Carpinejar: Os espinhos das rosas

Foto: Pexels, Divulgação
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O que estraga o amor são os intermediários. Nem é o próprio casal, é  o que contamos para os outros e como contamos para os outros.

Assimilei o golpe na marra, na adolescência. A primeira vez em que mandei flores para uma candidata a minha paixão não foi uma experiência edificante. A relação estava indo muito bem: já andávamos de mãos dadas, já ensaiávamos a formalização do namoro, já nos procurávamos mais do que o normal. Eu decidi dar aquele empurrão que faltava jurando que era abraço. Liguei para uma floricultura e encomendei uma dúzia de rosas vermelhas para entrega no trabalho dela, onde atuava como estagiária de jornalismo. Não pedi meia dúzia de rosas, quem pede a metade demonstra avareza. Achei que fazia bonito com a inteireza de um buquê. Flor, para impressionar, deve ser carregada com os dois braços. Com uma mão livre, corre-se o risco de um tapa.

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Eu senti um medinho de remeter para o escritório e expor a nova relação a inveja e curiosidade dos colegas dela, mas, entre mortos e feridos, julguei que traria mais feridos do que mortos e ela iria, ao final, se envaidecer do meu gesto de arrebatamento e entrega.

Ditei o cartão para o atendente. Ele somente elogiava a minha mensagem. Ou seria elojiava? Eu não tinha noção do que aconteceria.

Mandei o buquê para ser entregue de manhã e passei o dia olhando o visor de meu telefone. E nada de ganhar uma resposta de agradecimento. Nenhum sinal otimista do lado de lá. Conferi com a floricultura se havia sido entregue certinho. E a dona atestou que a quase namorada havia recebido, ela mesmo, não houve adiamento do meu sentimento em espécie.

Quando dormia, de madrugada, engolido pela ansiedade, acordo sobressaltado com o apito do SMS:

“Não precisava se /encomodar/, não podemos seguir nos encontrando. Não suporto analfabetos”.

Não entendi. Telefonei desesperado umas 12 vezes, imitando os espinhos de cada rosa, e o número dela estava desligado. Revisei o bilhete em pensamento como um revisor de testamento e não detectava material para a incompreensão e duplicidade.

Foi quando abri o Orkut dela e vi o cartão do jardim escaneado, com mais de 800 comentários (a maldade imperava nas centenas de registros):

“Estou ancioso para lhe ver a noite, porque você dá ritimo para a minha vida. Beijo”

Ancioso? Ritimo? O funcionário da floricultura ferrou com o meu português.

Não consegui me explicar. O encanto desapareceu por parte dela. Jamais confiei novamente o que sinto para um estranho

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