Carpinejar: “O buraco da fechadura não tem sentido para o meu filho”

Foto: Pexels
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Não tem sentido para o meu filho o buraco da fechadura. Mas, antes do olho mágico e das portarias eletrônicas, era a nossa fresta para ver se alguém estava em casa.

Foram incontáveis as vezes que, ao visitar um colega de aula, diante do silêncio da campainha e para não perder a viagem, eu me agachei na porta para vislumbrar se havia alguma movimentação. Tapava o olho esquerdo e procurava calibrar o direito. O mundo proibido tinha a forma de uma fechadura.

Tanto que um dos nosso lazeres consistia em ir de porta em porta na vizinhança para radiografar a rotina dos vizinhos. Festejávamos quando a chave não estava na porta e um de nós acabava escolhido para a missão, o mais corajoso, de narrar o que via para os demais.

Desse jeito eu testemunhei a primeira mulher nua de minha vida. Era uma solteira trocando de roupa no sofá, numa pequena residência de madeira da Rua Bagé. Foi um encantamento. A turma pedia para que eu descrevesse o que estava observando. E, tomado pela beleza, não conseguia acertar a língua. Engasguei. Extraviei o prumo dos pensamentos, como uma pandorga que se enrola nos fios de luz. Jamais tinha visto algo tão impactante.

As sombras cobriam a pele como uma segunda vestimenta. Ela se movimentava com a lentidão de um sonho, com inexplicável preguiça, com fascínio. Os seios, a cintura larga e os braços magros compunham uma coreografia insondável para a minha experiência de menino. Não sabia mesmo o que dizer, as palavras para aquele maravilhamento sensual não existiam para mim. Não conhecia a gramática do amor. Apenas entendia que era belo, muito belo, e só.

– Conta o que está acontecendo? – eles gritavam. Menti que não havia nada, ninguém ali. E seguimos embora.

Não queria que nenhum deles profanasse o momento com sacanagens e desaforos, maldades que tampouco compreendia, mas não me cheiravam bem.

Eu devo ter sentido os primeiros sinais de um arrebatamento romântico. Quando gostamos de um desejo, não queremos dividir, não queremos reduzir a pessoa em caricatura, não aceitamos que falem mal. Há um respeito pelo mistério, há uma proteção pelo segredo, há uma exclusividade no batimento cardíaco. Fechei aquela porta para sempre com os meus olhos.

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