Carpinejar: “O meu melhor amigo está namorando, o que faço?”

Foto: Pexels
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O grande desafio da amizade é ver o parceiro feliz e não se sentir deslocado. É quando o outro está amando e você não se vitimiza, não identifica o namoro alheio como uma ameaça à rotina ou como um roubo da cumplicidade.

Aguenta o ciúme e a inveja e não cobra absolutamente nada. Respeita o sumiço, o sequestro da paixão, o cativeiro da cama. Pois todo mundo desaparece no início de um envolvimento. Entende o momento diferente do seu e que o amigo experimenta uma nova relação que exige exclusividade para dar certo.

Se antes vocês se telefonavam todo o dia, o amigo apaixonado ligará uma vez por semana. Se antes vocês batiam ponto num boteco, o amigo apaixonado deixará de beber. Se antes vocês se aventuravam juntos nas festas, o amigo apaixonado terá agora novos programas a dois. Se antes vocês não se largavam no WhatsApp, o amigo apaixonado estará off-line a maior parte das horas.

A mudança de hábitos não significa desprestígio, a transformação da rotina não é desimportância. Não estar mais sempre junto não desfaz a cola da intimidade. É um intervalo necessário para o autoconhecimento. Há pessoas que se acham abandonadas, corneadas, excluídas e desenvolvem uma saudade histérica, possessiva, que pode levar a falar mal de quem não merece e destruir um companheirismo de muito tempo.

Não adianta realizar uma caça às bruxas e vodu. Não adianta fazer torcida para o término e avisar dos perigos. Não adianta vestir a roupagem pessimista e agourenta de urubu.

Talvez o mais complicado para os laços seja não falar do seu próprio sofrimento quando o amigo engata um romance, e somente partilhar a felicidade das confidências. E não jogar na cara a repentina conversão de objetivos, de um modo que soe como denúncia de uma hipocrisia. Natural que o amigo que festejava a solteirice agora pense em casar, previsível que o amigo que endeusava a independência agora queira filhos.

Apoiar as decisões durante a ausência é maturidade, gesto de nobreza reservado aos longevos álibis de nossa existência.

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