Carpinejar: Retrato de Dorian Gray na web

Foto: divulgação
Foto: divulgação

É pelas fotos das redes sociais que as pessoas revelam o seu problema com a idade. Nem é questão de filtro e da tradicional maquiagem digital.

Eu me refiro a imagens que postamos em nossas identidades no Facebook, no telefone, no WhatsApp, no Instagram. Quando deixamos de lado a nossa atualidade para fazer estranha repescagem e publicar fotos de cinco anos atrás. É um sinal claro e evidente de que o medo de envelhecer chegou pulando com os dois pés cantando Ilariê.

Quem usa fotos antigas já está sofrendo da síndrome de se esconder do tempo.

Verifica-se alguém feliz, pena que absolutamente desatualizado, reinando em cena ancestral e paradisíaca em algum lugar do passado. Quem é careca ainda tem cabelo. Quem é gordo ainda tem cintura. Quem é enrugado ainda não virou ceia de natal com os pés de galinha.

Luta-se para manter a aparência de antes, numa mentirinha visual, numa pequena e venial desonestidade. Tenta-se enganar a passagem do calendário congelando os rostos.

O perfil não traz a melhor fotografia, e sim a que expressa e encarna a juventude de outrora.

É o que mais acontece na web: a falta de aceitação da mortalidade e dos efeitos da vida.

Porém, percebo casos mais graves que esse: de quem coloca foto de um detalhe (o lado mais fotogênico da boca, uma porção bonita do lóbulo e um recorte do olhar) e, ainda, aquele que não acha mais nada que preste em seu álbum e puxa um bonequinho da infância. Numa hierarquia possível, são os que menos admitem o seu atual estágio do corpo.

O que não encontro mesmo nas páginas dos quarentões, cinquentões e sexagenários é foto da adolescência. Não há fotos da adolescência. O que prova que a adolescência não existe. A adolescência é um purgatório da personalidade. Eu, por exemplo, devo ter queimado os registros do meu penteado Chitãozinho e Xororó, dos brincos de cruz de Nina Hagen, da barba de espinhas, dos coletes new wave. Ninguém é perfeito, mas a adolescência exagera nos defeitos.

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