Clara Averbuck: Chega de buscar pelo amor

Foto: Pexels, reprodução
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Chega de paixão. Chega. Chega da busca pelo amor.

Olha, eu já me despedacei toda por causa desse negócio. Já quis morrer. Já fiz drama. Já fiz chantagem emocional. Já me desesperei, tive crise de pânico, chorei, disse nunca mais. Já fui chantageada. Manipulada. Já achei que tapa na cara era normal.

Já me apaixonei de novo.

Eu aos vinte e dois anos era invencível. Não tinha medo de nada, acreditava cegamente em ideais belíssimos e escrevia textos idem. Escrevia e sentia a eletricidade na ponta dos dedos e o sangue correndo nas veias. Escrevia. Era a única coisa que importava. O resto era baconzitos. Quebrei a cara. Quebrei a cara incontáveis vezes. Dormia quase nada. Acordava pra conversar com as vozes da insanidade que dançavam no teto do meu quarto no 13º andar. Ficava dias em silêncio. Doía. Aí eu levantei e colhi todos os frutos do que veio a ser a pior solidão da minha vida. Faria tudo de novo. Vivi muito e muito rápido. Vivi amores que muita gente evita por medo de perder o controle de sua própria vida. Perdi o controle da minha própria vida. Dirigia um caminhão desgovernado na descida com uma faca entre os dentes enquanto aumentava o som e sentia o vento no rosto. Essa era minha vida. Foi assim por muito tempo. Sem freios e sem pudores. Sem medo, sempre.

Uma árvore esturricada na beira da estrada, uma plantinha sozinha no meio do deserto sabendo que ia morrer. Isso era a vida sem amor na minha cabeça. Eu não cogitava arrependimento porque não hesitava entre fazer e não fazer. Simplesmente fazia. Jovem, né? “Até o fim, até o fim, até o fim” era o meu mantra. Eu girava no globo da morte, eu atormentava minhas próprias noites de sono, eu sofria mas achava que existia um propósito, que era bonito, melhor do que tentar fazer o coração parar de bater. Não ia parar mesmo, então eu simplesmente alimentava aquele compasso anfetaminado e ia. Até o fim.

E agora que escrever essas coisas mexe nas tripas e eu não quero sujar as mãos?

Já me sujei demais. Já rolei na terra vermelha. Já dormi na sarjeta e já esmolei migalhas. Já vivi todos os amores impossíveis e impalpáveis. Já me entreguei pisoteando na razão. Arranquei lágrimas com a crueldade das minhas palavras. Já gastei o que não tinha tentando ser o que jamais serei.

Já chega.

Aquela minha intensidade febril não tem mais lugar. Não quero.

Não é amargor. Não me tornei uma leprosa emocional. Não tenho medo.

Não desaprovo quem rala os joelhos e deixa de lado a dignidade em nome do que quer que seja. Fujo dos amores mornos, dos amores práticos, convenientes, óbvios. Não espero a ausência de dor, me recuso a ficar anestesiada, a sentir pouco, a sentir o conveniente, a ser comedida para não assustar.

O desequilíbrio inicial faz parte da paixão e da falta de chão que o novo traz.

Arrebatamento requer entrega. E eu não vou mais me entregar. Não sem briga. Antes eu simplesmente me deixava levar. Agora eu preciso ser abduzida. Esse vírus que entra e bagunça tudo, essa incerteza que corrói, esse empurrão pro abismo, essa queimação nas entranhas, chega disso, chega, chega disso.
Mentira. Comprei 3 garrafas.

Dom Perignon pra começar, um Bordeaux Chateau Palmer e um Amarone.

Te espero às 10?

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