiro, com dores de barriga, depois de um churrasco exagerado de madrugada com amigos do futebol.

Juro que a minha feição é de febre amarela, cadavérica, olhos sugados pelas olheiras, pele de iogurte vencido. É retrato adequado para aposentadoria por invalidez na Previdência, não para mostrar que sou capaz ao volante. Talvez, numa blitz, os guardas tenham pena de mim e chamem o Samu.

Serão cinco anos tendo que lidar com essa imagem fúnebre e hospitalar.O triste de renovar documentos é que eles duram muito tempo e não existe como intervir com filtros e Photoshop.

Pode reparar, na identidade, ninguém é bonito como no Instagram. Acabei por produzir provas contra mim.

Quando estava cadastrando as minhas digitais e posto no paredão da câmera, na cabine ao meu lado uma mulher pediu para ver como ficou a sua foto. Nem esperou o atendente responder, virou o monitor do computador para si e gritou:

– Nunca será! Estou uma bruxa. Só ex vai gostar disso.

Pegou a sua bolsa e explicou para o funcionário:

– Vou para a casa me maquiar e já volto.

E saiu para colorir o livro dos seus traços. Pena que não partilhei da mesma coragem.

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