Carpinejar: O Carnaval é uma síntese das nossas contradições

Foto: Omar Freitas
Foto: Omar Freitas

O Carnaval é uma síntese das nossas contradições. Há a obrigação de ser feliz que deixará muita gente triste. Há o escândalo da euforia que pode gerar a ressaca da melancolia. Há a cidade emprestada aos turistas, as ruas interditadas, os caminhos sem volta. Não tem como seguir com a rotina, e ser normal. As farmácias viram supermercados, os supermercados viram farmácias.

Nem adianta procurar a posteridade – ela morre durante o período. É o efêmero que manda, é o provisório que dá as ordens.

Não tente em vão se casar. Os amores foliões desaparecerão nos dias úteis. É preciso entender que as pessoas se apaixonam pelo anonimato, não desejam relações sérias. As paixões também são fantasias.
Não vigorará herança de qualquer entrega, alguma recompensa, prêmio ao final. O Facebook se transformará num cemitério de acenos. Seu WhatsApp terá números sem nomes. Não receberá nenhum e-mail na semana, a não ser spams.

Existe uma descontinuidade entre o que acontece antes e depois. Pois a seriedade morre. Há uma única forma de comunicação: o riso, a gargalhada, o grito – pensar e conversar se convertem em operações incomunicáveis.

Ou você se mistura ao esquecimento dos refrões, ao abre-alas dos apressados, ou se reduzirá a um chato da realidade. Ou você deixa as contas de lado que vencerão dia 14 e gasta sem piedade do futuro ou cada lata de cerveja doerá para descer pela garganta. Ninguém economiza no carnaval, ninguém se economiza no carnaval, é um atentado à solidão e ao bom senso. Os adoradores de música clássica dançarão funk, os funkeiros dançarão marchinhas.

Você faz amigos e não irá mais reconhecê-los. Você empreende loucuras e não saberá como contar o seu cotidiano em ordem cronológica. Você é capaz de ser um pato no chafariz da praça, ou um Pokémon na janela de um museu.

Conhecerá a igualdade do remorso, a democracia da irreverência. Liberará as suas censuras e ficará envergonhado dos excessos. Se uma foto vazar, perderá o emprego. Rezará para que não tenha sido filmado e identificado. Mas, ao mesmo tempo, gostaria de ser lembrado pelos disfarces.
Nada acontece conforme deseja. O bloco certo que será um sucesso será um fracasso. O que acha que será um fracasso será um sucesso.

Testará a sua capacidade de improviso: levará horas para se arrumar e de repente choverá e todos se assemelharão molhados. Perderá a chance de chamar atenção. A maquiagem terminará borrada e a produção desmanchada pelo barro. Restará reencontrar no fundo de si o contentamento de infância do banho de chuva e não se incomodar com a possibilidade de gripe e resfriado do mundo adulto.
Buscará a multidão para não se sentir sozinho, mas reclamará quando não conseguir nem espaço para sambar.

Tudo o que é planejado não perdura, o acaso se arma de serpentina, confetes e espuma para pichar a sua fachada controlada.

O Carnaval é para os fortes. Uma amostra de como a vida não nos pertence.

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