Carpinejar: Sesta perfeita

Foto: Pexels, Divulgação
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Nada substitui o sono na própria cama. Não tem hotel cinco estrelas que rivalize. Não tem pousada de madeira na Serra que traga o mesmo conforto.

Mas sesta, no início da tarde, não combina com o quarto. Traz culpa e pesadelo, ansiedade e alarme de extravio.

Sesta não se faz com o consentimento. É um dos raros prazeres roubados da vida.

Para a cabeça funcionar e jamais ficar perdida depois, sesta depende de um lugar provisório, como se fôssemos adormecer por descuido, ouvindo – até desaparecer progressivamente – os barulhos da casa.

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Sesta perfeita é no sofá, sem travesseiro e lençol, sem ninho e fortaleza, com as almofadas grandes reviradas, exposto ao trânsito da família.

Ela somente prospera contra o relógio, não a favor do tempo.

A imperfeição é parte do plano do cochilo. A graça vem em vencer a resistência. Não pode haver facilidades, como o escuro, o blecaute das janelas, a quietude, a porta fechada.

Deve-se ceder à preguiça integral: deitar logo após comer, não escovar os dentes, não realizar nenhum esforço de concentração, não mexer no celular, não convocar os neurônios a movimentos bruscos.

Sesta é queda livre. É fingir que vai ver um pouquinho de televisão e se esparramar de repente no vazio terapêutico da sala.

A mais saborosa sesta é aquela que é interrompida, mas jamais nos entregamos. Abrimos um canto do olho e não desistimos dos sonhos.

Sono fora de hora renuncia pré-requisitos. Que venha de qualquer jeito, longe do luxo. Que seja por rápidos 30 minutos, que seja uma vingança por despertar cedo no dia, que seja amontoado, dobrado e amassado, que seja deitado de roupa e cinto, com os sapatos de cabeça para baixo no chão, também roncando.

Sesta planejada somente nos piora. Sesta que nos melhora é caprichoso acidente da rotina.

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