Celia Ribeiro: a inspiradora Alexandra Loras, consulesa da França em SP

Ela é linda e cativante. Dona de um sorriso franco que elimina a natural reserva de um primeiro encontro, Alexandra Loras, consulesa da França em São Paulo, me recebe num apartamento de cobertura nos altos da Bela Vista de vestido estampado bem acima do joelho e delicados brincos com o pendente de uma borboleta de ouro branco. Sua presença em Porto Alegre foi motivada pela palestra que fez para os ex-camelôs saídos das ruas do centro da cidade para desenvolverem seu comércio autônomo no Pop Center (também conhecido como Camelódromo), dirigido por Elaine Debone, sua anfitriã.

Filha de mãe pertencente a uma rica e tradicional família de industriais franceses, Alexandra é a única negra entre os cinco irmãos, frutos dos quatro casamentos da mãe. Seu pai era um africano, da República de Gâmbia, que acabou se tornando morador de rua em Paris devido à dependência das drogas e do álcool. Ele morreu quatro anos depois da última vez que Alexandra falou com ele, quando ela tinha apenas 11 anos de idade.

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Alexandra sempre viveu com a mãe somente entre brancos, inclusive no colégio parisiense de freiras onde estudou – e onde veio a sofrer com as primeiras manifestações de preconceito racial dirigidas a si. Já adulta, decidiu sair em busca de suas origens e passou um mês na aldeia onde o pai nasceu. Na África, foi hóspede da própria avó, que sempre desejara conhecer a neta francesa e veio a falecer logo depois do encontro. Segundo uma das tias disse a Alexandra na ocasião: “Ela só estava esperando para conhecer você”.

A extraordinária história de 37 anos de vida fez de Alexandra Loras um ser humano que busca conhecer a si mesmo e parte sem medo rumo a mudanças radicais, vivendo sonhos que por muitas vezes podem parecer impossíveis de serem realizados. Em vez de reclamar por não haver negros na televisão francesa, por exemplo, ela deu o primeiro passo para tornar-se uma ao acompanhar uma amiga a programa de TV a cabo na França. Convidaram-na para cantar – e ela se arriscou. Logo depois, perguntaram se gostaria de participar de uma entrevista com a Miss França de então. As interferências e críticas feitas por ela ao esquema imposto pela organização do concurso de miss impressionaram o produtor, que perguntou se a desembaraçada Alexandra não gostaria de apresentar um programa semanal sobre crítica literária na TV. Não seria remunerada, mas mesmo assim ela aceitou a proposta para estabelecer-se em frente às câmeras.

O encontro com o marido

Autodidata, ao perceber a chance de ser apresentadora de jornal televisivo voltou a estudar e foi fazer mestrado em Ciência Política, em Paris. Sempre absorvendo leituras e ensinamentos, em nossa conversa Alexandra fez uma análise psicológica e social dos pais e dos irmãos, envolvendo sua família materna. Mas ela não faz psicanálise, nem gosta de Freud: diz que a pessoa que lhe mostrou seu caminho na vida, durante o período em que viveu nos Estados Unidos, foi um coach – o mesmo que orientava Madonna e George Bush.

Mas percebe-se que ela tem necessidade de falar de sua história de vida. Quando relembra episódios da infância tumultuada, o marido pergunta, bem-humorado:

– Quem sabe cantas uma das canções das crianças da Unicef?

O encontro com Damien Loras, 44 anos, foi num canal de televisão em Paris, quando Alexandra ancorava um programa político. Ela o define como um aristocrata, amigo e consultor do ex-presidente Nicolas Sarkozy, por quem Alexandra nutre grande admiração, mesmo sendo ele de uma ideologia de direita. Damien e Alexandra tem um filho de dois anos, Rafael, afilhado da irmã de Carla Bruni.

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Educação brasileira

A consulesa fala bem português: socorre-se de certas palavras em francês, mas não comete erros gramaticais, ainda que Alexandra já tivesse estado diversas vezes no Brasil em visita ao irmão mais velho, aqui estabelecido e casado com uma brasileira. Quando chegou ao Brasil, há dois anos, ela achava os brasileiros demasiado permissivos com suas crianças em comparação com os franceses, sempre preocupados com a disciplina e o distanciamento respeitoso dos filhos. Ao perceber o olhar terno das pessoas para o bebê que carregava no sling, junto do corpo, Alexandra foi se aproximando mais do filho. Hoje, admira este nosso modo de criação que, na sua opinião, desenvolve melhor as potencialidades de um ser humano.

Preconceito racial

Ainda há muito preconceito racial no Brasil – e ela própria já o tem experimentado. Um dia, em São Paulo, ao chegar a um clube acompanhando o filho, loiro como o pai, uma recepcionista perguntou-lhe se era a babá do menino (mesmo Alexandra vestindo um Emilio Pucci). Porém, quando um negro desfruta de posição social e poder tudo muda: as socialites de São Paulo ficam mais simpáticas ao saber que Alexandra é a consulesa da França. E ela observa que só agora está vendo muitos atores negros nas telenovelas brasileiras, ainda que a maioria represente personagens de posições inferiores na vida ou mulheres bonitas que são amantes, e não esposas.

A arte de receber

Alexandra Loras preside o grupo de 88 consulesas que residem em São Paulo. Melhor deixá-la contar na primeira pessoa sua experiência de savoir faire, como os franceses definem a etiqueta num sentido global:

– A residência consular no Jardim Europa, projetada por Sergio Bernardes, tem dois mil metros quadrados. Ali recebemos frequentemente autoridades francesas e brasileiras, além de muitos amigos. A chegada de um convidado deve ser uma experiência única, pois não é um aperto de mãos em apenas três segundos que vai deixá-lo à vontade. Não posso dar atenção aos convidados todo o tempo, por isso olho nos olhos ao chegarem para perceberem meu prazer em recebê-los (e ela fez o mesmo quando cheguei à casa em que estava hospedada). Cedo comecei a me preparar para exercer a arte de receber, começando pelos livros da baronesa Nadine de Rothschild, que possui uma academia em Genebra onde dá aulas de boas maneiras. Aos 17 anos, fui estudar na Alemanha e trabalhei como babá na mansão de uma condessa, com quem aprendi coisas que até hoje sigo fazendo na minha casa. Uma delas é não misturar nos arranjos mais de duas cores de flor, de preferência o verde com o branco; outra é considerar a chama das velas estímulo para uma festa ter alma. O que sempre dou aos garçons que vão servir na minha casa é o briefing da festa, recomendando que trabalhem sorridentes e expliquem aos convidados o alimento que estão oferecendo. Se nos cardápios dos meus jantares incluo receitas africanas? Não tenho porquê fazê-lo, pois nossa residência é francesa.

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Moda, estilo e cabelos

A consulesa francesa, coerente com o chic de suas compatriotas, é moderna e aprecia o estilo “menos é mais” (less is more) de Kate Middleton. Valoriza, no entanto, o bem-vestir clássico e sempre atual de Jackie Kennedy, passeando por grifes francesas como Cardin e Chanel. Em São Paulo, Alexandra veste trajes da etiqueta Gloria Coelho e do filho da estilista, Pedro Lourenço, “uma moda moderna e de corte impecável”.

E se recebesse convite para desfilar numa passarela da São Paulo Fashion Week, aceitaria? Alexandra ri muito e confessa que aceitaria com grande prazer, seria divertido. Quanto a complementos, usa joias discretas: anéis e brincos mais delicados. Se o vestido for liso, ela gosta de colares vistosos.

Seus longos cabelos crespos, como o das nossas mulatas, ela usa tanto soltos quanto presos. Chegou a fazer duas palestras para o movimento Mulheres Crespas, como um ato político de manter as madeixas ao natural. Foi assim que optou pelo cabelo black power, que o marido gostava muito – mas não aguentou muito tempo e passou a fazer alisamento.

Recado aos ex-camelôs

Na palestra realizada no Pop Center, na última terça-feira, a consulesa francesa deixou seu recado de autoestima e superação. Alexandra foi aluna do filósofo e sociólogo francês Gilles Lipovetsky, que ano passado também foi palestrante dos lojistas do Pop Center. Ele afirma ser a moda um dos instrumentos de inclusão social. Levando a sério essa opinião e inspirada também em sua fantástica vida, Alexandra Loras estimulou os ex-camelôs a desenvolverem sua autoestima e acalentarem sonhos. Mesmo que os considerem irrealizáveis – como aconteceu com ela própria ao desejar ser apresentadora de telejornal, numa época em que só havia negros cantores ou bailarinos nas telinhas europeias. É preciso se reinventar, aproveitar e desenvolver seus dotes. A personalidade internacional que Alexandra mais admira é a americana Oprah Winfrey, que enfrentou uma infância sofrida e abriu caminho em meio às dificuldades a ponto de hoje ser mais rica que a rainha da Inglaterra.

 

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Jussara Romão traz a Porto Alegre a mostra Arquivo Urbano: 100 anos de Fotografia e Moda no Brasil, que será aberta nesta segunda-feira, dia 3 de novembro, no Museu de Comunicação Hipólito José da Costa. Jussara é carioca, artista plástica, designer de joias e autora do livro Arquivo Urbano (Luste Editores), que reúne fotos até 2000 recolhidas em álbuns de família, arquivos de revistas e museus, inclusive o José Felizardo de Porto Alegre. Como curadora da exposição inspirada nesse livro, Jussara espalhou pelo Museu de Comunicação banners de tecidos com impressões de textos e fotos, dando dinâmica à mostra.

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Quem pesquisa moda vai gostar, pois é um painel de fotos que se inicia com vestidos ainda modelados por espartilhos.

A estilista Zuzu Angel (foto abaixo), nome muito ligado à ditadura pelo assassinato de seu filho, tem várias fotos suas na exposição, sempre com modelos urbanos de sua criação, que chegou a mostrar nos Estados Unidos, hoje pertencentes ao acervo do Instituto Zuzu Angel, no Rio de Janeiro.

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Cuidadoras à mesa

“Somos um casal de octogenários e, de vez em quando, necessitamos de cuidadoras em casa para aplicar injeções e fazer algum curativo. Gostaria de saber se convido a profissional para sentar-se conosco à mesa de refeições, mesmo que estejamos em perfeitas condições de nos alimentarmos sozinhos.” BRAZILIA

– Depende muito do contrato de trabalho feito com a cuidadora, pois muitas delas levam seus próprios lanches e se alimentam em lugar reservado. Se não houver empregada na casa, ela atende os clientes à mesa, alcança os pratos e come depois deles, para ter mais liberdade.

Bombons de presente

“Sempre que minha mãe ganha bombons de presente de um convidado, coloca a caixa aberta na mesa de centro da sala e, ao final, acaba sem o presente. É de praxe dividir inclusive uma garrafa de bebida que se ganhou na ocasião?” MARCELA

– Se não houver bufê de sobremesas e os bombons representarem um final adequado a um sorvete ou ao cafezinho, eles são servidos na hora. Em geral, porém, guarda-se o pacote como presente. Usa-se também oferecer garrafa de bebida como gentileza aos anfitriões, gelada e sem pacote. Ela tanto pode ser colocada no refrigerador para outra oportunidade como harmonizada com os vinhos escolhidos para a reunião.

Madrinhas de preto

“Meu casamento será em março, às 18h. As madrinhas vão todas de preto, com um buquê igual de flores multicoloridas, e os padrinhos de terno preto e camisa branca de manga curta com um raminho na lapela de flores iguais às das madrinhas. Eles devem usar gravata preta?” MARIA JOSÉ

Lembre-se de que será verão ainda e estes vestidos pretos deverão ser decotados, para não ficar muito pesado. Há mesmo uma regra que atravessa estações: madrinhas não usam roupa preta. Quanto aos padrinhos, ficaria bem uma camiseta de seda clássica, estilo Armani, gola redonda ou reta (barco). Estou curiosa para saber como estará vestido o casal de noivos.

 

 

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