Carpinejar: Sou capaz de me desfazer de qualquer roupa velha, menos a camiseta do meu time

Foto: Pexels
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Sou capaz de me desfazer de qualquer roupa, qualquer peça. Não serei materialista com calças, camisas, ternos. Estragou, rasgou, gastou, dispenso sem piedade nem compaixão. Só não consigo jogar fora a camiseta de futebol, a camiseta de meu time. Nenhum homem é frio e indiferente o suficiente.

Ainda mais quando é o manto da sorte, das batalhas e guerras emocionais no estádio.
Tenho uma camiseta colorada da minha adolescência, de lã, quente. É a minha preferida nos dias de jogo.

A asa já não se desgruda com a lavagem, mesmo que despeje um litrão de amaciante em cima. Desodorante não faz mais cócegas. É um acúmulo de décadas de suor frio. Eu a coloco e sinto o cheiro de CC vencido da época de Escurinho e Falcão. Bloqueio instintivamente as narinas.

Já recebeu cerveja e mijo nas arquibancadas, os fios foram puxados nas axilas, a gola branca é mostarda, os meus filhos, quando eram pequenos, regurgitaram em seus ombros, mas não há como descartá-la.
Nenhuma sujeira, mancha, furo me convence de seu fim.

Ela é baby-look em mim, engordei com o tempo, o umbigo está à mostra, sou um Hulk prestes a explodir a cada gol, porém não há terapia e templo budista que me leve ao desapego.
Livrar-se dela contraria a minha superstição, a crença absurda de que interfiro no destino de meu time.
Compreendo a desolação de minha esposa, que me deu de presente a nova camiseta do Inter, mas é inútil explicar o que sinto para ela.

Jurava que tinha superado a minha birra, destruído os trapos mendigos e que eu abandonaria o fetiche malcheiroso.
Quando me viu saindo de casa para o Beira-Rio, uniformizado com a indumentária antiga, gritou pela janela do nosso edifício:
– Vou começar a torcer contra!
Virei o rosto, a sua secação não me atingiria, estava protegido pela imorredoura simpatia.

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