Carpinejar: A primeira vez

Foto: Pexels, reprodução
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A primeira vez nunca termina em nossa vida. Sempre haverá alguma primeira vez mesmo na velhice.

A primeira vez é de onde vem a coragem para todas as outras vezes.

É enfrentar aquilo que não conhecemos.

É não deixar de ir e de fazer, apesar dos calafrios e da vergonha.

É entrar no primeiro dia de aula numa escola nova com uma turma de 30 alunos lhe encarando e querendo descobrir quem você é.

É engolir a saliva e atravessar a longa fileira de classes até sentar em uma cadeira que será a definitiva naquele ano.

É fingir atenção com o batimento acelerado e responder “presente” com a menção de seu nome e ouvir os pescoços se virando em sua direção.

Ou é sair com alguém de quem se gosta, esperando qual a palavra que será interrompida para dar o beijo (será agora que ela está falando do futuro ou agora que está falando de suas preferências ou agora que me elogia?).

É experimentar o receio de perder o momento certo e depois se arrepender do que não aconteceu e sofrer com o que imaginou de bom.

E depois do beijo, como será a primeira noite, o dia seguinte?

Será que dar as mãos na rua já significa namoro e pertencimento?

E o tremor de se aproximar para ser negado?

E o temor de se abrir para ser rejeitado?

Olha como é espinhosa a rosa dos lábios: temos que conquistar a aceitação pela nossa aparência e depois a aceitação por aquilo que somos dentro.

Ou como é um tremendo nervosismo começar num emprego, não assimilar como funciona o sistema operacional da empresa e ter que escolher alguém para perguntar e pedir ajuda.

Você disse que entendia e não entende coisa alguma.

Viu que não entende.

E bate o desespero de atrapalhar os colegas concentrados e interromper alguém com o seu analfabetismo funcional.

E cresce o receio de ser uma farsa e ser desmascarado.

A vontade é correr para fora dali sem explicação, mas você fica, estranhamente fica e se acostuma com o suor frio e a gagueira da estreia.

Sempre onde o medo reina, a coragem vem e vence.

Ou a primeira vez em que dirigimos um carro: a rua encurta e os veículos parados parecem que vão se mexer a qualquer momento.

Ou a primeira vez em que dançamos como um afogado na pista e somos obrigados a aguentar a chacota enquanto tentamos encontrar o ritmo da música.

Ou a primeira vez em que nadamos e imitamos um cachorro atravessando as águas.

Ou a primeira vez em que cozinhamos e a receita não diz exatamente o momento de misturar os ingredientes.

Ou quando mudamos de país, e o idioma em comum é o choro.

Ou quando enxergamos os pais adoecendo e não existe como parar o tempo, resta esperar que o abraço seja mais longo para retardar a partida.

Ou naquele instante em que realizamos um sonho adiado, um curso na faculdade ou um salto de paraquedas, e desafiamos a naturalidade dos jovens.

A primeira vez não tem fim.

Minutos antes de morrer podemos absorver algo inédito, pois a sabedoria é infinita.

Há quem, por exemplo, somente aprende a perdoar nos instantes derradeiros de seu fôlego e consegue salvar, num único gesto, a sua vida e da outra pessoa em dívida.

Confira outras colunas do Carpinejar:
:: Educado sempre
:: Incompetência telefônica
:: Irmãozinho chegando

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